O Instituto Parresia realiza neste sábado (30) uma live especial para refletir sobre as palavras do Papa Leão XIV a respeito da Inteligência Artificial e dos desafios éticos da era digital. O encontro que terá início às 15h no YouTube abordará assuntos como dignidade humana, o trabalho, a liberdade, os vínculos sociais e a responsabilidade para com a criação. O tema tem ocupado espaço crescente na Igreja e na sociedade com a publicação da Encíclica Magnifica Humanitas, lançada na última segunda no Vaticano (25).
À luz da Magnifica Humanitas, o debate sobre inteligência artificial deixa de ser mera disputa entre entusiasmo tecnológico e medo do futuro. O texto propõe outra coisa: um olhar mais sério, centrado no ser humano. A tecnologia, sim, é fruto da criatividade humana — e isso não é problema nenhum. O ponto é que ela passou a ampliar, de forma inédita, o poder do homem sobre si mesmo, sobre os outros e sobre a própria organização da sociedade.
Nesse cenário, a Doutrina Social da Igreja — na linha aberta pela Rerum Novarum — entra de vez no ambiente digital para reafirmar um ponto básico: progresso técnico só faz sentido se estiver subordinado à dignidade da pessoa, ao bem comum e a uma ordem social minimamente justa.
Confira a seguir, os principais eixos dessa reflexão.
Babel ou Neemias? O tipo de sociedade digital que estamos construindo
Logo na introdução, o Papa usa duas imagens bíblicas bem conhecidas para explicar o momento atual: a Torre de Babel e a reconstrução de Jerusalém por Neemias. Babel representa um projeto movido por poder, controle e padronização — tudo muito eficiente, mas profundamente desumanizante. Já Neemias aponta para outra lógica: a da cooperação, da responsabilidade compartilhada e de reconstrução com sentido.
A mensagem é direta: não existe tecnologia neutra. Ela sempre carrega as escolhas de quem a cria, financia e usa. Segundo a encíclica, logo na introdução (nº 9) lemos que “A tecnologia pode curar, conectar, educar, cuidar da Casa comum; mas também pode dividir, descartar, gerar novas injustiças. […] na prática, não é neutra.”
Em suma: podemos usar a tecnologia para concentrar poder — ou para organizar melhor a convivência humana. As duas coisas já estão acontecendo.
Dignidade não se mede em desempenho
No Capítulo II, a encíclica entra numa distinção bastante relevante: nem toda dignidade é igual. Ela separa três dimensões mais visíveis — moral, social e existencial — de algo mais fundamental: a chamada dignidade ontológica. Essa última não depende de desempenho, utilidade ou condição social. Não se perde, não se ganha. Está ali desde sempre.
Isso vira um ponto central quando o texto critica ideias ligadas ao transumanismo e ao pós-humanismo — aquela visão de que o ser humano é um “projeto em aberto”, passível de upgrade técnico constante. O problema dessa lógica é reduzir a pessoa a um objeto aprimorável.
A resposta da Doutrina Social da Igreja é clara: não é apesar da fragilidade que o humano se constrói — é justamente nela que surgem empatia, cuidado e solidariedade. Tirar isso é mexer na própria base da convivência social.
O trabalho na era da IA: mais eficiente, menos humano?
Quando a encíclica desce para o impacto concreto da tecnologia, o enfoque recai no trabalho. A promessa da IA é conhecida: mais produtividade, mais eficiência, menos esforço. Mas o texto chama atenção para um efeito colateral importante.
O que começa como automação pode terminar em desqualificação. O trabalhador deixa de ser sujeito do processo e vira executor de tarefas fragmentadas — muitas vezes sob vigilância constante. A crítica aqui é bem direta: tecnologia que aumenta a produção, mas reduz autonomia, não melhora o trabalho — esvazia-o. No limite, isso cria uma nova forma de submissão. É o que o texto chama, com acerto, de “escravidão invisível”.
“Desarmar a IA”: quando o problema deixa de ser técnico e vira geopolítico
Talvez o ponto mais novo da encíclica esteja aqui. A discussão sobre IA normalmente gira em torno de riscos técnicos ou éticos. O Papa dá um passo além: trata a IA como um problema de poder global. A ideia de “desarmar a IA” não tem nada a ver com frear inovação. O alvo é outro: a lógica de competição que vem se formando.
Hoje, a disputa não é só militar. É também corrida por algoritmos mais eficientes, concentração de dados e, ainda, domínio de infraestrutura digital. Quem ganha isso não só lucra — passa a influenciar decisões econômicas, políticas e até sociais.
O problema? Esse poder está concentrado em poucos atores, muitas vezes fora do alcance de controle democrático. Assim, desarmr ganha um sentido mais amplo: devolver à sociedade alguma capacidade de decidir sobre o rumo dessas tecnologias. A encíclica termina sem apelos grandiosos ou soluções mágicas. O tom é realista. A provocação é simples — e difícil ao mesmo tempo: ninguém precisa controlar o futuro inteiro. Mas todo mundo responde pelo pedaço em que atua.
A citação de Tolkien (bem colocada, aliás) resume isso melhor que qualquer tratado:
“não nos cabe dominar tudo, mas cuidar do que está ao nosso alcance — para deixar o terreno minimamente melhor para quem vem depois.”
No fim, a mensagem é bem alinhada com a tradição da Doutrina Social: o problema não é a tecnologia em si, mas o uso dela. E o uso, no fim das contas, se resume ao tipo de sociedade a gente está disposto a construir.
Serviço
LIVE ESPECIAL | Magnifica Humanitas
🗓️ Sábado | 30.05 | às 15h
📺 YouTube do Instituto Parresia