Sou Max Lucena, Shalom, Comunidade de Vida, Celibatário pelo Reino dos Céus. Meu testemunho não é apenas a narração de fatos ou datas, mas, sobretudo, um caminho de redescoberta da vontade de Deus na minha vida. Ao longo da minha história, fui compreendendo, pouco a pouco, o que significa escolher essa vontade e permanecer nela, mesmo quando ela passa pela cruz.
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O primeiro chamado e a certeza da Comunidade de Vida
Aos 19 anos, deixei tudo para ingressar na Comunidade de Vida da Comunidade Católica Shalom. Naquele momento, eu tinha muita certeza do meu chamado. Sentia claramente que Deus me convidava a deixar meus pais, meus estudos, meus sonhos profissionais e projetos pessoais para viver inteiramente para Ele. Em 2012, fui enviado em missão e vivi dez anos muito felizes como Comunidade de Vida. Não me arrependo de nenhum dia. Fui profundamente feliz e sempre tive a convicção de que aquele era o meu lugar.
Com o passar do tempo, especialmente por volta de 2019 e 2020, comecei a enfrentar desafios interiores profundos. Deparei-me com a minha própria fraqueza e vivi um grande deserto espiritual. Eu olhava para Jesus, sabia qual era o meu chamado, mas me sentia incapaz de corresponder a ele. O maior desafio daquele período foi tentar caminhar com minhas próprias forças, esquecendo que é impossível viver a vontade de Deus sem a graça d’Ele. É a graça que sustenta, fortalece e dá coragem.
O deserto, a saída e o tempo como Comunidade de Aliança
Diante dessa incapacidade, iniciei um caminho de saída da Comunidade de Vida, com muita dor, mas também com consciência. Eu acreditava que, com o tempo, me acostumaria a viver fora do ambiente comunitário e missionário. Passei a viver como Comunidade de Aliança, permanecendo na minha cidade, mais próximo da família e da minha realidade cotidiana. Embora a Comunidade de Aliança também viva a desinstalação, ela acontece de modo diferente da radicalidade própria da Comunidade de Vida.
Durante esse período fora, vivi experiências marcantes. Tive um relacionamento de namoro e, um ano após minha saída da Comunidade de Vida, perdi meu pai. Pude acompanhá-lo de perto até sua Páscoa, e essa experiência foi profundamente transformadora. Rezando diante do túmulo do meu pai, eu perguntava a Deus se estava, de fato, na Sua vontade. E pedia com sinceridade: se eu não estivesse, que Ele me conduzisse de volta a ela, porque tudo nesta vida passa.
A morte do meu pai me fez experimentar com muita clareza a realidade da eternidade. Tudo aqui é passageiro. O que permanece é a vida de santidade que escolhemos viver. Essa experiência reacendeu em mim o desejo e a coragem de dar passos em direção àquilo que eu sempre soube ser a vontade de Deus: retornar definitivamente à Comunidade de Vida.
O retorno, a cruz e a escolha definitiva pela vontade de Deus
Esse processo não foi rápido. Foram cerca de três anos de discernimento até que eu tivesse coragem de voltar à missão, inicialmente como Comunidade de Aliança missionária. Nesse tempo, redescobri minha identidade, minha vocação e meu chamado. Na missão, compreendi com clareza: aquele era o meu lugar, e isso não era algo acidental, mas essencial. Eu precisava, mais uma vez, deixar tudo e escolher fazer a vontade de Deus.
Percebi, então, que Deus esperava de mim uma resposta mais madura. Ele me permitiu passar por todas aquelas experiências para que minha escolha não fosse baseada apenas em sentimentos bons, consolações ou entusiasmos, mas numa decisão consciente, fundamentada na cruz e no sacrifício. Durante o tempo em que estive fora da Comunidade de Vida, Deus foi extremamente generoso comigo. Tive estabilidade profissional, financeira e material. No entanto, nada disso saciava o meu coração. Mesmo tendo tudo, eu percebia que poderia não ter nada se estivesse fora da vontade de Deus.
Foi nesse caminho que também descobri minha vocação ao celibato. Ainda como Comunidade de Aliança, vivi uma experiência muito forte numa Sexta-feira da Paixão, quando interpretei Jesus na Via-Sacra. Ali, senti claramente que Deus me chamava a uma entrega total. Eu havia encerrado um relacionamento de namoro em vista do discernimento vocacional, e naquele momento o Senhor me dizia: “Eu te desposarei. Eu serei a tua força na tua fraqueza”.
Enquanto carregava a cruz na Via-Sacra, sentia Jesus se colocando como o meu Cireneu. Diante da minha fragilidade, Ele me assegurava que estaria comigo. Assim fui descobrindo a beleza da vida celibatária: uma solidão habitada, que me impulsiona para o outro, que me capacita a amar mais a Deus e as pessoas que Ele confia a mim na missão evangelizadora.
Ao final desse processo, a Comunidade me acolheu novamente como Comunidade de Vida e recebeu também meu pedido para viver os votos no celibato pelo Reino dos Céus. Hoje, sou novamente consagrado na Comunidade de Vida e posso dizer, com profunda paz, que sou um homem pleno e feliz. Nada me falta, porque recebi aquilo que Deus guardou para me dar no tempo certo.
Voltei à casa que sempre foi minha. Abraço a vida celibatária e os votos de pobreza, castidade e obediência consciente de que essa é uma troca desigual de amor: o amor infinito de Deus e o meu amor pobre e frágil. Ainda assim, sei que Ele me ama com misericórdia, com um amor sem fim, e que, para cada pessoa, Deus tem um tempo e uma pedagogia próprios.
Maxsuel Lucena
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