Diante de minhas fragilidades decidi.
Nessa quaresma que se passou decidi viver diferente de todas as outras, algo sem igual. No mesmo momento me dispus a abertura de coração para alcançar aquilo que me propunha. Tempo de oração, jejum e penitência; não sabia destas três práticas qual seria vivida com mais intensidade, quando fui surpreendida pelo primeiro de vários encontros, ao me deparar com dois irmãos de rua no pátio da igreja. Era como se uma força superior me empurrasse para que eu me aproximasse deles. Cheguei, me apresentei e iniciamos um diálogo bem interessante.
Zenóbio é um deles, um senhor de meia idade, interessado por música clássica, tinha mulher e filhos, mas por causa de desentendimentos familiares decidiu fazer da rua sua morada. O outro se chama Éder, mais moço, seu interesse musical era mais moderno, anos 80, sua família morava perto da igreja, numa viela.
Os encontros se tornaram constantes naquela semana. Eles sempre me acolhiam com um sorriso nos lábios, no entanto, Zenóbio, ficava desconcertado quando percebia que a bebida que estava ao seu lado poderia ser percebida por mim e carinhosamente me explicava que tinha muito medo de dormir na rua e por isso ela, naquele momento, era quase que uma “necessidade” para enfrentar mais um dia às escuras, na penumbra da noite e na total indiferença dos homens.
Percebi claramente, que o relacionamento deles era de amizade. As situações semelhantes, a fome, o frio e o medo os tornaram companheiros de toda hora. Nas nossas conversas não pediram nada, o estar com eles já preenchia aquele vazio de não ser nada e nem ninguém. Não ofereci, a princípio, nada de material, acreditei que o breve tempo dispensado a eles seria essencial para chegar mais fundo nas suas expectativas, expectativas sim, muito mais que necessidades, eles tem sonhos, não se perderam nas vicissitudes de seus desalentos, existe esperança em seus corações.
Mas, claro, sentem fome, frio e medo e principalmente a sensação da invisibilidade, sentem de tudo um pouco. Muito devagar foram partilhando suas necessidades básicas: não tinham o que comer, nem o que vestir, isto foi a brecha para que eu pudesse entrar, sem constrangimentos e invasões, respeitando a individualidade de cada um. Não é certo achar que podemos tratá-los de qualquer maneira, afinal, eles são seres humanos como nós e são dignos de todo respeito.
Vivi às surpresas de Deus deste tempo tão propício para a conversão do coração. Cada um deles, era o Lázaro da parábola que Jesus contava no seu tempo e hoje, conta a cada um de nós.
Na abertura cotidiana do viver rompem-se os muros da indiferença, dos medos, do respeito humano, da vida de aparências e encontramos a possibilidade de participarmos da vida dos irmãos!
Márcia Andrea Barreto
Meus parabéns Márcia! Pela sua abertura de coração para com jesus no próximo . tenha certeza sua atitude e seu testemunho para me são os cuidados de Deus para o meu coração. Gratidão eterna gratidão