Formação

Maria: Tenda do verbo de Deus

Mãe, queremos o teu abrigo.

A devoção mariana evoca a fé antiga da Igreja já na sua nascente, mas vai bem mais além do que uma aclamação popular.

As inúmeras celebrações ao longo do ano litúrgico (desde a solenidade da Mãe de Deus, que abre oportunamente o ano civil nos recordando que não precisamos fazer um caminho solitário ao longo do ano porque nos foi dado uma Mãe, até a festa da Sagrada Família que recorda ao homem o seio materno onde ele tem um regaço de cuidados e consolação), marcam o tempo com a maternidade de Maria, dando ritmo aos dias civis. Entre tantos marcos, temos o mês de maio inteiramente dedicado à memória dessa Maternidade a ser experimentada interruptamente ao longo do ano.

Mas, quais motivos temos para nos amparar na maternidade de Maria? Quais são as garantias que justificam tamanha celebração?

Contemplaremos essas respostas a partir de um antigo oficio mariano, o mais famoso do Oriente cristão e, possivelmente, de toda a Igreja, que reúne centenas de saudações à Mãe de Deus, recordando ao mundo o fim da orfandade humana e celebrando a sua guarda sobre os filhos a ela confiados.

Este grande canto à Mãe de Deus é intitulado Akathistos, palavra grega que literalmente significa “de pé”, porque se canta nesta posição. De pé, como quem saúda solenemente, filialmente, diante de um mistério espantoso que ultrapassa a lógica e o natural, que emudece o mais exímio especulador e a mente mais penetrante. É um canto para ex-orfãos, para eternos filhos no Filho.

Este hino também nos introduz na grandeza desse mistério do Deus eterno que também escolheu para Si uma Mãe, a Virgem Esposa, o perfeito ícone do plano de Deus para a felicidade humana, a vida beatíssima dada por Deus aos que se tornam seus amigos, aos que não duvidam do seu amor e apostam sua própria vida em segui-Lo.

Evoca o “de pé” a respeito do mistério acreditado e indicando o modo como se quer viver, com prontidão a Deus. Estamos de pé diante da Mãe para ser como ela, de pé para o Altíssimo.

É um canto que apresenta a Mãe de Deus de pé com a sua imediata e inadiável prontidão a tudo aquilo que lhe for pedido da parte de Deus: de pé no “faça-se” ao Anjo admirado (cf. Lc1,38), na resposta ao “fugi” (cf. Mt 2,13) e ao “levanta-te” (cf. Mt 2,20), mandatos de Deus para proteger a vida do Menino.

De pé como no “apressadamente” da visita a Isabel (Lc 1,39), no “fazei o que Ele vos disser” (cf. Jo 2,5) ensinando que a providência de Deus surpreende a nossa obediência com milagres. Recorda a postura física e interior da Mãe de Deus aos pés da cruz (cf. Jo 9,25), enfim, seu jamais confuso reconhecimento da vontade de Deus e a preciosidade incomparável do seu conteúdo, qualquer que seja.

É bastante oportuno tomar este canto já que falamos da Mãe de Deus. Centenas de “Ave!” saúdam aquela que gerou a vida humana do Verbo Eterno de Deus. Num primeiro momento, diante da Mãe de Deus vemos o Anjo admirado, extasiado diante daquele mistério perturbador: uma criatura seria Mãe do Criador!

O Anjo tem sua perplexidade justificada diante daquela que ele jamais suspeitara ser tão semelhante ao Altíssimo, como quem diz naquele AVE: “Nem eu sabia que tu eras tão bela!” e põe-se a saudar a Mãe de Deus dizendo dela um sem fim de aclamações.

A perplexidade do Anjo suscita inúmeras exclamações que traduzem o encanto infinito que ele tem agora diante de si. E na sequencia outros personagens também exultam, também demonstram seu pasmo e sua contemplação.

Anjos, parentes, pastores, magos, reinos, profetas, Igreja militante e padecente, santos, pecadores, os povos e o universo inteiro, todos unem suas vozes para cumprir a profecia evangélica:

“Todos me chamarão bem-aventurada!” (Lc 1,48). A estrutura e as palavras do canto nos dão idéia da admirável predileção divina e da inigualável figura daquela que agora e para sempre será a Mãe de Deus.

