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Maria na vida da Igreja e de cada cristão

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Maria na vida da Igreja e de cada cristão

 O Concílio Vaticano II, situando-se na linha da Tradição,projectou uma nova luz sobre o papel da Mãe de Cristo na vida da Igreja."A bem-aventurada Virgem Maria … pelo dom da maternidade divina, que aune com o seu Filho Redentor, e ainda pelas suas graças e funções singulares,encontra-se também intimamente unida à Igreja: a Mãe de Deus é a figura daIgreja… e isso, na ordem da fé, da caridade e da perfeita união comCristo".  Já vimos anteriormente queMaria permanece desde o princípio com os Apóstolos, enquanto esperam oPentecostes, e que, sendo a "feliz porque acreditou", de geração emgeração ela está presente no meio da Igreja que faz a sua peregrinação na fé,sendo para ela igualmente modelo da esperança que não decepciona (cf. Rom 5,5).

 Maria acreditou que se cumpririam aquelas coisas que lhetinham sido ditas da parte do Senhor. Como Virgem, acreditou que conceberia edaria à luz um filho: o "Santo", ao qual corresponde o nome de"Filho de Deus", o nome de "Jesus" (= Deus que salva). Comoserva do Senhor, permaneceu perfeitamente fiel à pessoa e à missão deste seuFilho. Como Mãe, "pela sua fé e obediência… gerou na terra o próprioFilho de Deus, sem ter conhecido homem, mas por obra e graça do EspíritoSanto".

 Por estes motivos "Maria … é com razão honrada pelaIgreja com culto especial; … já desde os tempos mais antigos, a SantíssimaVirgem é venerada com o título de "Mãe de Deus" e sob a sua protecçãose acolhem os fiéis, que a imploram em todos os perigos e necessidades",  Este culto é absolutamente singular: contém emsi e exprime aquele vínculo profundo que existe entre a Mãe de Cristo e aIgreja. Como virgem e mãe, Maria permanece um "modelo perene" para aIgreja. Pode, portanto, dizer-se que sobretudo sob este aspecto, isto é, comomodelo ou, melhor, como "figura", Maria, presente no mistério deCristo, permanece também constantemente presente no mistério da Igreja. Comefeito, também a Igreja "é chamada mãe e virgem"; e estes nomes têmprofunda justificação bíblica e teológica.

 A Igreja "torna-se mãe … pela fiel recepção dapalavra de Deus"  Como Maria, quefoi a primeira a acreditar, acolhendo a palavra de Deus que lhe foi revelada naAnunciação e a ela permanecendo fiel em todas as provações até à Cruz, assimtambém a Igreja se torna mãe quando, acolhendo com fidelidade a palavra deDeus, pela pregação e pelo baptismo, gera para uma vida nova e imortal osfilhos, concebidos por obra do Espírito Santo e nascidos de Deus".  Esta característica "materna" daIgreja foi expressa dum modo particularmente vívido pelo Apóstolo das Gentes,quando escreveu: "Meus filhinhos, por quem sofro novamente as dores departo, até que Cristo não se tenha formado em vós"! (Gál 4, 19). Nestaspalavras de São Paulo está contida uma indicação interessante: da consciênciaque tinha a Igreja primitiva da função maternal, que andava ligada ao seuserviço apostólico entre os homens. Tal consciência permitia e constantementepermite à Igreja encarar o mistério da sua vida e da sua missão à luz doexemplo da Genetriz do Filho de Deus, que é "o primogénito entre muitosirmãos" (Rom 8, 29).

 A Igreja, em certo sentido, apreende de Maria também o que éa própria maternidade: ela reconhece esta dimensão maternal da própria vocação,como algo ligado essencialmente à sua natureza sacramental, "contemplandoa sua santidade misteriosa, imitando a sua caridade e cumprindo fielmente avontade do Pai".  O facto de aIgreja ser sinal e instrumento da íntima união com Deus tem a sua base namaternidade que lhe é própria: porque, vivificada pelo Espírito Santo,"gera" filhos e filhas da família humana para uma vida nova em Cristo. Com efeito,assim como Maria está ao serviço do mistério da Incarnação, também a Igrejapermanece ao serviço do mistério da adopção como filhos mediante a graça.

