
Tu do alto da tua cruz, me aguardas. Eu, do alto de meu orgulho, não entendo. Fujo. Todos os dias. E vens me reconquistar. Fazendo da morte um detalhe. Da dor, um poema. Morres de amor. Para que o nosso amor nunca morra. Te entregas, no desejo que, cá, eu faça o mesmo.
E eu, teu inverso, me calo. Sem saber amar. Sem saber falar. Consigo apenas observar. Palavras se fazem desnecessárias. Nos entendemos no silêncio. Os olhares se falam. Teu olhar é prosa. O meu é verso borrado, lacrimejado.
Como apaixonado queres apenas minha presença. Proximidade da tua criação. Desfigurada pelo pecado. Fecho os olhos e encosto no teu peito, nova morada. Casa dos miseráveis. Do teu lado, o mesmo aberto por uma lança, escuto tua melodia. Silenciosa. Mansa. E, para alguns, insana. Recitadas por teus últimos suspiros.
Morte e vida te abraçam, pensando ser o fim. Pobre morte. Não é ponto final para quem ama. É o nosso abraço que fica para sempre. Numa árvore, com formato de cruz, morre de amor o amor. Tão apaixonado, como nunca fui. Tão desfigurado quanto consigo perceber que sou. Adormece nas mortes que há em mim. Morre de amor o amor.
