
No mês missionário, a Comunidade Shalom presente em Braga-Pt, foi entrevistada pelo jornal local Diário do Minho. Foram feitas perguntas acerca da vocação a duas missionárias: Maria Vanielle (CV) e Izabelle Pinheiro (CAl).
Isabelle Macedo tem 27 anos e é natural de Natal, no estado de Rio Grande do Norte, Brasil. Enfermeira de formação entrou na comunidade católica Shalom aos 20 anos. Esteve dois anos em Almada, na outra comunidade Shalom em Portugal. Está em Braga há apenas duas semanas.
Maria Vanielle de Araújo tem 26 anos e é natural da cidade de S. Fernando, do estado do Rio Grande do Norte (Brasil). Entrou na comunidade católica de Shalom há três anos, depois de se ter licenciado em pedagogia. Está em Portugal há apenas dois meses. Atualmente está na fase do discipulado, a preparar-se para assumir o compromisso definitivo.
Os cristãos de Braga têm-se habituado a conviver com missão da Comunidade Católica Shalom. Conseguem explicar-nos um pouco da vossa origem e carisma?
Isabelle Macedo (IM)_ É uma comunidade como as outras comunidades. A Comunidade Católica Shalom foi fundada por um leigo, que hoje é consagrado celibatário. Somos uma comunidade formada por leigos, juntos para evangelizar. Não é uma ordem religiosa, mas uma comunidade laical. Nós somos e existimos para evangelizar. Nascemos no Brasil, mas já estamos espalhados por vários países do mundo. Em Portugal temos comunidades em Braga e Setúbal. Estamos também em países como Suíça, Itália, Espanha, Inglaterra, Alemanha, Canadá, China, Madagascar e em muitos países da América Latina.
O vosso carisma permite dois tipos de vocação, do qual, aliás, cada uma de vocês é representante. Conseguem explicar a diferença entre pertencer à comunidade de vida e à comunidade de aliança?
Vanielle Araújo (VA)_ Nós estas temos duas dimensões dentro da comunidade Shalom. Uma é a comunidade de vida em que nós deixamos tudo para ir em missão para onde formos enviados, vivendo uma vida comunitária. Como nas ordens religiosas temos os nossos horários, vida comunitária e o nosso coordenador. Temos também momentos de oração comunitária e toda a nossa vida vai ser dentro da comunidade. A nossa casa é a nossa comunidade. Vivemos inteiramente da providência divina.
IM_ A comunidade de aliança, à qual eu pertenço, destina-se àqueles que Deus chama a viver na vida secular. Sou chamada a ter uma vida comum, a estudar, a trabalhar e a ter uma vida familiar, inserida no meio secular. Neste momento estou a viver o chamado tempo de missão que dura três anos, em que excecionalmente vivo na comunidade, mas findo este tempo vou regressar ao Brasil, à minha cidade e é aí que vou desempenhar a minha evangelização. Isso é que distingue quem pertence à comunidade de aliança e à comunidade de vida. Sou enfermeira e vou voltar a trabalhar. Continuo com um compromisso diário de oração e terei encontros frequentes com a comunidade, mas vou viver no meio secular.
Os religiosos fazem votos de castidade, pobreza e obediência. A vossa vocação tem implicações distintas, não é verdade?
IM_ Como não somos religiosos não fazemos votos. Fazemos promessas. Fazemos promessas de pobreza, castidade e obediência. Na nossa vocação temos casais, sacerdotes e celibatários. Todos fazem as promessas, mesmo os casais. A castidade também é vivida por aqueles que casam, nomeadamente seguindo o que diz a Igreja a respeito dos métodos naturais. Pode haver casos em que apenas um membro do casal pertence à Comunidade Shalom.
VA _ Primeiramente, buscamos o nosso caminho de consagração e depois vamos discernindo qual a melhor dimensão aviver.

Quem pertence à comunidade de vida vive inteiramente da providência divina. É mesmo possível viver assim?
VA_ Acreditamos que a providência se manifesta sempre de alguma forma. Deus se utiliza dos irmãos, dos benfeitores e daqueles que pertencem à comunidade de aliança para sustentar aqueles que só trabalham pelo Reino. Também vendemos produtos e livros para nos sustentarmos. Só assim poderemos viver da providência divina. Já estou na comunidade há cerca de três anos e nunca me faltou nada. Não vivemos nem na penúria, nem na abundância, mas sempre com dignidade. Temos muitos testemunhos de que Deus sempre fornece os meios para sustentar a sua obra.
O que vos chamou a esta vocação?
IM_ Na verdade, só conheci Deus dentro da Comunidade Católica Shalom. Antes eu seguia falsas doutrinas, a religião do espiritismo, até que o meu irmão me deu a conhecer a Comunidade. Fui com ele a um grupo de oração, numa altura em que ele recuperava do consumo de drogas. O que me encantou na comunidade foi a alegria. Nós, brasileiros, temos sempre uma alegria natural, mas esta era uma alegria diferente. A proximidade com Jesus dá uma alegria muito própria. A forma como me acolhiam e como falavam de Deus encantou o meu coração. À medida que me ia aproximando de Deus, comecei a deixar as festas e o namoro e tudo aquilo que me afastava d’Ele. Sempre me encantou a ideia de estar no mundo, sem estar no mundo. Comecei este processo com 16 anos e entrei na Comunidade Shalom aos 20 anos.
