Ele tinha me preparado. Estava agitado, pensamentos contrários o faziam falar palavras soltas. No seu rosto, aquela linha entre as sobrancelhas, lábios contraídos, ora pálido, ora enrubescido. Não conseguia organizar a bolsa. Olhava para o céu, para mim, para o horizonte, nunca para si.
Desde criança, nunca olhou para si, e isso o fazia justo. Era exato em suas atitudes, antecipava-se, percebia e agia sempre discretamente.
Aquelas horas eram infinitas, densas, grossas, era noite. Eu percebia o orvalho e as milhões de estrelas que no nosso céu são vistas. Fomos partir antes do anoitecer, seríamos guiados pela Estrela da Manhã. Ela! Onde estava Ela? Não iria? Como ele se transformava ao seu lado… Era incrível. Até eu ficava diferente. Ela é perfeita! A que compará-la? Como chegou? Não consigo lembrar, mas ir sem Ela? Para onde?
Eles eram tão diferentes! Ele, muito prático, Ela, muito simples, delicada, segura. Sábia, transparente. Não pode haver outra assim. Tinha algo tão sagrado nela, que eu não a via sem baixar a cabeça, tinha algo que a tornava gigante em sua pequenez. Era como se o Criador se escondesse dentro dela e se revelasse por Ela, derramando-se de suas mãos, dos seus olhos e de seu lindo sorriso.
Cansado, exausto, aflito de tanto elevar as mãos aos céus, ele caiu em um sono dos justos que, quando dormem, escutam a Deus.
Ah! Agora sim eu o conhecia! Ria, louvava, se apressava. Esse caminho eu já sabia, era o da casa dela. Era dia, sol, poeira e alegria.
Como estava bela, diferente: mãe e mulher. Não era mais aquela menina, havia amadurecido. Sorria um sorriso que cuida, que é amigo, que acalma tudo. Grave, senhora de si.
Quando dei por mim, já estava de joelhos diante dela. Se olhavam, riam, choravam, ele abaixava o olhar e Ela o elevava.
Enquanto íamos, nós quatro, os outros dois ficavam para trás. Era a primeira vez. Não, na verdade a primeira havia sido há três meses. Mas dessa vez, Ela não ia voltar. O olhar dos outros dois, dos seus queridos pais, a abençoava. E nós ganhávamos a estrada. Já éramos quatro.
Fiquei chateado por não ter ido à festa. Nessas horas, ninguém me chama. Mas foi tudo simples e belo, pelo que me disseram.
Uma hora dessas? Ai, ai, ai…para a “casa do pão”¹? Alguém pode me explicar o que
está acontecendo?
Nunca o vi tão decidido. Aquilo para mim era loucura. Ela também não entendia, mas me impressionava como se submetia a ele, como era humilde, confiante e arrumava tudo como se a ideia tivesse sido dela. Só perguntava o essencial.
Éramos de novo os quatro na estrada. A Mãe e o Menino. Que ofício nobre o meu. Ele dizia saber o caminho. Era certo que ele não mentia, mas não sei bem a que tipo de saber se referia, com certeza não era o geográfico. Ele sempre sabe o melhor caminho, posso afirmar com propriedade que nunca é o mais fácil. Vai por montes e ribeiras, olha para as flores mas não as colhe, e passa por fortes e fronteiras.
A hora… Será que ninguém vai abrir essa porta? Se ele deixasse, eu dava meu jeito. Ela, tão paciente, como pode ser? Um “não” após o outro. E ele não se abalava, Deus os daria o melhor lugar.
Devem ter aberto, deixaram-me aqui. Estava exausto.
O quê? O que Ela está fazendo? Não, calma, aqui? Assim? Mas… Uns paninhos, umas palhinhas, um amor infinito… E pronto!
Como aquilo aconteceu, eu não sei; mas de uma fonte lacrada nasceu a Água Viva. Pastores e reis, anjos e animais…silêncio, leite, choro, silêncio… Vinde adorar Este que é.
Lívia Pereira
missionária da Comunidade Católica Shalom
1. Belém significa “casa do pão”.
