Formação

Maria no centro da Igreja

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A MÃE DE DEUS NO CENTRO DA IGREJA QUE ESTÁ A CAMINHO

A Igreja, Povo de Deus presente em todas as nações da terra

"A Igreja "prossegue a sua peregrinação no meio das perseguições do mundo e das consolações de Deus", anunciando a paixão e a morte do Senhor até que ele venha (cf. 1 Cor 11,26)". "Assim como Israel segundo a carne, que peregrinava no deserto, é já chamado Igreja de Deus (cf. Esdr 13, 1; Núm 20, 4; Dt 23, 1 ss.), também o novo Israel… se chama Igreja de Cristo (cf. Mt 16,18), porque Ele a adquiriu com o seu próprio sangue (cf. Act 20, 28), a encheu com o seu Espírito e a dotou com os meios adequados para a unidade visível e social. A todos aqueles que olham com fé para Jesus, como autor da salvação e princípio de unidade e de paz, Deus convocou-os e constituiu com eles a Igreja, a fim de que ela seja para todos e cada um sacramento visível desta unidade salvífica".

 

O Concílio Vaticano II fala da Igreja que ainda está a caminho, estabelecendo uma analogia com o Israel da Antiga Aliança em peregrinação através do deserto. A peregrinação possui um carácter também externo, visível no tempo e no espaço, em que ela se efectua historicamente. A Igreja, de facto, "devendo estender-se a toda a terra", "entra na história dos homens, mas simultaneamente transcende os tempos e as fronteiras dos povos". Porém, o carácter essencial desta peregrinação da Igreja é interior: trata-se de uma peregrinação mediante a fé, pela "virtude do Senhor ressuscitado", de uma peregrinação no Espírito Santo, que foi dado à Igreja como Consolador invisível (paraklétos) (cf. Jo 14,26; 15, 26; e 16,7): "Por entre as tentações e tribulações que vai encontrando no seu peregrinar, a Igreja é confortada pela força da graça de Deus, que lhe foi prometida pelo Senhor, para que… não cesse nunca de renovar-se, com o auxílio do Espírito Santo, até que, pela Cruz, chegue àquela luz que não conhece ocaso".

 

Precisamente ao longo desta caminhada-peregrinação eclesial, através do espaço e do tempo e, mais ainda, através da história das almas, Maria está presente, como aquela que é "feliz porque acreditou", como aquela que avançava na peregrinação da fé, participando como nenhuma outra criatura no mistério de Cristo. Diz ainda o Concílio que "Maria … pela sua participação íntima na história da salvação, reúne, por assim dizer, e reflecte em si os imperativos mais altos da fé". Ela é, entre todos os que acreditam, como um "espelho", em que se reflectem da maneira mais profunda e mais límpida "as maravilhas de Deus" (Act 2, 11).

 Edificada por Cristo sobre os Apóstolos, a Igreja tornou-se plenamente cônscia destas "maravilhas de Deus" no dia do Pentecostes, quando os que estavam congregados no Cenáculo de Jerusalém "ficaram todos cheios do Espírito Santo e começaram a falar outras línguas, segundo o Espírito Santo lhes concedia que se exprimissem" (Act 2, 4). A partir desse momento começa também aquela caminhada de fé, a peregrinação da Igreja através da história dos homens e dos povos. É sabido que, ao iniciar-se essa caminhada, Maria se encontrava presente; vemo-la no meio dos Apóstolos no Cenáculo de Jerusalém, "implorando com as suas orações o dom do Espírito".

 

A sua caminhada de fé, em certo sentido, é mais longa. O Espírito Santo já tinha descido sobre ela, que se tornou sua fiel esposa na Anunciação, acolhendo o Verbo de Deus vivo, rendendo "o obséquio pleno da inteligência e da vontade e prestando o voluntário assentimento à Sua revelação"; ou melhor, abandonando-se totalmente nas mãos de Deus, "mediante a obediência de fé", pelo que respondeu ao Anjo: "Eis a serva do Senhor! Faça-se em mim segundo a tua palavra" (Lc 1, 38). Assim, a caminhada de fé de Maria, que vemos a orar no Cenáculo, é "mais longa" do que a dos outros que aí se encontravam reunidos: Maria "precede-os", "vai adiante" deles. O momento do Pentecostes em Jerusalém foi preparado pelo momento da Anunciação em Nazaré. No Cenáculo, o "itinerário" de Maria encontra-se com a caminhada da fé da Igreja. E de que modo?