VA_ A comunidade veio como uma resposta muito grande ao meu coração. Estava na universidade e era católica, mas acreditava que a religião estava muito distante do que eu ambicionava. Tentava perceber as coisas de uma forma racional e não obtinha resposta. Como outros jovens, pensava que a Igreja estava muito antiquada e afastei-me. Quando encontrei a Comunidade Shalom, fui percebendo que Deus tinha um lugar para mim na Igreja. Eu queria Deus e percebi que a Igreja só poderia ser jovem se os jovens tiverem e assumirem um lugar dentro da Igreja. O único capaz de responder aos anseios do meu coração é Deus. Respondi “eis-me aqui!” e percebi que só o caminho de consagração dava respostas concretas para a minha vida. Hoje sou muito feliz na vida comunitária, vivendo para Deus.
Vieram para Braga em missão. Qual a vossa opinião sobre as pessoas, a cidade e a forma como se vive e experimenta a fé aqui?
VA_ Eu tenho muitas raízes da minha religião aqui. Sou brasileira e foram os catequistas daqui que levaram a fé para o Brasil e isso dá para perceber. Vejo também que Braga é uma cidade que tem um desejo muito grande de juntar o dinamismo da sua juventude à sabedoria do seu passado muito religioso. Há muitos jovens, mas por vezes estão distantes. Vou vendo que existe esse desejo em muitos jovens, embora por vezes exista distância. Há ainda um desejo grande de quem já está dentro da Igreja se mostrar àqueles que estão mais distantes.
IM_ Estou cá há muito pouco tempo, mas vejo que os sinos das Igrejas marcam muito o ritmo da cidade. Quando vou à eucaristia sinto também que é muito participada. Há muita gente, embora se vejam poucos jovens. Nota-se uma assembleia um pouco envelhecida. Um outro aspeto que gostei muito foi o silêncio das igrejas. É bom entrar dentro das igrejas e rezar um pouco mergulhada neste silêncio. Existe muita piedade e respeito.
Uma das vossas missões é estar na praça, no espaço público, e ir ao encontro dos jovens. Como é que corre habitualmente e como é que os jovens reagem?
VA_ Nós, primeiro, observamos e depois vamos ao encontro. Vamos ter com os jovens aonde eles estão. Na praça, no centro da cidade, se vemos um grupo de jovens, vamos ter com eles e levamos frases escritas em papel que entregamos. Depois perguntamos o que pensam acerca do que está escrito e gera-se um diálogo. Trocamos contactos e vamos falando. Simplesmente estamos com eles. Quem sabe, através de nós, os jovens podem ver a alegria de Deus e aproximar-se mais da Igreja.
Estamos a viver o Outubro Missionário. Vocês também são missionárias em Portugal, cinco séculos depois dos portugueses evangelizarem o Brasil. Qual a vossa missão?
VA_ Quando me disponho a ir em missão, comprometo-me a levar um pouco do tesouro que encontrei. Estamos no Ano da Fé e é importante este processo de renovar a fé. O que nós pretendemos aqui em Portugal é auxiliar a Igreja na Nova Evangelização. Por isso, estamos sempre à disposição do clero e do nosso bispo para ajudar neste processo, a partir do nosso carisma.
IM_ Em Almada questionava muito essa dimensão missionária. Quando pensamos em missão, pensamos em estar com os pobres que não têm o que comer ou o que vestir, mas também existem pobres que não conhecem a Deus. É outro tipo de pobreza, mas que implica na mesma a nossa missão. Aqui evangelizamos os jovens e as famílias. Vamos também até à universidade e a um lar de idosos, onde tentamos levar um pouco do que Deus quer dar ao nosso caminho.

A Igreja tem futuro?
IM_A Igreja tem futuro, claro. A nossa rocha é Cristo e estamos num tempo de reencontrar e reavivar a fé. Aqui sente-se uma distância entre os jovens e a Igreja, por isso é que é preciso ir ter com eles. Na América Latina é diferente. Lá há muitos jovens na Igreja e a fé é muito viva e alegre. Em cada facto histórico da nossa Igreja, Deus mandou uma mensagem à humanidade. Diante de tantas inquietações e crises que marcam o Homem atual, Deus continua a ser uma resposta. O Espírito Santo sabe renovar todas as coisas. É preciso fazer esta resposta chegar ao coração dos homens.
Estamos a entrar no Ano Litúrgico. Na vossa opinião como se poderia tornar as celebrações mais vivas e participadas?
VA_ Uma porta de entrada para o povo participar mais na celebração é a música. Como fazia São João Batista, que preparava os caminhos do Senhor, a música prepara o coração das pessoas para viverem melhor a celebração. Através dos dons que os artistas têm pode haver contributos positivos para as celebrações
Rui Ferreira
Jornalista do Diário do Minho
Fonte: Diário do Minho