Uma vez ao ano, na Quaresma, toda a cidade de Diego Soares, na ilha de Madagascar, costuma fazer uma peregrinação à Montanha dos Franceses. É uma mistura de fé e cultura. Lá, católicos e não católicos da cidade, se unem ao Bispo local para contemplar as estações da Via Sacra enquanto sobem a montanha.
Ao nos prepararmos pra subir, o medo do que iríamos encontrar durante a trilha era visível, pois afinal, éramos todos brasileiros que estavam ali pela primeira vez. Mas o medo não nos paralisou. Lá em cima aconteceria a Santa Missa, a Eucaristia, e a beleza da criação nos motivou a continuar.
Porém uma coisa me chamou a atenção: quanto mais subíamos, mais ficava difícil chegar ao final, pois a chuva e o lamaçal eram intensos. Assim também são os nossos dias na busca pela santidade: no início dá um certo medo, mas vamos caminhando devagar até chegar no nosso alvo, o Céu.
Tinha lama de muitas cores (bege, vermelha, laranja, preta…), e cada uma mais escorregadia que a outra. Além de chegar no topo da montanha, ainda queríamos chegar com o mínimo de sujeira possível. Pra isso, fomos vendo as estratégias para subir: se agarrar nas vegetações, subir pela correntezas formadas pela chuva… Tudo isso ajudava bastante, mas o mais eficiente era o companheirismo. É isso mesmo: subir de dois em dois.
Lembro-me da pergunta do povo a Pedro e aos demais apóstolos no livro dos Atos: “Meus irmãos, o que devemos fazer?” [1] Com isso, Pedro mostra para aquele povo o caminho de conversão e santidade até a plenitude do Céu. Mas na montanha, quando alguém não conseguia se equilibrar para subir, bastava pedir ajuda, e aqueles que já tinham conseguido dar um passo à frente, vinha ao socorro.
Eis que chegamos ao topo. Sujos pela lama, molhados pela chuva, mas felizes pela experiência. Muitos já tinham chegado há um tempo e aguardavam o início do Celebração. A primeira imagem que eu encontro é de pessoas organizadas em filas enormes e alguns padres espalhados no meio da multidão ministrando o Sacramento da Reconciliação. Ali era a misericórdia sendo ministrada no meio da floresta. É como se depois dos passos de cada dia, depois de tanto lamaçal no caminho, o perdão quisesse nos lavar e nos fazer novos.
Como no costume africano, a Eucaristia é uma festa. A devoção, a piedade e ao mesmo tempo alegria daquele povo nos constrangia e nos contagiava. Eram sorrisos e danças, oração e entrega. A alegria de celebrar a Eucaristia em unidade com toda a Igreja me fez lembrar que o Céu é cheio de plenitude e paz.
Ao fim, antes do entardecer, precisávamos encarar toda aquela lama mais uma vez para descer a 
segredos que nos levam até lá com segurança. E se acaso perdermos o equilíbrio e a lama do pecado nos sujar, a Misericórdia do Senhor nos fará homens novos através do Sacramento da Reconciliação.
[1] – Atos 2, 37
Lorena Alencar