Num primeiro momento o mais excelso dos anjos, extasiado diante da inacreditável imagem e semelhança de Deus intacta e inviolada numa criatura, perde-se em exclamações que traduzem a perplexidade do seu estado.

A jovem virgem, consciente da imerecida visita, perturba-se, e o Anjo tranquiliza-a, mas ainda tomado de admiração. Agora, com o consentimento livre e obediente da Virgem, nasce a Mãe de Deus e o mais excelso dos anjos desaparece para dar cena à mais excelsa das criaturas.

Ela, solícita, toma sua maternidade para servir apressadamente e é recebida como uma visita de Deus à insegurança de Isabel, parturiente, e seu menino precursor consolado, também exulta!

Na seqüência saúdam também os pastores, adoradores do Filho, admirados da Mãe. Pastores veneram no seio da Mãe, Aquele que é desde sempre e para sempre o modelo do seu ofício e, adorando o Sumo Pastor, veneram a Mãe, emocionados.

Entram no lugar do nascimento também os magos e, prostrados, homenageiam o Menino, entregando-lhe presentes. Imediatamente, reconhecem a baixeza das suas ofertas diante do Presente incomparável a eles ali oferecido, trazido pela Mãe no seu seio e na sua fé. A ela agradecem, incansavelmente.

Agradecem também todos os homens de todos os tempos, das gerações passadas, peregrinas e vindouras, àquela que sempre de pé e obediente, protege o Menino fugindo e retornando, partindo prontamente para o lugar seguro da vontade de Deus.

A família humana deixa o silêncio e celebra o prodígio da eterna virgindade da Mãe, que gerou o Eterno Virgem, nascido na carne, imagem da nossa felicidade.

Os ex-orfãos, preenchidos pela Visita divina que toca mansamente a existência humana cansada de temer e padecer, agora consolados, celebram o céu que se lhes abre a porta por meio da Genitora de Deus. A ela amam, amam e amam! O mundo tenta explicar o mistério, fascinado com o raso poder da sua retórica.

Os filhos no Filho ocupam com louvores o lugar das vozes que foram emudecidas, porque ao orgulho do mundo não é permitido penetrar a ciência divina.

A Igreja e seus filhos, os eleitos, os consagrados, os virgens, os santos, os pecadores, os anônimos, os sofredores, os caídos, os pobres, os incrédulos, os que choram, os enfraquecidos, enfim, todos os filhos de Deus, também ocupam a fila dos que cumprem a profecia evangélica de proclamadores da bem-aventurança da Mãe de Deus.

Elevam o coração como um incenso, atraídos pela mais bela filha dos homens. À caminho da pátria todos os povos também enaltecem a Mãe de Deus.

Aos que jazem nas trevas é como um farol, guia o curso da história e ilumina o rumo das nações. Jamais deixara de intervir em tempos dramáticos e é louvada pelos filhos que para sempre esperam na sua autoridade.

E por fim, também o Universo, rendido, obedece e saúda a Rainha da sua extensão, contemplando enternecido a Soberana admirável lhe fora concedido. E ensina às criaturas o louvor que é devido à humilde serva do Senhor.

Encerra este canto o louvor do povo de Deus que, agora consolado e devolvido à amizade divina, alça à Mãe de Deus um grande “Aleluia!”, um grande “Amém!”.

Todas essas saudações acompanham a historia da Igreja, demonstram o amor à Mãe de Deus desde os primórdios e não dizem respeito apenas a um rito posteriormente organizado em forma de culto, mas representa o amor e a verdadeira imagem da Mãe de Deus, seu modo simples e autentico de viver e servir à Igreja nascente e ao povo de Deus que se multiplicaria ao longo dos séculos.

Consola-se o povo de Deus ao reconhecer que nela toda dor se extingue, que Adão decaído e seus filhos agora, salvos, podem entrar no gozo do seu Senhor (cf. Mt 25,21) e o pranto de Eva desobediente agora é enxugado pelo manto da obediência de Maria.