 

Entre aqueles que eram assíduos à oração no Cenáculo, preparando-se para ir "por todo o mundo" depois de receber o Espírito Santo, alguns tinham sido chamados por Jesus, uns após outros, sucessivamente, desde os primórdios da sua missão em Israel. Onze dentre eles tinham sido constituídos Apóstolos; e a estes Jesus tinha transmitido a missão que ele próprio recebera do Pai: "Assim como o Pai me enviou, também eu vos envio a vós" (Jo 20, 21), tinha Ele dito aos mesmos Apóstolos depois da Ressurreição. E, passados quarenta dias, antes de voltar para o Pai, tinha acrescentado ainda: "quando o Espírito Santo tiver descido sobre vós…, sereis minhas testemunhas até às extremidades da terra" (cf. Act 1, 8). Esta missão dos Apóstolos teve início a partir do momento da sua saída do Cenáculo de Jerusalém. A Igreja nasce e começa então a crescer, mediante o testemunho que Pedro e os demais Apóstolos dão acerca de Cristo crucificado e ressuscitado (cf. Act 2, 31-34; 3, 15-18; 4, 10-12; 5, 30-32).

 

Maria não recebeu directamente esta missão apostólica. Não se encontrava entre aqueles que Jesus enviou "por todo o mundo para ensinar todas as gentes" (cf. Mt 28, 19), quando lhes conferiu tal missão. Estava, porém, no Cenáculo, onde os Apóstolos se preparavam para assumir esta sua missão com a vinda do Espírito da Verdade: Maria estava com eles. No meio deles ela era "assídua na oração" como Mãe de Jesus" (cf. Act 1, 13-14), ou seja, de Cristo crucificado e ressuscitado. E esse primeiro núcleo daqueles que se voltavam "com fé para Jesus Cristo, autor da salvação", estava consciente de que o mesmo Jesus era o Filho de Maria e que ela era sua Mãe; e como tal desde o momento da concepção e do nascimento, ela era uma testemunha especial do mistério de Jesus, daquele mistério que tinha sido expresso e confirmado diante dos seus olhos com a Cruz e a Ressurreição. A Igreja, portanto, desde o primeiro momento, "olhou" para Maria através de Jesus, como também "olhou" para Jesus através de Maria. Ela foi para a Igreja de então e de sempre uma testemunha singular dos anos da infância de Jesus e da sua vida oculta em Nazaré, período em que ela "conservava todas estas coisas, ponderando-as no seu coração" (Lc 2, 19; Lc 2, 51).

 

Mas na Igreja de então como na Igreja de sempre, Maria foi e é, sobretudo, aquela que é "feliz porque acreditou": foi quem primeiro acreditou. Desde o momento da Anunciação e da concepção e depois do nascimento na gruta de Belém, Maria acompanhou passo a passo Jesus, na sua materna peregrinação de fé. Acompanhou-o ao longo dos anos da sua vida oculta em Nazaré; acompanhou-o também durante o período da separação externa, quando ele começou a dedicar-se às "obras e ao ensino" (cf. Act 1, 1 ) no seio de Israel; e acompanhou-o, sobretudo, na experiência trágica do Gólgota. E agora, enquanto Maria se encontrava com os Apóstolos no Cenáculo de Jerusalém, nos albores da Igreja, recebia confirmação a sua fé, nascida das palavras da Anunciação. O Anjo tinha-lhe dito então: "Conceberás e darás à luz um filho, ao qual porás o nome de Jesus. Ele será grande … e reinará eternamente sobre a casa de Jacob e o seu reinado não terá fim" (Lc 1, 32-33). Os acontecimentos do Calvário, havia pouco ainda, tinham envolvido em trevas esta promessa; e contudo, mesmo aos pés da Cruz, não tinha desfalecido a fé de Maria. Ela, ainda ali, permanecia aquela que, como Abraão, "acreditou, esperando contra toda a esperança" (Rom 4, 18). E assim, depois da Ressurreição, a esperança tinha desvelado o seu verdadeiro rosto e a promessa tinha começado a transformar-se em realidade. Com efeito, Jesus, antes de voltar para o Pai, dissera aos Apóstolos: "Ide e ensinai todas as gentes… Eis que eu estou convosco, todos os dias, até ao fim do mundo" (cf. Mt 28, 19. 20). Dissera assim aquele que, com a sua Ressurreição, se tinha revelado como o triunfador da morte, como o detentor de um reinado "que não terá fim", conforme o Anjo tinha anunciado.

