Parresia

Mas afinal, a nossa opção preferencial de caridade é pelos pobres?

Ao nos lançarmos em direção aos pobres que suscitam em nós a compaixão e a bondade, somos purificados e santificados pelo Cristo presente neles.

A resposta a este título parece óbvia diante dos valores morais, especialmente da justiça que deve pautar a conduta ordinária da pessoa humana consciente da sua dignidade como filha do Criador e irmã, em Jesus Cristo, de uma multidão de irmãos no planeta.

Também para aqueles que se dizem ateus, a afirmação de que a opção preferencial deve ser pelos pobres certamente possui um eco, pois todos os seres humanos carregam em si uma consciência que alimenta suas ações na perspectiva do bem comum.

Percebemos que o mundo globalizado se tem esquecido desse valor tão caro para o homem – o da justiça. Talvez seja um “esquecimento” parcial que não afeta substancialmente os interesses individuais, mas tem enfraquecido a dimensão do bem comum.  Basta recolher as notícias pelo mundo, e até perto de nós, para constatar os sinais concretos das injustiças sociais, da corrupção, da exploração dos mais fracos, dos conflitos bélicos na luta pelo poder e pelas riquezas, por exemplo. 

A Igreja Católica, ao longo de sua história, tem buscado viver e animar todos a buscarem essa opção preferencial pelos pobres, os mais necessitados. Não por uma escolha política, econômica ou ideológica. Mas para seguir o Mestre Jesus, Filho Unigênito do Pai, que se encarnou, despojando-se de sua condição divina, desceu do Céu e assumiu a condição humana (menos no pecado) para divinizá-la, restaurando essa altíssima dignidade de filhos de Deus.

Dignidade humana que foi ferida pelo pecado, narrada na Bíblia, desde o livro do Gênesis. A partir do dom precioso da liberdade, este homem, nem sempre acolhe o Projeto de Amor de Deus, ferindo-se e ferindo aos outros por uma vida individualista e egocêntrica.

Nas narrações bíblicas podemos perceber todo o itinerário histórico do homem, que faz escolhas e sofre as consequências delas. E de um Deus compassivo que pacientemente conduz o homem à experiência do Seu amor, à consciência de si e do Projeto de Deus, o qual anseia por salvá-lo e levá-lo à comunhão plena de amor Consigo e com seus semelhantes.

Jesus, nosso Mestre e Salvador, nasceu numa estrebaria e viveu toda a sua vida no meio dos pobres, doentes e marginalizados na sociedade, acolhendo todos os homens de boa vontade, mesmo ricos, aos quais também anunciou a Salvação e indicou o caminho a seguir, na renúncia de si, carregando a Cruz de cada dia.

A condição humana carrega em si uma dimensão de indigência quando não conhece a Deus. Papa Francisco nos recorda que a mais grave pobreza é a espiritual. E mais grave ainda é cuidar somente das necessidades materiais das pessoas pobres, esquecendo a dimensão relacional e espiritual que a realizam, dando sentido à vida, e restaurando sua dignidade ultrajada pelos pecados sociais e pelos próprios, uma vez que esta é a condição humana depois que o pecado nos feriu, assolando de males a humanidade no decurso de sua história.[1]

São duplamente pobres especialmente aqueles que desconhecendo a Deus e o Seu infinito amor, carregam também sofrimentos morais e materiais, vivendo numa condição sub-humana, com a total ausência de condições necessárias a uma vida digna, como, por exemplo, acesso à educação, à saúde, ao trabalho, à habitação, e a relações sociais favoráveis ao seu desenvolvimento integral. 

É esta a opção preferencial pelos pobres que a Igreja nos ensina a partir das palavras de Jesus nos evangelhos. Optar por eles é estar em saída na busca de colaborar efetivamente para restaurar sua dignidade favorecendo-lhe o acesso a condições básicas que promovam a vida em abundância em todos os seus aspectos – físicos, psíquicos, morais, sociais e espirituais.

Essa opção preferencial pelos pobres, anunciada e vivida pela Igreja ao longo de sua caminhada, não se torna exclusiva e nem excludente. Ou seja, ao experimentar o amor de Deus e passar a anunciar o evangelho com o testemunho do amor autêntico somos como que atraídos aos nossos irmãos mais necessitados, e levados à compaixão, à solidariedade e à partilha de bens, socorrendo suas necessidades materiais, morais e espirituais.