Deleitam-se ao reconhecer que ela carrega Aquele que tudo sustenta e sentem-se seguros pelo poder dado à Mãe. Sentem-se honrados em poder renascer no mesmo seio por onde o Criador fez-se criança, por onde o Eterno, descendo pela escada celeste do ventre de Maria, fez-se novamente íntimo do homem.

Também exulta o povo de Deus defendido pela autoridade da Mãe, cujo poder é como um grande flagelo à horda demoníaca. Tendo ela gerado a Luz inefável, causa grande aversão às trevas, tendo gerado o Autor da Vida, é odiada por aquele que nada mais sabe do que causar a morte.

A Mãe de Deus é a mesa repleta de todos os dons, que desmascara o inimigo e sua falsa abundancia, cumprindo a profecia do salmista: “preparaste uma mesa bem à vista do inimigo” (Sl 23,5). É o suave perdão ao mundo agredido pelo desespero, é a defesa de Deus contra a ferocidade do maligno, do mundo e da carne, inimigos da salvação do homem.

Maria é o ardor dos mártires, o sustento poderoso daquele que reconhece “vosso amor vale mais do que a vida” (Sl 62,4). É ela que despoja o inferno escancarado para saciar-se dos filhos de Deus, não para fazê-los felizes, mas para perdê-los para sempre num reino de infelicidade eterna.

Em socorro a este perigo, a Mãe de Deus apaga a fornalha de erros, as chamas destruidoras da imagem de Deus impressa no homem, derruba o odioso tirano, dando aos filhos suplicantes a clemência de Deus. Cura, limpa, ama, resgata da crueldade da idolatria, das lamas que roubam o suave odor da presença divina no coração humano. Extingue a chama dos vícios aquela que jamais conhecera impureza ou desvios, aquela que jamais preferira a si mesma até o desprezo de Deus[1].

Os filhos no Filho celebram de pé aquela que destrói o reino do inferno sem jamais tocar suas portas, que humilha o inferno com a notícia da sua existência e obediência ao Altíssimo.

Esmaga o engano, o erro e a impiedade com o seu cumprimento da vontade de Deus. Livra seus filhos da angustia do instante de penúria imposta pelo mundo àqueles que optam pelas santas delicias do Reino, da qual a Mãe de Deus é servidora.

É o seguro perdão de Deus aos transviados refugiados na prece daquela que Ele jamais deixará de atender; é a veste aos nus de virtude, aos enfraquecidos, aos instáveis, aos cambaleantes.

Nada se lhe compara em virtude, beleza, honra, santidade e nada do que lhe foi confiado fora extraviado, a ponto de ser-lhe confiada a chave do Reino de Cristo.

Todos os tesouros nela se encontram e com ela se identificam e todos eles são distribuídos generosamente pela sua maternidade infalível.

É a providencia de Deus em movimento, é constrangimento aos retóricos que silenciam seus argumentos infantis diante da maturidade da Mãe de Deus, envolta em mistério divino, que como farol brilha aos filhos desorientados, sem intervalo, sem ocaso, incansavelmente.

É ainda missão assumida e cumprida pela Mãe de Deus conduzir os remidos a seguro porto, imobilizando o tentador, a antiga serpente, o declarado inimigo da humildade divina.

É missão da maternidade de Maria reconduzir ao Esposo os que foram tomados em matrimônio pela encarnação do Verbo, os feridos pelas idolatrias cotidianas, resgatados pela castidade e seu Autor.

Como Mãe, ela limpa as manchas, veste dignamente para o sagrado banquete e qual torre poderosa cerca o homem para que nada o impeça de saciar-se nas bodas do Cordeiro. Com toda essa autoridade, caem enfraquecidos os inimigos, humilhados pela maternidade de Maria que, qual remédio para nossos membros, tudo cura e reedifica.

É a Mãe, Virgem e Esposa, regenerando os filhos, preservando da desgraça, da impiedade e de todo castigo merecido pela iniqüidade do coração humano.

Tudo por Maria. Nada e a lugar algum jamais sem ela!

 

[1] Santo Agostinho, CIV, 1, 14, 28

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Meyr Andrade


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