 

Agora, nos albores da Igreja, no princípio da sua longa caminhada mediante a fé, que se iniciava em Jerusalém com o Pentecostes, Maria estava com todos aqueles que então constituíam o gérmen do "novo Israel". Estava presente no meio deles como uma testemunha excepcional do mistério de Cristo. E a Igreja era assídua na oração juntamente com ela e, ao mesmo tempo, "contemplava-a à luz do Verbo feito homem". E assim viria a ser sempre. Com efeito, sempre que a Igreja "penetra mais profundamente no insondável mistério da Incarnação", ela pensa na Mãe de Cristo com entranhada veneração e piedade. Maria faz parte indissoluvelmente do mistério de Cristo; e faz parte também do mistério da Igreja desde o princípio, desde o dia do seu nascimento. Na base daquilo que a Igreja é desde o inicio, daquilo que ela deve tornar-se continuamente, de geração em geração, no seio de todas as nações da terra, encontra-se "aquela que acreditou no cumprimento das coisas que lhe foram ditas da parte do Senhor" (Lc 1, 45). Esta fé de Maria, precisamente, que assinala o início da nova e eterna Aliança de Deus com a humanidade em Jesus Cristo, esta sua fé heróica "precede" o testemunho apostólico da Igreja e permanece no coração da mesma Igreja, escondida como uma herança especial da revelação de Deus. Todos aqueles que, de geração em geração, aceitando o testemunho apostólico da Igreja, começam a participar nessa herança misteriosa, participam, em certo sentido, na fé de Maria.

 

As palavras de Isabel "feliz daquela que acreditou", continuam a acompanhar a Virgem Maria também no Pentecostes; seguem-na de época para época, para onde quer que se estenda, através do testemunho apostólico e do serviço da Igreja, o conhecimento do mistério salvífico de Cristo. E assim se cumpre a profecia do Magnificat: "Hão-de me chamar bem-aventurada todas as gerações, porque fez em mim grandes coisas o Todo-poderoso. É santo o seu nome" (Lc 1, 48-49). Ao conhecimento do mistério de Cristo segue-se, efectivamente, a bênção de sua Mãe, sob a forma de especial veneração para com a Theotókos. E nessa veneração estão incluídas sempre as palavras abençoadoras da sua fé. Com efeito, a Virgem de Nazaré, segundo as palavras de Isabel na altura da Visitação, tornou-se ditosa sobretudo mediante essa sua fé. Aqueles que, de geração em geração, no seio de diversos povos e nações, acolhem com fé o mistério de Cristo, Verbo Incarnado e Redentor do mundo, não só se voltam com veneração e recorrem confiadamente a Maria como a sua Mãe, mas na sua fé procuram também o apoio para a própria fé. E precisamente esta participação viva na fé de Maria decide de uma sua presença especial na peregrinação da Igreja, como novo Povo de Deus espalhado por toda a terra.

 

Como diz o Concílio, "Maria … pela sua participação íntima na história da salvação… quando é exaltada e honrada, atrai os fiéis ao seu Filho e ao sacrifício dele, bem como ao amor do Pai" Por isso, a fé de Maria, atendo-nos ao testemunho apostólico da Igreja, torna-se, de alguma maneira, incessantemente a fé do Povo de Deus que está a caminho: a fé das pessoas e das comunidades, dos encontros e das assembleias e, enfim, dos diversos grupos que existem na Igreja. Trata-se de uma fé que se transmite mediante o conhecimento e o coração ao mesmo tempo; de uma fé que se adquire ou readquire continuamente mediante a oração. É por isso que, "também na sua acção apostólica, a Igreja olha com razão para aquela que gerou Cristo, o qual foi concebido por obra do Espírito Santo e nasceu da Virgem precisamentepara nascer e crescer também no coração dos fiéis, por meio da Igreja".

