Formação

Liberal, eu?!

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Depois da pungente despedida ao Papa João Paulo II, o mundo inteiro aguardou – não sem a sua habitual afobação – a escolha do novo papa e dos caminhos a serem trilhados pela igreja neste início de terceiro milênio. Houve bolsas de apostas, interrogaram os cardeais mais influentes (sem-pre ciosos da sua privacidade, como compete aos assuntos do Vaticano), analisaram os perfis dos possíveis papáveis, armaram torcidas para um pontífice progressista e liberal (de preferência do terceiro mundo) e esperaram a cor da cândida fumacinha branca indicativa da decisão. Eis que, de repente, a expectativa se vai e dá lugar à apreensão em plena Praça de São Pedro, quando um homenzinho franzino e de sorriso discreto abre as postas da janela da nova Barca de Pedro, com uma simplicidade e serenidade incomparáveis. Frente a todas as expectativas, o conclave esco-lheu não um papa new age, francamente aberto à abraçar a “modernidade” e o “progresso”, mas um homem de passado marcado por uma luta acirrada contra as “liberdades” doutrinárias, apegado às raízes mais profundas da fé católica. Um “conservador” cuja habilidade, no seio do Vaticano, era brigar contra o relativismo e a maneira frouxa de encarar a fé. Joseph Ratzinger, Prefeito da Con-gregação para a Doutrina da Fé, o “rotweiller de Deus”, o “pastor alemão”, o retrógrado de passado nazista e de pensamento tacanha ganha o trono de Pedro e assume o nome de Bento XVI. A imprensa, no calor da revelação, se fecha na mesquinhez do pensamento reinante, decepcionada pela decisão de uma Igreja que se fecha em si mesma e diz “não” ao mundo tragado pelo grito de liberdade…

Sim, Bento XVI foi o guardião da estreita obediência da doutrina da Igreja e da defesa cega da verdade de Cristo, não resta a menor dúvida. No entanto, longe de se configurar como um passo em falso de um Vaticano que insiste em negar os ideais atuais, é a resposta clara de uma Igreja que quer se ver, mais do que nunca, cristalina na sua obediência e na fidelidade à vontade de Deus. Antes mesmo de se sagrar papa, o Cardeal Ratzinger já abordara, na homilia da missa que precedeu o conclave, o grave problema do relativismo reinante na cultura moderna, frente aos de-safios de um credo que quer se manter coerente frente aos mandamentos da Palavra de Deus. Já como papa, na homilia da missa de início oficial de seu pontificado, ela reafirma a coragem de se opor às tendências liberalizantes: “A Igreja está viva!”. Como nunca, está o catolicismo corajoso em enfrentar os desafios e os preconceitos contra a coerência do Evangelho, quando o mundo impõe a sua visão irresponsável de encarar a fé em Deus.

Relativismo religioso significa encarar de maneira frouxa os desafios que a fé impõe para ser bem vivida e que serve de base para uma coerência espiritual. Cristo assumiu sua Cruz mesmo ela sendo sinal de loucura para os homens. Seguiu obediente a vontade de Deus, seu Pai, sem se deixar guiar pela fúria e pela infidelidade do povo judeu, que respondeu com violência ao seu an-seio de liberdade. Necessário é este grito em favor da verdade, contra um mundo que abraça o valor dos anseios egoístas do homem em detrimento da abertura de coração que é a própria Mise-ricórdia de Deus.

Não importa mais a divisão entre progressistas e conservadores, entre os devotos de Karl Marx, que se dizem libertadores da Igreja, e os que dizem fiéis à tradição da Palavra. Não há que se falar em crescimento da Renovação Carismática contra a queda dos ideais atuais da Teologia da Liber-tação. A palavra do novo papa sinaliza para uma Igreja que busca a sua inspiração primeira – a voz do Espírito Santo que guia o Corpo de Cristo – e o ardor que impulsionou os apóstolos e os fiéis nos primeiros séculos. Se para ser liberal é necessário que a Igreja renuncie à beleza de sua riqueza espiritual (que é o próprio Cristo presente na Eucaristia), então é melhor, para o bem dela e para o de seus filhos, que ela seja taxada, sim, de retrógrada e conservadora. Isso, longe de ser sinal de apego a ideais ultrapassados, ilustra uma religião que guarda, com devoção e respeito, a Verdade de Senhor que é a sua própria história. É a fidelidade do povo de Deus à Sua Palavra que traduz a sua vitalidade e o seu futuro, rumo ao Cristo na glória.

BRENO GOMES FURTADO ALVES


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