 Ao mesmo tempo, a exemplo de Maria, a Igreja permanece avirgem fiel ao próprio Esposo: "Também ela é virgem, que guarda íntegra epura a fé jurada ao Esposo",  AIgreja, de facto, é a esposa de Cristo, como resulta das Cartas paulinas (cf.Ef 5, 21-33; 2 Cor 11, 2) e da maneira como São João a designa: "a Esposado Cordeiro" (Apoc 21, 9). Se a Igreja como esposa "guarda a féjurada a Cristo", esta fidelidade, embora no ensino do Apóstolo se tenhatornado imagem do matrimónio (cf. Ef 5, 23-33), possui também o valor de ser otipo da total doação a Deus no celibato "por amor do Reino dos céus",ou seja, da virgindade consagrada a Deus (cf. Mt 19, 11-12; 2 Cor 11, 2). Estavirgindade precisamente, a exemplo da Virgem de Nazaré, é fonte de uma especialfecundidade espiritual: é fonte da maternidade no Espírito Santo.

 Mas a Igreja guarda também a fé recebida de Cristo: aexemplo de Maria, que guardava e meditava no seu coração (cf. Luc 2, 19. 51)tudo o que dizia respeito ao seu divino Filho, ela está empenhada em guardar aPalavra de Deus, apurando as suas riquezas com discernimento e prudência, paradar sempre da mesma, ao longo dos tempos, testemunho fiel a todos os homens.

 Existindo esta relação de exemplaridade, a Igrejadescobre-se em Maria e procura tornar-se semelhante a ela: "A imitação daMãe do seu Senhor e por virtude do Espírito Santo, conserva virginalmenteíntegra a fé, sólida a esperança e sincera a caridade"  Maria está presente, portanto, no mistério daIgreja como modelo. Mas o mistério da Igreja consiste também em gerar os homenspara uma vida nova e imortal: é a sua maternidade no Espírito Santo. E nisto,Maria não é só modelo e figura da Igreja; mas é muito mais do que isso. Comefeito, "ela coopera com amor de mãe para a regeneração e formação"dos filhos e filhas da mãe Igreja. A maternidade da Igreja realiza-se não sósegundo o modelo e a figura da Mãe de Deus, mas também com a sua"cooperação". A Igreja vai haurir copiosamente nesta cooperação deMaria, isto é, na mediação materna que é característica de Maria, no sentido deque já na terra ela cooperou na regeneração e formação dos filhos e das filhasda Igreja, sempre como Mãe daquele Filho" que Deus constituiu oprimogénito entre muitos irmãos".

 Para isto "cooperou – como ensina o Concílio VaticanoII – com amor de mãe. 1Descobre-se aqui o valor real das palavras de Jesus, nahora da Cruz, à sua Mãe: "Mulher, eis o teu filho", e ao discípulo:"Eis a tua mãe" (Jo 19, 26-27). São palavras que determinam o lugarde Maria na vida dos discípulos de Cristo e exprimem – como já disse – a suanova maternidade como Mãe do Redentor: a maternidade espiritual, que nasceu domais íntimo do mistério pascal do Redentor do mundo. Trata-se de umamaternidade na ordem da graça, porque invoca o dom do Espírito Santo quesuscita os novos filhos de Deus, remidos pelo sacrifício de Cristo: daquelemesmo Espírito que, conjuntamente com a Igreja, também Maria recebeu no dia doPentecostes.

 Esta sua maternidade é particularmente advertida e vividapelo povo cristão no Banquete sagrado – celebração litúrgica do mistério daRedenção – no qual se torna presente Cristo, no seu verdadeiro Corpo nascido daVirgem Maria.

 Com boa razão, pois, a piedade do povo cristão vislumbrousempre uma ligação profunda entre a devoção à Virgem Santíssima e o culto daEucaristia: pode comprovar-se este facto, na liturgia, tanto ocidental comooriental, na tradição das Famílias religiosas, na espiritualidade dosmovimentos contemporâneos, mesmo dos movimentos juvenis, e na pastoral dossantuários marianos. Maria conduz os fiéis à Eucaristia.

 É algo essencial à maternidade o facto de ela envolver apessoa. Ela determina sempre uma relação única e irrepetível entre duaspessoas: da mãe com o filho e do filho com a mãe. Mesmo quando uma só"mulher" é mãe de muitos filhos, a sua relação pessoal com cada umdeles caracteriza a maternidade na sua própria essência. Cada um dos filhos, defacto, é gerado de modo único e irrepetível; e isto é válido tanto para a mãecomo para o filho. Cada um dos filhos é circundado, de modo único eirrepetível, daquele amor materno em que se baseia a sua formação e maturaçãoem humanidade.

