Formação

Missão : a arte do encontro

comshalom

missao

Nós, cristãos, somos chamados, desde o nosso batismo, a vivermos segundo os ensinamentos de Jesus e a encarnarmos em todas as ocasiões e em todos os contextos sociais a mensagem evangélica. Abraçar a mensagem cristã implica acolher na própria vida o desafio cotidiano da conversão e da fé no Evangelho (cf. Mc 1, 15), por meio de uma autêntica e constante vida sacramental e de oração, de modo que, gradualmente, já não vivamos por nós mesmos, mas vivamos Cristo (cf. Gl 2, 20). Viver por Cristo, com Cristo e em Cristo exige de nós a luta diária para vencermos a nós mesmos, superarmos as nossas imperfeições e cultivarmos sadiamente o anelo da santidade. Exige, pois, que nós nos dispamos do homem velho (decaído, marcado pelo orgulho que o pecado nos traz) e nos revistamos do homem novo, “criado em conformidade com Deus, na justiça e na santidade” (Ef 2, 22-24).

Os cristãos, entretanto, não somos chamados a viver a santidade somente no âmbito privado, mas somos convidados, também, a dar testemunho da ação transformadora de Jesus a todas as pessoas. O discípulo de Cristo não deve ser apenas um exemplo da eficácia da mensagem do Mestre, mas deve ser o portador e propagador desta mesma mensagem a todos aqueles que necessitem de alento e conforto espiritual. A dimensão missionária é, pois, parte imprescindível da novidade que o Evangelho anuncia: “[Cristo] enviou-os a pregar o Reino de Deus e a curar os enfermos. (…) [Os discípulos] partiram, pois, e percorriam as aldeias, pregando o Evangelho e fazendo curas por toda a parte.” (Lc 9, 2.6). Depois de ressuscitado, Jesus reitera a necessidade da pregação evangélica por parte da Igreja nascente e dos fiéis: “Ide, pois, e ensinai a todas as nações; batizai-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Ensinai-as a observar tudo o que vos prescrevi. Eis que estou convosco todos os dias, até o fim do mundo.” (Mt 28, 19-20).

Na vida cotidiana, o cristão deve assumir esse desafio de levar Cristo e sua mensagem a todos os lugares como consequência natural de sua própria experiência de conversão. Já São Paulo, tendo ele mesmo experimentado a misericórdia divina e abraçado a fé em Jesus, exortava: “É-me imposta a necessidade de pregar. Ai de mim se não pregar o evangelho!” (I Cor 9, 16). Com efeito, “eles [os fiéis leigos] têm a obrigação e gozam do direito, individualmente ou agrupados em associações, de trabalhar para que a mensagem divina da salvação seja conhecida e recebida por todos os homens e por toda a terra; esta obrigação é ainda mais presente se levarmos em conta que é somente por meio deles que os homens podem ouvir o Evangelho e conhecer a Cristo.” (CIC, § 900). É missão da Igreja anunciar o Evangelho de Cristo na qualidade de depositária das graças dispensadas por Cristo ao mundo através de Sua morte e ressurreição: “Enviada por Deus às nações para ser ‘o sacramento universal da salvação’, a Igreja, em virtude das exigências intimas de sua própria catolicidade e obedecendo à ordem de seu fundador, esforça-se para anunciar o Evangelho a todos os homens.” (Ad Gentes, § 1).

Nós devemos reter as graças abundantes que, na Igreja, Jesus derrama sobre todos. A mensagem evangélica é sinal de salvação para toda a humanidade, que “aguarda ansiosamente a manifestação dos filhos de Deus.” (Rm 8, 19). Por esta razão, somos todos convidados – e até exigidos a fazê-lo – a anunciar Cristo, como discípulos e missionários, por meio do nosso exemplo e através da nossa pregação constante: “O dever dos cristãos de tomar parte na vida da Igreja leva-os a agir como testemunhas do Evangelho e das obrigações dele decorrentes. Esse testemunho é transmissão da fé em palavras e atos. O testemunho é um ato de justiça que estabelece ou dá a conhecer a verdade” (CIC, § 2472, cf. Mt 18, 16). Ainda nesse sentido, Santo Tomás de Aquino pregava: “Ensinar alguém para leva-lo à fé é a tarefa de cada pregador e até de cada crente.” (S. Th. III, 71, 4, ad 3).

Essa exigência da missão evangelizadora leva-nos, por meio da oração e da vida de intimidade com Deus, a nos abrirmos às inspirações do Espírito Santo, que nos vai soprando as mais criativas formas de levar a mensagem de Jesus a todas as pessoas, em todas as épocas. Uma vez disponíveis à graça do Pai, somos convocados a colocar à disposição da Trindade nossos dons e talentos para o serviço da propagação do Reino: “A iniciativa dos cristãos leigos é particularmente necessária quando se trata de descobrir, de inventar meios para impregnar as realidades sociais, políticas e econômicas com as exigências da doutrina e da vida cristã. Esta iniciativa é um elemento normal da vida da Igreja.” (CIC, § 899). Nós, discípulos, estamos sempre dispostos a anunciar Cristo ousadamente, sem reservas, de maneira a transformar o coração dos homens e a dar-lhes o rosto de Cristo: “Assim, todo leigo, em virtude dos dons que lhe foram conferidos, é ao mesmo tempo testemunha e instrumento vivo da própria missão da Igreja ‘pela medida do dom de Cristo’ (Ef 4,7)” (Lumen Gentium, § 32).