Ao aprofundar o conhecimento de Jesus Cristo e da Sua Igreja, constatamos que o pobre é sacramento de Cristo. Ele mesmo nos aponta essa verdade:

“Quando o Filho do Homem voltar na sua glória e todos os anjos com ele, se sentará no seu trono glorioso. 32.Todas as nações se reunirão diante dele e ele separará uns dos outros, como o pastor separa as ovelhas dos cabritos. 33.Colocará as ovelhas à sua direita e os cabritos à sua esquerda. 34.Então, o Rei dirá aos que estão à direita: ‘Vinde, benditos de meu Pai, tomai posse do Reino que vos está preparado desde a criação do mundo, 35.porque tive fome e me destes de comer; tive sede e me destes de beber; era peregrino e me acolhestes; 36.nu e me vestistes; enfermo e me visitastes; estava na prisão e viestes a mim’. 37.Os justos lhe perguntarão: ‘Senhor, quando foi que te vimos com fome e te demos de comer, com sede e te demos de beber? 38.Quando foi que te vimos peregrino e te acolhemos, nu e te vestimos? 39.Quando foi que te vimos enfermo ou na prisão e te fomos visitar?’. 40.Responderá o Rei: ‘Em verdade eu vos declaro: todas as vezes que fizestes isso a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim mesmo que o fizestes.” (Mateus, 25 – 31-40).

Também a Igreja, fiel a Jesus Cristo e à Sua Palavra, através de vários documentos, ao longo dos séculos, orienta a ação pastoral dos fiéis a essa vivência concreta de comunhão com o Cristo presente nos pobres, onde é novamente ferido e até crucificado.

Aonde iremos, Senhor, buscar nossa felicidade, senão em Ti, pois só Tu tens palavras de vida eterna? (Jo 6, 68). Aonde iremos, senão ao Teu encontro na eucaristia, nos pobres e no próximo que anseia à espera da manifestação dos filhos de Deus?   

Sedenta, faminta de amor e ferida de tantos males, a humanidade geme e sofre nessa espera da manifestação de um amor maior, que seja gratuito e incondicional, que não decepciona, e é capaz de doar-se pelo bem dos seus irmãos, especialmente aos irmãos indigentes e pobres, a exemplo de Jesus, o Filho Unigênito do Pai, nosso irmão e Senhor. (Rm 8,22)

Diante de algumas realidades dolorosas e até, aos olhos humanos, impossíveis de serem transformadas, podemos tender ao desânimo, à desesperança e à fuga, abafando o bem que desejaríamos fazer… sim! Abafar algo que já existe em nós, como anseio interior, pois, sendo imagem e semelhança de Deus, todo homem tende ao bem, à beleza, à bondade.

Precisamos dar mais um passo na fé, pois o Amor faz seus milagres em nós e através de nós.

Lançar-se em direção ao Mestre, mesmo diante dos ventos e ondas fortes do mar… Jesus está lá a nos dizer: Coragem! Sou Eu. Não tenham medo, como disse a Pedro quando estava afundando nas águas agitadas do mar naquela noite. (Mt 14,27)

Avançar no amor que faz resgates impossíveis, segurando na mão de Jesus, apresentar nossos poucos dons, como aqueles 5 pães e 2 peixinhos (Jo 6, 1-14), e experimentar os milagres inúmeros da multiplicação que, como efeito em cascata, faz colher cestos transbordantes que nos levam a ir mais além, e assim sucessivamente, resgatando a vida, a esperança e a comunhão que se estenderá como ondas até a comunhão plena com Deus, no Seu amor sem fim que tudo plenifica.

Ao nos lançarmos em direção aos pobres que suscitam em nós a compaixão e a bondade, somos purificados e santificados por Cristo presente neles. Ao partilhar os dons, seremos auxiliados pelo Espírito que conduzirá nossas ações na direção do resgate e da promoção da dignidade humana, ofertando com isso, a vida em abundância oferecida por Jesus – sinais do Reino de Deus presente entre nós, e despertando em todos o desejo do Reino definitivo onde Deus será tudo em todos. (I Cor 15, 28).

Neste brado da Igreja pela opção preferencial pelos pobres, deixemo-nos conduzir pelo Espírito que fará ecoar em nós as palavras de Jesus que se atualizam: “…é a Mim que o fazeis”.

E, em seguida: Coragem! Sou Eu. Não tenham medo! Declarou Laura Martins, assistente social, psicopedagoga e Consagrada na Comunidade Shalom. 

[1] PAPA FRANCISCO. Exortação Apostólica Evangelii Gaudium. Disponível em: <http://www.vatican.va/content/francesco/pt/apost_exhortations/documents/papa-francesco_esortazione-ap_20131124_evangelii-gaudium.html> Acesso em: 16.09.2020

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