 Pode dizer-se que "a maternidade na ordem dagraça" tem analogia com o que "na ordem da natureza" caracterizaa união da mãe com o filho. A luz disto, torna-se mais compreensível o motivopelo qual, no testamento de Cristo no Gólgota, esta maternidade de sua Mãe épor Ele expressa no singular, em relação a um só homem: "Eis o teufilho".

 Pode dizer-se, ainda, que nestas mesmas palavras estáplenamente indicado o motivo da dimensão mariana da vida dos discípulos deCristo: não só de São João, que naquela hora estava aos pés da Cruz, juntamentecom a Mãe do seu Mestre, mas também de todos os demais discípulos de Cristo ede todos os cristãos. O Redentor confia sua Mãe ao discípulo e, ao mesmo tempo,dá-lha como mãe. A maternidade de Maria que se torna herança do homem é um dom:um dom que o próprio Cristo faz a cada homem pessoalmente. O Redentor confiaMaria a João, na medida em que confia João a Maria. Aos pés da Cruz teve o seuinício aquela especial entrega do homem à Mãe de Cristo, que ao longo dahistória da Igreja foi posta em prática e expressa de diversas maneiras. Quandoo mesmo Apóstolo e Evangelista, depois de ter referido as palavras dirigidaspor Jesus do alto da Cruz à Mãe e a si próprio, acrescenta: "E, a partirdaquele momento, o discípulo levou-a para sua casa" (Jo 19, 27), estaafirmação quer dizer, certamente, que ao discípulo foi atribuído um papel defilho e que ele tomou ao seu cuidado a Mãe do Mestre que amava. E uma vez queMaria lhe foi dada pessoalmente a ele como mãe, a afirmação indica, emboraindirectamente, tudo o que exprime a relação íntima de um filho com a mãe. Etudo isto pode encerrar-se na palavra "entrega". A entrega é a respostaao amor duma pessoa e, em particular, ao amor da mãe.

 A dimensão mariana da vida de um discípulo de Cristoexprime-se, de modo especial, precisamente mediante essa entrega filial emrelação à Mãe de Cristo, iniciada com o testamento do Redentor no alto doGólgota. Confiando-se filialmente a Maria, o cristão, como o Apóstolo São João,acolhe "entre as suas coisas próprias" a Mãe de Cristo e introdu-laem todo o espaço da própria vida interior, isto é, no seu "eu" humanoe cristão: "levou-a para sua casa". Assim procura entrar no âmbito deirradiação em que se actua aquela "caridade materna", com que a Mãedo Redentor "cuida dos irmãos do seu Filho",  para cuja regeneração e formação elacoopera",  segundo a medida do domprópria de cada um, pelo poder do Espírito de Cristo. Assim se vai actuandotambém aquela maternidade segundo o Espírito, que se tornou função de Maria aospés da Cruz e no Cenáculo.

 Esta relação filial, este entregar-se de um filho à Mãe, nãosó tem o seu início em Cristo, mas pode dizer-se que está definitivamenteorientado para ele. Pode dizer-se, ainda, que Maria continua a repetir a todosas mesmas palavras, que disse outrora em Caná da Galileia: "Fazei o queele vos disser". Com efeito, é ele, Cristo, o único Mediador entre Deus eos homens; é ele "o caminho, a verdade e a vida" (Jo 14, 6); e éaquele que o Pai doou ao mundo, para que o homem "não pereça mas tenha avida eterna" (Jo 3, 16). A Virgem de Nazaré tornou-se a primeira"testemunha" deste amor salvífico do Pai e deseja também permanecer asua humilde serva sempre e em toda a parte. Em relação a todos e cada um doscristãos e a cada um dos homens, Maria é a primeira na fé: é "aquela queacreditou"; e, precisamente com esta sua fé de esposa e de mãe, ela queractuar em favor de todos os que a ela se entregam como filhos. E é sabido quequanto mais estes filhos perseveram na atitude de entrega e mais progridemnela, tanto mais Maria os aproxima das "insondáveis riquezas deCristo" (Ef 3, 8). E, de modo análogo, também eles reconhecem cada vezmais em toda a sua plenitude a dignidade do homem e o sentido definitivo da suavocação, porque "Cristo … revela também plenamente o homem aohomem".

