Falar de misericórdia é muito bonito, mas como viver a misericórdia concretamente? Como sair do discurso e colocar em prática? Como assumir os sentimentos do Pai? Talvez seja necessária uma “misericórdia touchscreen“

Hoje em dia não tem mais nada de novidade. Ao contrário, tudo é tão intuitivo que, para uma criança, passar o dedo em uma tela que obedece aos movimentos é completamente normal. Estranho é pensar nas antigas máquinas de datilografar – o que é isso mesmo? – que deram lugar a teclados cada vez mais compactos e confortáveis e que agora são, talvez, até “desnecessários” para quem é touch.
A novidade agora é tocar! Nas páginas do Evangelho, Jesus nos ensina a importância do toque não na tela do iPhone ou tablet, mas do toque nas pessoas, especialmente nas mais necessitadas. Por meio do toque, Jesus cura os enfermos, liberta os endemoninhados, ressuscita os mortos, e assim Ele manifesta a forma de amar do Pai: a misericórdia. A misericórdia do Pai é concreta; não é de discurso, é de encontro, vai ao encontro e cura e salva. O convite de Jesus é que sejamos “misericordiosos como o Pai” (cf. Lc 6,36), que é também o lema do Ano Jubilar Extraordinário da Misericórdia. Podemos atualizar o convite de Jesus para o Ano Jubilar: uma misericórdia touchscreen.
Na tão conhecida Parábola do Bom Samaritano, Jesus reconhece a virtude daquele que foi capaz de tocar no homem ferido e, por isso, denuncia a indiferença de quem não foi capaz de se aproximar por julgamento, preconceito ou por escrúpulos que justificavam a indiferença. Tocar nos feridos, apertar as suas mãos, é o que diz o Papa Francisco, na bula de proclamação do Ano Jubilar Misericordiae Vultus: “Neste Jubileu, a Igreja sentir-se-á chamada ainda mais a cuidar destas feridas, aliviá-las com o óleo da consolação, enfaixá-las com a misericórdia e tratá-las com a solidariedade e a atenção devidas. […] As nossas mãos apertem as suas mãos e estreitemo-los a nós para que sintam o calor da nossa presença, da amizade e da fraternidade. Que o seu grito se torne o nosso e, juntos, possamos romper a barreira de indiferença que frequentemente reina soberana para esconder a hipocrisia e o egoísmo.” (Misericordiae Vultus, 15).
No Ano da Misericórdia, mais que discursos, devemos colocar em prática a misericórdia touchscreen, uma misericórdia colocada em prática como a do Bom Samaritano. A Igreja chama essas práticas de Obras de misericórdia:
Obras de misericórdia corporal. Dar de comer aos famintos; dar de beber aos sedentos; vestir os nus; acolher os peregrinos; dar assistência aos enfermos; visitar os presos; e enterrar os mortos.
Obras de misericórdia espiritual. Aconselhar os indecisos; ensinar os ignorantes; admoestar os pecadores; consolar os aflitos; perdoar as ofensas; suportar com paciência as pessoas molestas; e rezar a Deus pelos vivos e defuntos.
O primeiro passo para desejar ser canal da misericórdia é reconhecer que fomos amados primeiro, que Cristo fez tudo isso por nós. De forma muito concreta, fomos alvos da sua misericórdia por meio dos nossos irmãos, dos nossos amigos, dos nossos próximos. Quantas vezes fomos consolados, quantas vezes fomos assistidos nas enfermidades… Seria um bom exercício fazer memória dos momentos em que fomos alvos de obras de misericórdia, que fomos “tocados” pela misericórdia no relacionamento com os outros.
O segundo passo é ser canal da misericórdia de forma muito simples a todos aqueles que o Senhor nos mostrar no nosso dia a dia, como gratidão daqueles que receberam muito de Deus. Na mensagem para a JMJ de 2016, o Papa Francisco convida: “Dado que vós, jovens, sois muito concretos, quereria propor-vos a escolha de uma obra de misericórdia corporal e outra de misericórdia espiritual para pôr em prática cada mês”[1].
O terceiro passo não é nosso, é do Pai das Misericórdias, que nos define “bem-aventurados”, ou seja, felizes, “porque esses alcançarão misericórdia”. É a felicidade verdadeira o fruto para aqueles que têm coragem de se fazer “toque de Deus” para os outros. A felicidade é o fruto, seja aqui nesta terra, seja na vida eterna: “Vinde, abençoados de meu Pai! Recebei como herança o Reino”(Mt 25, 34).
[1] Mensagem do Papa Francisco para a XXXI Jornada Mundial da Juventude 2016.
Franco Michel Silva Galdino
Seminarista e Missionário da Comunidade Católica Shalom