A última parte do capítulo 20 do Evangelho de João, remete-nos ao Ressuscitado que passou pela Cruz e que, por isso, dela traz as marcas gloriosas de “sadio sofrimento” e misericórdia.
Como sabemos, Tomé não se encontrava junto aos outros quando o Ressuscitado lhes apareceu. Ao saber da extraordinária notícia, tomado pela tentação da incredulidade, afirmou que só acreditaria se visse nas mãos de Jesus o lugar dos cravos, pusesse seu dedo neste mesmo lugar e metesse a mão no Seu lado. Para Tomé, como para muitos homens de hoje, para crer é preciso ver, tocar, comprovar, verificar “cientificamente”. Do contrário, sem comprovação empírica, o fato não é considerado “verdade” e não é digno de fé.
Sabemos como a incredulidade do discípulo inflama o coração do Ressuscitado e o faz retornar, no primeiro dia da semana seguinte, especialmente para ele. A contemplação do Ressuscitado que passou pela Cruz adquire, assim, mais uma dupla nuance: a do sadio sofrimento que faz agir a parresia e acende a misericórdia.
Mas o que vem a ser “sadio sofrimento”? Será que vamos abrir toda a antiga discussão sobre o sofrimento de Deus? Nada disso. Para a vocação Shalom, o “sadio sofrimento” consiste na união ao coração de Jesus, que veio trazer o fogo à terra e o que mais deseja é que ele se alastre e atinja a todos os homens e a toda a criação.
O sadio sofrimento ao olhar o mundo de hoje que vive no desconhecimento da Paz deve estar presente em nosso coração e ser respondido com a alegria daqueles que encontraram a pérola preciosa e não se contêm enquanto não proclamarem para todos a sua grande descoberta. [10]
O tema deste “sadio sofrimento” diante do homem que não conhece a Deus e que, por isso, sofre e é pobre da “verdadeira pobreza”, é recorrente em nossa espiritualidade, no espírito do fundador e em sua pregação. A conclamação para que peçamos a Deus a graça de viver intensamente este “sadio sofrimento” tem o poder de nos encher de parresia.
Através deste sofrimento, partilhamos, com relação ao homem de hoje, a legítima inquietação de Jesus quanto a Tomé, seu sadio sofrimento por vê-lo incrédulo a ponto de desafiar o próprio Deus, de cuja intimidade privou. A “dor” do Ressuscitado que passou pela Cruz e nela eliminou toda incredulidade precisa ser compartilhada por todos os que O contemplam e a Ele se querem configurar: “Há ainda um que não crê. É preciso agir rápido em seu favor”. Repete-se, renovada pela Caridade de Cristo, a pergunta inquieta de Deus a Caim: “Onde está o teu irmão?” É preciso ir à sua procura e isso o Ressuscitado faz pessoalmente, satisfazendo a todas as exigências do incrédulo e renitente irmão e discípulo.
Esta necessidade de ir à procura de quem está distante de Deus, os “Tomés de hoje”, é dom do Espírito do Ressuscitado que passou pela Cruz, assim como a parresia que enfrenta e vence todo obstáculo para levá-lo a uma experiência com Ele. É Ele o modelo e a fonte do sadio sofrimento, da autêntica misericórdia, do incansável zelo evangelizador que se concretiza em sempre renovada parresia.
Além do “sadio sofrimento” que impulsiona à parresia, o episódio de Tomé revela o Ressuscitado que age movido pela misericórdia e para ministrar a misericórdia do Pai que é Ele mesmo. É belo ver o Ressuscitado “pessoalmente” empenhado na evangelização, mais uma vez através do humilde abaixamento e esvaziamento de si em busca do pecador.
Este “envolvimento pessoal” do Ressuscitado é, para nós, modelo de evangelização. Por mais que reunamos multidões, sabemos que a evangelização pessoa a pessoa é imprescindível, insubstituível, pois é momento privilegiado de ministrar e comunicar a misericórdia do Pai. Enquanto, nos grandes encontros, alguns pescam com redes, logo ao lado do ginásio ou arena, há sempre os incansáveis ministros de aconselhamento e cura, que ministram, pessoalmente, a misericórdia divina, segundo a necessidade de cada um que os busca.
Em João Paulo II tocamos o mistério do Ressuscitado que passou pela Cruz que por meio de Sua misericórdia quebranta o coração endurecido do homem do nosso tempo. [1 1]
Tomé, assim como os homens empedernidos do nosso tempo, engolfados no relativismo iludidos pelo hedonismo, seduzidos pelo individualismo e sensualismo, envenenados pela incredulidade, endurecidos pela impiedade, foi quebrantado pela misericórdia e humilde amor demonstrados por Jesus Cristo quando apareceu a ele “de forma exclusiva” na mesma situação da primeira vez, como que fazendo o tempo voltar só para ele, a fim de dar-lhe nova, “personalizada” e privilegiada oportunidade, pessoalmente.