 Esta dimensão mariana da vida cristã assume um relevoparticular no que respeita à mulher e à condição feminina. Com efeito, afeminilidade encontra-se numa relação singular com a Mãe do Redentor, assuntoque poderá ser aprofundado num outro contexto. Aqui desejaria somente salientarque a figura de Maria de Nazaré projecta luz sobre a mulher enquanto tal, pelofacto exactamente de Deus, no sublime acontecimento da Incarnação do Filho, seter confiado aos bons préstimos, livres e activos da mulher. Pode, portanto,afirmar-se que a mulher, olhando para Maria, nela encontrará o segredo paraviver dignamente a sua feminilidade e levar a efeito a sua verdadeira promoção.A luz de Maria, a Igreja lê no rosto da mulher os reflexos de uma beleza, que éespelho dos mais elevados sentimentos que o coração humano pode albergar: atotalidade do dom de si por amor; a força que é capaz de resistir aos grandessofrimentos; a fidelidade sem limites, a perosidade incansável e a capacidadede conjugar a intuição penetrante com a palavra de apoio e encorajamento.

 Durante o Concílio, o Papa Paulo VI afirmou solenemente queMaria é Mãe da Igreja, "isto é, Mãe de todo o povo cristão, tanto dosfiéis como dos Pastores".  Maistarde, em 1968, na Profissão de Fé conhecida com o nome de "Credo do Povode Deus", repetiu essa afirmação de forma ainda mais compromissiva, usandoas palavras: "Nós acreditamos que a Santíssima Mãe de Deus, nova Eva, Mãeda Igreja, continua no Céu a sua função maternal em relação aos membros deCristo, cooperando no nascimento e desenvolvimento da vida divina nas almas dosremidos".

 O magistério do Concílio acentuou que a verdade sobre aVirgem Santíssima, Mãe de Cristo, constitui um subsídio eficaz para oaprofundamento da verdade sobre a Igreja. O mesmo Papa Paulo VI, ao tomar apalavra a propósito da Constituição Lumen Gentium, que acabava de ser aprovadapelo Concílio, disse: "O conhecimento da verdadeira doutrina católicasobre a Bem -aventurada Virgem Maria constituirá sempre uma chave para acompreensão exacta do mistério de Cristo e da Igreja",  Maria está presente na Igreja como Mãe deCristo e, ao mesmo tempo, como a Mãe que o próprio Cristo, no mistério daRedenção, deu ao homem na pessoa do Apóstolo São João. Por isso, Maria abraça,com a sua nova maternidade no Espírito, todos e cada um na Igreja; e abraçatambém todos e cada um mediante a Igreja. Neste sentido, Maria, Mãe da Igreja,é também modelo da Igreja. Esta, efectivamente – como preconiza e solicita oPapa Paulo VI – deve ir "buscar na Virgem Mãe de Deus a forma maisautêntica da perfeita imitação de Cristo".

 Graças a este vínculo especial, que une a Mãe de Cristo àIgreja, esclarece-se melhor o mistério daquela "mulher" que, desde osprimeiros capítulos do Livro do Génesis até ao Apocalipse, acompanha arevelação do desígnio salvífico de Deus em relação à humanidade. Maria, defacto, presente na Igreja como Mãe do Redentor, participa maternalmente naquele"duro combate contra os poderes das trevas …, que se trava ao longo detoda a história humana",  E emvirtude desta sua identificação eclesial com a "mulher vestida desol" (Apoc 12, 1), pode dizer-se que "a Igreja alcançou já na VirgemSantíssima aquela perfeição, que faz que ela se apresente sem mancha nemruga"; todavia, os cristãos, levantando os olhos com fé para Maria, aolongo da sua peregrinação na terra "continuam ainda a esforçar-se porcrescer na santidade".Maria, a excelsa filha de Sião, ajuda a todos osseus filhos – onde quer que vivam e como quer que vivam – a encontrar em Cristoo caminho para a casa do Pai.

 Por conseguinte, a Igreja mantém, em toda a sua vida, umaligação com a Mãe de Deus que abraça, no mistério salvífico, o passado, opresente e o futuro; e venera-a como Mãe espiritual da humanidade e Advogada naordem da graça.

 Introdução
Parte 1

Parte 1.1

Parte 1.2
Parte 2
Parte 2.1
Parte 2.2
Parte 3
Parte 3.1


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