Há dores que atravessam a alma de forma silenciosa. Uma delas é a ausência paterna — a ferida de quem não foi reconhecido, amado ou assumido pelo próprio pai. Mas, diante dessa realidade, fica a pergunta: e agora? O que fazer com esse vazio? Como curar uma falta que parece acompanhar a vida inteira?
A ausência de um pai é uma marca que, cedo ou tarde, deixará seus rastros: a insegurança, o medo de ser rejeitado, o sentimento de não pertencimento… e, muitas vezes, a dificuldade de confiar e se abrir ao amor. Mas há algo que o coração precisa compreender: Deus nunca deixou de ser Pai. Mesmo quando a figura paterna terrena falhou, o Pai do Céu permaneceu, firme, fiel e amoroso.
Meu testemunho pessoal de cura e ressignificação
Falo também como quem viveu essa história.
Eu fui a primogênita do meu pai biológico, mas ele não me assumiu. Foi embora, mesmo sabendo da minha existência. Carrego apenas o sobrenome da minha mãe. Isso, por muito tempo, causou em mim uma dor profunda — sentimentos de abandono, medo e insegurança.
Na adolescência, tentei me aproximar dele, mas percebi que não havia reciprocidade. Ele não demonstrou vontade, nem interesse. Então, decidi não forçar mais a barra.
Hoje, escolho rezar por ele. Quando ele me envia uma mensagem, respondo com respeito e serenidade. Entendi que insistir na presença de alguém que não quer ficar só prolonga a ferida. A cura veio quando eu me aproximei ainda mais de Deus, e O tomei verdadeiramente como meu Pai.
Descobri que o amor d’Ele é completo, constante e fiel. Ele nunca me negou o nome, o cuidado e o amparo.
Com o tempo, Deus também me presenteou com um pai adotivo, um homem simples, sem muita instrução, mas com um coração enorme. Ele me ensinou, à sua maneira, o que é amor paterno. Mesmo errando, tentou acertar. Mesmo cansado, se sacrificou por mim. Hoje o amo profundamente e reconheço nele o homem que Deus usou para me mostrar que o amor de pai pode ser redimido e aprendido. Ele é o meu paizinho — aquele que, sem ser biológico, foi instrumento da providência divina na minha vida.
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São José: exemplo de paternidade redentora
Não é à toa que me tornei devota de São José. Ele foi o pai que acolheu Jesus sem ser o pai biológico. Foi o homem que ensinou, protegeu e cuidou — mesmo sem compreender tudo.
São José nos mostra que a paternidade vai muito além do sangue: ela nasce da decisão de amar. E é exatamente isso que Deus faz conosco todos os dias: Ele decide nos amar, mesmo quando não o reconhecemos como Pai.
Ressignificar a ausência
Ressignificar a ausência paterna não é negar a dor, mas permitir que ela seja transformada.
Algumas atitudes práticas podem ajudar nessa caminhada:
- Fale com Deus sobre sua dor. Diga a Ele o que sente — sem medo ou reservas.
- Perdoe. Isso não significa concordar, mas libertar o coração da prisão do ressentimento.
- Procure apoio espiritual. Uma confissão, direção espiritual ou acompanhamento podem ser passos concretos de cura.
- Reveja sua imagem de Deus. Muitas vezes projetamos em Deus a ausência que vivemos com nosso pai terreno. Deixe que Ele mostre o verdadeiro rosto do Pai amoroso.
- Valorize as figuras paternas que Deus colocou no seu caminho. Pode ter sido um avô, um tio, um padrasto, um formador… todos são instrumentos do cuidado divino.
- Não repita a história. Permita que a dor te transforme em um homem ou mulher capaz de construir uma nova família, com amor, entrega e presença.
Deus continua sendo Pai
A ausência de um pai terreno não define quem você é.
Você é amado, escolhido e cuidado por um Pai que jamais abandona. Se hoje existe um vazio, que ele seja preenchido pela certeza de que Deus é um Pai que permanece, e que São José intercede para que cada ferida possa se tornar testemunho de fé, esperança e amor.
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Oração para curar a ausência paterna
Senhor, meu Deus e meu Pai,
Hoje quero colocar diante de Ti a ferida da ausência do meu pai. Tu sabes quantas vezes me senti rejeitado, esquecido, não amado. Mas creio, Senhor, que Tu jamais me abandonaste.Cura em mim todo medo, toda falta, toda insegurança. Ensina-me a reconhecer que o Teu amor é suficiente, que o Teu cuidado me envolve desde o ventre da minha mãe.
Dá-me um coração reconciliado, capaz de perdoar e seguir em paz. Que eu possa também aprender a amar, a cuidar e a ser presença, especialmente na família que o Senhor me confia.
São José, pai adotivo de Jesus e exemplo de paternidade fiel, intercede por mim. Que, por tua intercessão, eu aprenda a acolher, proteger e amar, como um verdadeiro filho e como um verdadeiro pai.
Amém.
Deus abençoe! Shalom!
Por Keilla Patrícia Martins
Shalom, Comunidade de Aliança – Missão Fortaleza