 

Hoje, quando nesta peregrinação de fé já nos aproximamos do final do Segundo Milénio cristão, a Igreja, por intermédio do magistério do Concílio Vaticano II, chama a atenção para aquilo que ela reconhece ser, em si mesma: um "só Povo de Deus … que se encontra radicado em todas as nações do mundo"; e, igualmente, para a verdade segundo a qual todos os féis, embora "espalhados pelo mundo, comunicam com os restantes por meio do Espírito Santo", 66 de sorte que pode dizer-se que nesta união se realiza continuamente o mistério do Pentecostes. Ao mesmo tempo, os apóstolos e os discípulos do Senhor, em todas as nações da terra, "entregam-se assiduamente à oração, em companhia de Maria, a mãe de Jesus" (cf. Act 1, 14). Constituindo de geração em geração o "sinal do Reino" que "não é deste mundo", eles estão cônscios de que no meio deste mundo devem congregar-se em torno daquele Rei, ao qual foram dadas em posse as nações, para seu domínio (cf. Sl 2, 8), e ao qual Deus e Senhor deu "o trono de David, seu pai", de modo que ele "reinará eternamente na casa de Jacob e o seu reinado não terá fim" (cf. Lc 1, 33).

 

Neste tempo de vigília, Maria, mediante a mesma fé que a tornou feliz a ela, especialmente a partir do momento da Anunciação, está presente na missão da Igreja, presente na obra da Igreja que introduz no mundo do Reino do seu Filho. Esta presença de Maria, nos dias de hoje, como aliás ao longo de toda a história da Igreja, encontra múltiplos meios de expressão. Possui também um multiforme raio de acção: mediante a fé e a piedade dos fiéis; mediante as tradições das famílias cristãs ou "igrejas domésticas", das comunidades paroquiais e missionárias, dos institutos religiosos e das dioceses; e mediante o poder de atracção e irradiação dos grandes santuários, onde não apenas as pessoas individualmente ou grupos locais, mas por vezes inteiras nações e continentes procuram o encontro com a Mãe do Senhor, com Aquela que é feliz porque acreditou, que é a primeira entre aqueles que acreditaram e por isso se tornou a Mãe do Emanuel. Na mesma linha se enquadra o apelo da Terra da Palestina, pátria espiritual de todos os cristãos, porque foi a pátria do Salvador do mundo e da sua Mãe; de igual modo, o apelo dos numerosos templos que a fé cristã ergueu no decorrer dos séculos em Roma e no mundo inteiro; e, ainda, o apelo de centros como Guadalupe, Lourdes, Fátima e os outros espalhados pelos diversos países, entre os quais, como poderia eu deixar de recordar o da minha terra natal, Jasna Góra? Talvez se pudesse falar de uma "geografia" específica da fé e da piedade marianas, a qual abrange todos estes lugares de particular peregrinação do Povo de Deus; este busca o encontro com a Mãe de Cristo, procurando achar no clima de especial irradiação da presença materna "daquela que acreditou", a consolidação da própria fé.

 

Com efeito, na fé de Maria, já aquando da Anunciação e de forma completa aos pés da Cruz, reabriu-se para o homem um certo espaço interior, no qual o eterno Pai pode locupletar-nos com "toda a sorte de bênçãos espirituais": o espaço da "nova e eterna Aliança" Este espaço subsiste na Igreja que, em Cristo, é como que "um sacramento da íntima união com Deus e da unidade de todo o género humano".

 

É pela fé, pois, aquela fé que Maria professou na Anunciação "como serva do Senhor" e com a qual constantemente "precede" o Povo de Deus que está a caminho sobre a terra, que a Igreja "tende eficaz e constantemente à recapitulação de toda a humanidade… sob a Cabeça, Cristo, na unidade do seu Espírito".

 Introdução
Parte 1

Parte 1.1

Parte 1.2
Parte 2
Parte 2.1
Parte 2.2
Parte 3
Parte 3.1
Parte 3.2


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