Formação

Leve a sério sua vida espiritual

Em entrevista coletiva concedida à revista Shalom Maná e ao portal comshalom.org, Emmir Nogueira, cofundadora da Comunidade Católica Shalom, comenta sobre o livro Leve a sério sua vida espiritual: oração aos moldes de Teresa (2015) e a importância da vida espiritual.

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O livro “Leve a sério sua vida espiritual: oração aos moldes de Teresa” aborda a importância da vida de oração, segundo os moldes de Santa Teresa D’Ávila. Lançado em maio, no Fórum Shalom 2015, o livro traz os principais pontos da pedagogia teresiana sobre a vida de oração, além de testemunho pessoal da autora, poemas de Teresa e trechos de uma tese acadêmica sobre autoconhecimento. Confira a entrevista concedida à Revista Shalom Maná e ao Portal Comshalom.org.

Qual a importância de Santa Teresa D’ Ávila para a Vocação Shalom?
É muito interessante nós sabermos como Santa Teresa entrou na obra Shalom, pois muitas pessoas não sabem. Moysés e um grupo dos primeiros do Shalom foram até Dom Aloísio, e eu sempre me preocupava e conversava com Moysés acerca de qual espiritualidade nós iríamos ter. Nesse dia, eu não fui, foram apenas os rapazes; eles perguntaram a Dom Aloísio o que ele sugeria sobre espiritualidade, e ele disse que lêssemos Santa Teresa de Jesus. Desde então, nós começamos a ler Santa Teresa. Pouco tempo depois, Dom Aloísio passou o dia inteiro conosco – como muitos sabem, Dom Aloísio era mestre em espiritualidade, aliás, doutor em espiritualidade – explicando o que era a espiritualidade de Santa Teresa. Logo Santa Teresa entrou na Vocação pelas mãos do arcebispo da época, Dom Aloísio Lorscheider.

leve a serioNeste livro, fala-se da importância da vida espiritual num tempo em que a tecnologia e a modernidade estimulam o homem a buscar uma realização profissional e a avançar em seus conhecimentos. Qual a razão para sugerir que se deva levar a vida espiritual?
Quando o homem, graças a Deus, hoje em dia, leva a sério a busca do conhecimento e da profissionalização… ele está, no fundo, buscando a realização e a felicidade, só que a gente sabe que ele não vai encontrar se ele buscá-las somente no conhecimento e na profissionalização. Então esse apelo para que as pessoas levem a sério sua vida espiritual é, em outras palavras, um apelo para que as pessoas levem a sério o caminho que é o único caminho de felicidade: Deus. Então, sem descuidar do conhecimento e da vida profissional, nós, ou qualquer pessoa, só encontraremos a felicidade, que jamais vai passar, se encontraremos a Deus. Portanto, por mais que a pessoa leve a sério o conhecimento, um dia ele vai passar. Um dia, talvez, a pessoa nem consiga mais acessar porque adoece, porque tem um Alzheimer, sei lá. Mesma coisa para a vida profissional; um dia ele vai ter que parar de exercê-la, mas a vida espiritual… jamais diminui. Se você a leva sério, ela só cresce, só cresce, só te faz mais feliz e te leva para mais perto de Deus, que é o teu grande amigo no final das contas. No final das contas, Ele é o único amigo que fica.

Há muitos livros que propõem a autoajuda, inclusive até pela ótica da espiritualidade. Qual a diferença entre a autoajuda e o autoconhecimento como progresso interior que a vida de oração propõe?
É toda a diferença do mundo; de Norte a Sul! São dois polos. A autoajuda é uma coisa boa, mas é o que o nome diz: uma ajuda que eu dou a mim mesma a partir da perspectiva de alguém que provavelmente já estudou, já passou por aquilo. Já o autoconhecimento feito na oração, na vida espiritual, tem sempre a perspectiva de Deus, a perspectiva da graça de Deus, que te leva a se deixar ajudar por Deus. Então, o primeiro é você que se ajuda a partir da perspectiva de alguém; o segundo, por sua vez, é Deus que te ajuda a partir da perspectiva Dele. Faz, sim, toda a diferença do mundo.

Qual a contribuição da vida espiritual para as questões do homem moderno?
O homem moderno é um homem sem tempo para si e sem tempo para Deus, e não viver a dimensão da alma humana, que a gente chama de dimensão espiritual, dimensão do espírito humano, é empobrecer-se na própria humanidade. Então, o homem moderno, por mais que seja um pouco escravo do tempo, tem necessidade da vida espiritual para se humanizar, para ser inteiramente homem. O homem que vive na correria, vive no estresse, vive para produzir, vive para agradar a A, B ou C ou para ter coisas. Esse homem se desumaniza se ele não tiver um suporte da vida espiritual.

