Parresia

Mas que tipo de amor?

Para falar sobre a sexualidade humana faz-se necessário uma reflexão séria sobre algumas características essenciais do ser humano, sem as quais corre-se o risco de permanecer na superficialidade dos discursos. Deve-se sempre partir do “princípio”, para que a compreensão antropológica seja purificada de ideias e conceitos utilitários ou reducionistas.

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11Partindo do texto da Criação encontramos uma referência acerca da criação do homem e da mulher que esconde uma dimensão essencial da constituição da pessoa: “Deus criou o homem à sua imagem, à imagem de Deus ele o criou, homem e mulher ele os criou” (Cf. Gn 1,27). Primeiro o texto é escrito no singular, mas em seguida passa para o plural, sem nenhuma explicação. Na criação do homem e da mulher Deus desvela características do Seu mistério, ou seja, quando o Deus Uno diz: “façamos o homem à nossa imagem, como nossa semelhança” (Cf. Gn 1,26) é porque na sua intimidade não é um ser solitário. No Deus único existem três Pessoas distintas no mesmo nível ontológico[1], Tri-unidade, Trindade de Amor. Esta é a verdade da qual somos imagem.

Como explicou S. Tomás de Aquino, na Suma Teológica[2], só um Deus Trindade pode ser amor, senão a quem ele amaria? Se o destinatário do amor fosse Ele mesmo, não seria amor, mas egoísmo; se Deus é amor Ele vive eternamente a felicidade do amor na comunidade perfeita que se ama, dessa forma não precisa de nada. Então, por que decidiu criar o mundo e o ser humano? A única resposta que podemos dar é a de um transbordamento livre de amor. Portanto, Deus criou o ser humano porque Ele é amor.

Assim, tendo sido o ser humano criado à imagem e semelhança do Deus que é comunhão, relação, doação total, em uma palavra, o Deus que é Amor, compreendemos que cada característica do ser humano tem como fim último o amor, e que a sua realização só pode estar na doação total de si, ou seja, no Amor Esponsal, que é descentralização total de si, é ser totalmente para o outro sem reservas: “Amemo-nos uns aos outros, pois o amor é de Deus e todo aquele que ama nasceu de Deus e conhece a Deus. Aquele que não ama não conheceu a Deus, porque Deus é amor” (1Jo 4,8). Contudo, o ser humano precisa aprender a “cultivar o amor”, precisa “ser educado no amor”, visto que o pecado, que é afastamento de Deus, inclinou o seu coração e os seus desejos para o prazer egoísta. Karol Wojtyla nos ensina que o amor não é uma espécie de “aventura do coração” que ocorre entre duas pessoas, também não é uma situação psicológica subordinada às exigências de uma moral objetiva,[3]  por isso é necessário a integração de todas as potências do ser humano à fonte última do amor, que é Deus.

Aquele que foi criado pelo Amor, sempre se sentirá incompleto, insatisfeito, insaciado, pois só o Amor “pode responder às aspirações mais profundas do coração humano[4], e é exatamente por isso que o amor humano não pode apartar-se do amor divino, porque cairá na idolatria e se transformará numa caricatura do amor: “Fizeste-nos para ti, e nosso coração não repousa enquanto não encontrar em ti descanso”[5].

O amor, portanto, é um dom, nos é dado, contudo precisamos aprender a acolhê-lo e a cultivá-lo, ou seja, precisamos ser educados no amor. Assim também acontece com o amor humano, o amor entre um homem e uma mulher, pois este muitas vezes tem a sua raiz na sensualidade ou na afetividade natural, esta pode ser uma “matéria-prima” para um amor maduro, mas não a forma acabada de um amor que fecunda um compromisso. Quem busca ver somente no plano natural a forma acabada do amor, esconde atitudes utilitárias, contrárias à própria natureza do amor, que é sempre comunhão e doação total de si.

Por sua vez, como ensinou Karol Wojtyla, o amor esponsal difere de todos os outros sentimentos e formas de amor, embora esteja estritamente ligado a todos eles, porque consiste no dom da pessoa, visto que a sua essência é o dom de si mesmo, do próprio “eu”[6], mais ainda, é um sair de si mesmo e voltar-se para outra pessoa, só em vistas ao seu bem. Essa noção de Amor Esponsal é fundamental para podermos compreender o valor da sexualidade humana.

Por Josefa Alves
Teóloga, Consagrada na Comunidade de Vida Shalom

Referências

[1] Cf. Uomo e Donna. L’umanum nella sua interezza. Roma: Editrice Vaticana, p. 63.

[2] Cf. S. Theol. I. q. 32 a. 1.

[3] KAROL WOJTYLA, Amor e Responsabilidade, São Paulo: Cultor de Livros, 2016, p.132.

[4] Gaudium et Spes, 41.

[5] SANTO AGOSTINHO. Confissões, I,1,1.

[6] WOJTYLA. Ob. cit., p.89.

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