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LITURGIA E VOCAÇÃO

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O que é liturgia? Segundo o Pequeno Di¬cionário da Língua Portuguesa, liturgia é: “Complexo de cerimônias eclesiásticas; rito”. Mas, se formos analisar etimologicamente a palavra (do grego: leitl de laós = povo + ourgía/de ergon = ação, dá liturgia),
descobriremos que ela significa: “ação, serviço que se presta ao povo, ao público, à coletividade, à comunidade, serviço público, serviço fraterno”. E aí já vemos que liturgia é bem mais do que pura e simplesmente “rito” ou “cerimônia eclesiástica”. É servir. É serviço. Liturgo é aquele que serve, que ama, que se doa pelo bem dos demais. . .

Sabemos que não foi em primeiro lugar para fazer “cerimônias” no deserto que o povo de Israel foi libertado da escravidão do Egito. O povo foi libertado do Egito para, no deserto, escutar a voz de Deus, isto é, aprender a fazer como Deus faz (= amar!) e ser fiel ao seu amor. Veja a respeito o que dizem os profetas: Amós 6, 21-25; Isaías 1,11-17; Jeremias 7,22-23. Não foi em primeiro lugar para “oferecer sacrifícios” (culto ritual) que Deus chamou o ser humano. Deus o chamou (vocação!) para um culto muito maior. Deus o chamou para cultivar (culto!) aquilo que Deus é: amor, serviço, doação, liturgia. Esta é a vocação do homem: ser liturgo (= serviçal). E só assim é que o homem será feliz, realizado, porque só assim o homem se fará “homem de Deus” (cf. Jr 7,23).

Não foi isso que Jesus Cristo fez? Ao máximo! Radicalmente! Jesus se doou totalmente. Fazendo em tudo a vontade do Pai, serviu até o fim ao ser humano. E o máximo de seu serviço (liturgia) ao Pai e ao Homem se dá na Cruz, onde realmente acontece a máxima entrega. Ofereceu assim um “único sacrifício”, um único culto agradável ao Pai, o único culto (serviço) que foi capaz de ligar novamente o Homem com Deus (of. Hb 10,4-14). Por que? Porque esteve até o fim no cultivo (culto) da vontade do Pai (of. Jo 4,34; Lc 2,49; 4,1-13) e do serviço ao homem (of. Mc 10,45; Lc 22,27; Jo 13,15ss). Por isso ele vive e é exaltado como Senhor (of. f1 2,5-11). Cristo aparece, pois, como Liturgo por excelência, não fazendo “ritos” e “cerimônias” no templo, mas oferecendo-se a si mesmo, doando-se até a morte e morte de Cruz em resgaste de uma multidão. Nele cumpre-se a suprema vocação do homem: liturgia, serviço. Nele e por ele que vive em nós (cf. Gl 2,20), cumpre-se nossa única vocação (chamado) que nos tornará felizes e realizados: liturgia no sentido mais originário da palavra.

Lembro-me daquela palavra de Paulo aos romanos, falando da verdadeira religião. Qual é a verdadeira religião? Paulo responde: “Que apresenteis vossos corpos como hóstia viva, santa e agradável a Deus, à maneira de um culto espiritual. Não vos acomodeis a este mundo, mas reformai-vos pela renovação do vosso espírito, para que saibais aquilatar qual é a vontade de Deus, o que é bom, o que lhe agrada e o que é perfeito” (Rm 12,1-2; cf. F1 2,1-11; Ef 5,1-2; Tg 1,27). Aliás, na própria Liturgia celebrada (Eucaristia), onde Cristo perpetua a sua doação total, nós dizemos: “Que ele faça de nós uma oferenda perfeita. . .” (Oração Eucarística III). Ou: “que. . . nos tornemos em Cristo um sacrifício vivo.. .” (Oração Eucarística IV).

Ora, a vocação religiosa: o que é? Doação de si a serviço da comunidade humana. Ninguém torna-se religioso para si! A pessoa coloca todas as suas potencialidades a serviço de uma multidão. “Oferenda perfeita”. “Sa¬crifício vivo”. Liturgia viva! Vocação religiosa: possibilidade da máxima vivência litúrgica! Culto realmente agradável ao Pai. Destes ado¬radores é que o Pai quer…

E a Missa, como é que fica? Não devemos então fazer “cerimônias” e “ritos”?… O caso é que a Missa não é pura e simplesmente “ceri¬mônia”, “rito”. Ela, no rito é muito mais: é pre¬sença do Liturgo Cristo. “Fazei isto em memó¬ria de mim”, diz o Liturgo. “Isto” o quê? Este ri¬to! Que rito? Esta ceia! Este pão e este vinho! Aí proclamareis a minha presença viva doando-¬me como “Pão que alimenta e que dá vida” e como “Vinho que. . . salva e dá coragem”. Por¬tanto: a Missa, mais do que pura e simplesmen¬te “rito”, é, no rito, o lugar da presença máxima da vocação do homem realizada em Cristo como doação-serviço-liturgia (= Redenção/Li¬bertação). Conseqüentemente é na Liturgia eu¬carística (serviço atual de Cristo ao homem) que a nossa vocação cristã (litúrgica) encontra sua máxima expressão. . . É ali que sempre de novo a liturgia do homem se encontra com a Liturgia de Deus. A vocação do homem se encontra com o chamado salvífico de Deus proclamando ao mundo que a morte foi vencida pela Vida.

Frei José Ariovaldo da Silva, OFM


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