O que seria concretamente levar a sério esse aspecto da oração ao qual o livro se refere?
Coloquei o nome levar a sério porque ele evoca o fala sério, ele evoca a disciplina, ele evoca a seriedade, ele evoca algo muito importante, por isso eu escolhi esse nome. Levar a sério sua vida espiritual significa você aprender a rezar. Na verdade, o livro te ensina a rezar. Não te ensina o passo a passo da oração, porque quem conduz a oração, na verdade, é o Espírito Santo. Então não tem como dar um passo a passo da oração. Posso dar um passo a passo para a Lectio Divina, que é outra coisa, que é o que nossos estudos bíblicos da Comunidade Shalom fazem. Mas até a própria Lectio Divina tem que um dia se soltar desse passo a passo e se tornar uma oração profunda. Então muitas pessoas me perguntavam: “Emmir, o que é uma oração aos moldes de Teresa? O que é uma oração profunda?”. E eu notei que aquilo que para mim era muito óbvio, para as pessoas que vieram num momento histórico posterior da Vocação não era assim tão óbvio. Então eu resolvi tentar dar uma primeira resposta por meio do livro. Mas, pela reação das pessoas, eu tenho visto que esse livro precisa ter uma sequência, uma abordagem de oração mais profunda e um sentido também, que talvez seja necessário até a gente criar… antigamente a gente chamava de “encontros de oração”, “exercícios de oração”… Enfim, algo que possa ajudar as pessoas a passarem um ou dois dias reunidas rezando com uma orientação espiritual para isso.

Quais as indicações de leituras para alguém que se predispõe a seguir este caminho de crescimento na vida espiritual?
As que estão no livro especialmente. Se a pessoa não conhece Santa Teresa, o Livro da Vida, de autoria da própria Santa Teresa, é imprescindível, como também o livro Chave de leitura para o Livro da Vida, escrito pela Meyr, editado pelas Edições. Santa Teresa é uma escritora do tempo barroco, século XVI, então o seu pensamento não é como o nosso hoje. Quando você vai escrever um livro hoje, no nosso tempo, você escreve linear, você evita o escuro e o claro, o alto e o baixo, o exagero… que são típicos do barroco. Naquela época, era tudo ao contrário. As pessoas queriam claro, escuro, em cima, em baixo, com detalhes, por isso Santa Teresa, para a nossa mentalidade, fica um pouco menos linear; precisa, pois, de uma chave de leitura. A primeira referência seria o Livro da Vida e a segunda, O Castelo Interior ou Moradas, também de Santa Teresa. Além de São João da Cruz, Santo Inácio de Loyola… se eu for citar os autores de vida espiritual, os mestres de oração na Igreja, eu não acabo nunca mais (risos), não acabo mais a entrevista de vocês.

O que a vida de Santa Teresa pode ensinar para as pessoas do nosso século?
A vida de Santa Teresa pode ensinar a coisa mais importante e mais indispensável para quem quer viver com Deus: o Amor Esponsal, do qual faz parte a determinada determinação. Santa Teresa era uma mulher de fé extraordinária, mesmo para o século XVI, mulher que não desistia diante de nada. Nada demovia Santa Teresa de fazer o que ela sabia que era vontade de Deus. Eu diria que essa característica dela seria a mais importante para nós hoje. Determinar-se por Deus, deixar o Espírito Santo nos fazer pessoas apaixonadas por Deus e não desistir de Deus por nada nesse mundo nem em outro (risos).

De que modo o Amor Esponsal está presente nesse caminho espiritual?
A vida de oração não é uma vida fácil. A vida de oração exige disciplina, exige luta. Tendo gente postando aí no face (Facebook) que a vida de oração não é valsa, é luta, e é exatamente isso. Essa exigência da vida de oração só é cumprida, vivida, se você amar Jesus acima de tudo, acima de todos e se você tiver o desejo de se unir a Ele. Isso é o Amor Esponsal. Amar a Jesus acima de tudo e de todos e desejar ser um com Jesus. Sem isso, não existe vida de oração. Sem Amor Esponsal, a vida de oração será uma vida quase mecânica, vai ser um relacionamento como aquele com um amigo meio chatinho, da época da escola, que de vez em quando você tem que encontrar e conversar com ele, porque, afinal de contas…né? Mas a vida de oração, pelo contrário, é um encontro diário com Aquele Amigo mais maravilhoso que você pudesse encontrar, por Quem você é completamente apaixonado.

Atualmente, temos muitas distrações, como as redes sociais. Como lidar com tantas coisas que nos propõem a não levar a sério a nossa vida espiritual?
Sempre a mesma coisa: amar a Deus muito acima de você mesmo, entender, não com a sua cabeça — porque com a cabeça é fácil de entender — mas entender com o seu coração, com as suas vísceras, com o lugar mais profundo do seu ser, entender que só Deus basta, só Deus vale a pena. Na hora que eu coloco Deus acima de tudo, as outras coisas se encaixam automaticamente. Na minha experiência, quando a minha vida começa a desencaixar, quando eu começo a não achar tempo para as coisas, quando eu começo a me atropelar, quando eu começo a voltar para os meus vícios, para a minha gula, para a minha preguiça, para a minha covardia, quando eu começo a voltar para essas coisas, eu digo: “ops! Para, para, para! Deus não está acima de tudo. Vamos confessar, vamos ajeitar essa história e vamos colocar Deus acima de todas as coisas”. Aí parece que aperta um botão. Você sai da confissão, o padre dá a absolvição e… “puff”! Tudo entra no lugar. Aí depois desarruma outra vez e você volta. A rede social é uma dessas coisas muito boas, porém nós mandamos nelas, e não elas em nós.

 

Jefferson Privino e Mayara Raulino


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