Tomé, ao ver o Senhor, foi “esmagado” por Sua misericórdia e, como os outros, encheu-se de alegria. De forma misteriosa, a alegria no Espírito tem marcado nossa espiritualidade e, como traço de juventude espiritual, tem transbordado em nossa vida comunitária e maneira de evangelizar. Nosso fundador frequentemente se refere a nós como a “vocação da paz e da alegria”, reconhecendo que este fruto do Espírito, que brota da própria ressurreição do Senhor, é testemunho de incansável fé e jubilosa esperança tão necessárias ao homem de hoje. A alegria, desta forma, caminha par a par com a misericórdia na evangelização do homem de hoje: O mundo de hoje será evangelizado pela misericórdia , disse-nos João Paulo II. Nós podemos acrescentar que a misericórdia traz consigo a alegria, também indispensável para evangelizar o homem do terceiro milênio [12].
Não há como não citar a bela música de Nicodemos Costa que retrata o encontro com Ressuscitado que passou pela Cruz a partir da alegria: Alegria! Brilhou nos Teus olhos, todo amor que sonhamos um dia, de Tuas mãos e de teu lado aberto a paz vem, enfim! O Teu sopro invadindo o peito, recriando em nós toda vida. De Tuas mãos e de Teu lado aberto a paz vem, enfim.// Vivo estás, hoje aqui, reunindo os corações em T i. Imensa alegria e felicidade, Tua glória entre nós.
Nossos Escritos nos dizem que fomos escolhidos por pura misericórdia de Deus, uma vez que somos pecadores, fracos como vasos de argila, miseráveis até. Sob este ponto de vista, nos colocamos ao lado de Tomé tanto em seu pecado quanto em seu privilégio de ser alvo da misericórdia que faz Deus abaixar-se até nós:
Nosso lugar é o da Pecadora e o de Maria de Betânia – aos pés Daquele que tanto nos amou e nos escolheu movido unicamente por sua imensa Misericórdia . [13]
Com Tomé, no lugar reservado aos pecadores, experimentamos a graça do “positivo sofrimento” que leva o Senhor a nos buscar com inflamada inquietação do Seu amor esponsal. Como ele, fomos escolhidos por misericórdia, com e como ele e os discípulos, fomos cheios da incomparável alegria comunicada pelo Ressuscitado que passou pela Cruz. Como ele, ao contemplar o Ressuscitado que passou pela Cruz e colocarmos nossa mão pecadora em seu lado glorioso fomos atingidos pelo divino choque da ressurreição e nunca mais fomos os mesmos.
Segundo nossos Escritos, o “divino choque da ressurreição” é o Espírito Santo a nós comunicado pelo Ressuscitado:
Não podem existir verdadeira paz e alegria que não brotem daquele coração que por amor deixou-se transpassar na cruz, abrindo espaço para , uma vez ressuscitado, acolher a mão de todo aquele que pela fé aceita receber o divino choque da Sua Ressurreição: o Seu Espírito. Espírito da paz e da alegria. Espírito que muda a nossa vida. [14]
Este Espírito de paz, de alegria, de contemplação, de unidade, de evangelização, de incansável parresia, de misericórdia que busca o irmão distante de Deus, une-nos ao Ressuscitado e à Sua missão. Além disso, inspira-nos amor fiel e filial à Igreja e torna-nos almas esposas de Cristo, o Ressuscitado que passou pela Cruz. Este mesmo Espírito imprime em nós a nova lógica do Reino, segundo a qual vive quem morre, ganha quem perde, ressuscita quem dá a vida livre e gratuitamente, por amor. Além disso, inspira-nos amor fiel e filial à Igreja e torna-nos almas esposas de Cristo, o Ressuscitado que passou pela Cruz.
Por Ele, com Ele e nEle, o Esposo, partimos, unidos a Ele e à Sua missão, configurando-nos, apaixonados, ao Ressuscitado apaixonado pelo homem. Que o Senhor não nos dê paz diante da urgência do anúncio evangélico [15], que Ele nos encha de sadio sofrimento pelos que se afastaram de Deus e nos faça ofertar nossas vidas como missionários aos Tomés de hoje, dispersos pelo mundo inteiro.
[10] Escrito Carta à Comunidade, 156
[11] Escrito Carta à Comunidade 2005 , 144
[12] Idem, 157
[13] Escrito Amor Esponsal, 06
[14] Escrito Carta à Comunidade 2005, 50
Maria Emmir Oquendo Nogueira
Cofundadora da Comunidade Católica Shalom
em “Entrelinhas” da Revista Shalom Maná
TT @emmiroquendo
Facebook/ mariaemmirnogueira
Coluna da Emmir – comshalom.org