Neste nosso tempo, profundamente marcado por uma fuga maciça de Deus e de toda e qualquer experiência espiritual efetivamente transformadora, o desafio da evangelização torna-se cada vez mais acirrado e urgente. Somos constantemente confrontados, na cultura contemporânea, com as chagas do secularismo, do relativismo cultural e moral e com o vitimismo ideológico travestido de discurso “politicamente correto”. É imperioso fazer frente a esta realidade tão contrária a Cristo e a Igreja, o que nos leva a assumir, com maior comprometimento, a tarefa de sermos missionários fiéis às exigências evangélicas e de proclamarmos a ação redentora do Pai no seio da humanidade. Evangelizar é hoje, mais do que nunca, o constante exercício da coragem do anúncio, da disponibilidade total à ação do Espírito em nós e da sensibilidade que nos leva a estar atentos às necessidades mais prementes do homem moderno. Ser missionário é, pois, ir ao encontro do nosso próximo, esteja onde estiver, para dar-lhe, por nosso testemunho e por nossa pregação, a centelha do amor de Cristo.

O próprio Papa Francisco, motivado pelo persistente discurso sobre a Misericórdia de Deus para a Igreja deste tempo, nos impulsiona a sermos missionários aguerridos da causa de Cristo: “Partilhar a experiência da fé, testemunhar a fé, anunciar o Evangelho é o mandato que o Senhor confia a toda a Igreja, também a você. É uma ordem sim; mas não nasce da vontade de domínio ou de poder, nasce da força do amor, do fato que Jesus foi quem veio primeiro para junto de nós e nos deu não somente um pouco de Si, mas se deu por inteiro, deu a sua vida para nos salvar e mostrar o amor e a misericórdia de Deus.” (Homilia do Papa Francisco na Missa de envio da Jornada Mundial da Juventude, 28.07.2013, § 1). O mandado missionário deve abrir-nos ao novo de Deus que nos constrange e à realidade do mundo que nos interpela. Em todos os ambientes – na escola, no trabalho, no meio acadêmico, na realidade cultural – deve rebrilhar a luz de Cristo através do exemplo dos cristãos que aí atuam e pregam. “Para onde Jesus nos manda? Não há fronteiras, não há limites: envia-nos para todas as pessoas. O Evangelho é para todos, e não apenas para alguns. Não é apenas para aqueles que parecem a nós mais próximos, mais abertos, mais acolhedores. É para todas as pessoas. Não tenham medo de ir e levar Cristo para todos os ambientes, até as periferias existenciais, incluindo quem parece mais distante, mais indiferente. O Senhor procura a todos, quer que todos sintam o calor da sua misericórdia e do seu amor.” (Homilia do Papa Francisco na Missa de envio da Jornada Mundial da Juventude, 28.07.2013, § 1).

Devemos ir ao encontro de todos, sem exceção e sem medo. Encontrar significa tocar a realidade concreta, estar preparado para involucrar-se com a situação do nosso próximo e dispensar a graça de Deus que atua por meio de nós, Seus instrumentos, em socorro dos que mais necessitam. É sair do comodismo tão caro à nossa sociedade contemporânea, marcada pelo egocentrismo e pela superficialidade, para a doação da nossa vida como exercício autêntico de amor, na medida de nossas capacidades e em atenção ao nosso estado de vida. É estar preparado para o serviço generoso ao demais, assim como nos ensina o exemplo de Paulo: «Eu me tornei escravo de todos, a fim de ganhar o maior número possível» (1 Cor 9, 19). É ser, enfim, um segundo Cristo para aqueles que já não possuem a capacidade de enxergar a caridade e a misericórdia no meio em que estão inseridos. A missão abarca toda a vida do cristão e dá a ela o sabor e alegria necessários para o prosseguimento da caminhada.

O poeta Vinícius de Moraes disse: “A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida”. Que nos desencontros de nossas vidas, pelos quais nos tornamos insensíveis às misérias humanas e ao apelo divino de procurar saná-las na medida de nossas potencialidades, possamos constantemente encontrar o Cristo Ressuscitado que passou pela Cruz. E que Ele nos motive a ir ao encontro daqueles que estão nas “periferias existenciais” e propiciar-lhes, por nosso ardor missionário, a que também eles encontrem a Jesus, princípio e fim de nossa vida. E que Maria, a grande missionária, nos ensine a nos levantarmos de nossa imobilidade e irmos às pressas ao encontro do nosso próximo (cf. Lc 1, 39), portando Cristo em nosso coração, a fim de que a salvação e o amor de Deus alcancem a todos os homens.

Breno Alves

 


Comentários

Aviso: Os comentários são de responsabilidade dos autores e não representam a opinião da Comunidade Shalom. É proibido inserir comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem os direitos dos outros. Os editores podem retirar sem aviso prévio os comentários que não cumprirem os critérios estabelecidos neste aviso ou que estejam fora do tema.

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *.

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *