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“Se não escutarmos o homem de hoje, correremos o risco de ser uma voz no deserto”

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Edilson Filho durante lançamento do livro

O cearense José Edilson Filho é autor de uma história que reúne sociedades secretas, amizade, intrigas e valores cristãos. A inspiração surgiu do desejo de dar aos outros uma experiência bem pessoal. Já o impulso para escrevê-la veio com a escuta da pergunta feita pelo “homem de hoje”, fim e personagem de quem a saga Tomas Rocha busca ir ao encontro. Confira entrevista com o escritor e saiba mais sobre a trilogia cujo primeiro livro, “Tomas Rocha e os Filhos de Odin”, chega às livrarias pelas Edições Shalom.

– Qual foi a inspiração para escrever o livro?

A primeira inspiração é sempre o desejo de partilhar uma experiência que você teve. Isso acontece quando você tem uma experiência com Deus, quando fica inundado pelo desejo de dizer pro outro o quanto é bom o que você descobriu. Mas também quando assiste a um filme ou lê um livro, você diz: eu quero que os outros saibam o que agora eu sei. Há três anos, eu que sou apaixonado por Literatura, leio muito literatura secular, Sherlock Holmes, Chesterton, pensei: como seria interessante ler um livro cuja história acontecesse no meu país, mesmo sendo ficção. A gente está tão acostumado, por exemplo, a pegar um livro do Sherlock Holmes, onde tudo acontece na Inglaterra. Tudo acontece fora ou em um país imaginário. Eu pensei: como seria legal você ler um livro cujas páginas trouxessem o rosto da sua cultura, do povo brasileiro, que falasse em alguns lugares importantes no país. “Será que eu teria condições de escrever um livro assim?” Na hora, eu desisti da ideia. Não me sinto um escritor, nem tirava notas boas em redação, pra começar. Mas ficou aquela inquietação. O que realmente foi decisivo pra que a inspiração viesse foi perceber que dentro da nossa literatura, especialmente cristã, já temos livros assim. A gente pode lembrar aqui de As Crônicas de Nárnia e também de O Senhor dos Anéis. Eu pensei: acho que a humanidade tá precisando de um novo “start”, de uma nova possibilidade de livro que traga valores cristãos, que traga valores da sociedade, não só luta, de guerra, uma trama, porque a gente já está inundado disso aí. Eu pensei em alguma coisa que ficasse. Então, a inspiração nasceu assim: do desejo de partilhar essa ideia, essa experiência de Deus, de uma forma diferente.

– O livro fala sobre uma sociedade secreta, é um romance policial que envolve política, ateísmo, envolve muitas situações presentes no dia-a-dia de tantas pessoas. Como foi o desafio de colocar os valores dos quais você falou dentro desses contextos?

É interessante porque quando você escreve, o primeiro leitor obviamente é você mesmo. Eu já fiz esta experiência: você começa a escrever uma história e começa a perceber que você até queria que aquele personagem vivesse algo, e quando está escrevendo, ele começa a viver outra coisa. Você é testemunha, em primeira mão, você fica vendo o que tá acontecendo e torcendo pra que dê certo! Mas o desafio surgiu: eu vou falar de valores cristãos. Diferente daqui, que eu posso ver o seu rosto, eu não sei quem vai ler. Então, é preciso ter uma sabedoria, pra falar de uma forma que a pessoa abra o coração e a mente. Quando eu pensei em falar um pouco sobre política, porque a gente dá uma pitada de política, mas de forma especial, fala um pouco de amizade, a primeira coisa que eu fiz foi ver quais são as minhas amizades. E eu comecei a perceber qual é o valor de amizade que o mundo oferece e qual é a nossa proposta de amizade. Então, primeiro, eu devia saber que o leitor se pareceria com aquilo que o Moysés, o fundador da Comunidade Shalom, falou.

Ele ficou inquieto ao ver um jovem passar, um jovem que parecia não ter um rosto, mas que na verdade trazia o seu rosto e o rosto de toda a humanidade. Eu tive que aceitar essa ideia, que ao escrever eu não estaria escrevendo pra minha família, nem para os católicos ou cristãos, mas para o homem que traz o rosto da humanidade.

Se o autor puder sonhar, ele sonha que os leitores serão pessoas de outros países também. Eu precisava estar seguro de que aquela história não iria agredi-los, já que vai falar de valores. Em alguns momentos nós temos impressão de sermos criminosos ao falar em valores como família, amizade. Então, o desafio acabou se tornando a grande oportunidade. Eu tirei o foco de: será que eu vou saber escrever? E comecei a pensar: eu acho que quem vai ler vai estar interessado. O que foi decisivo pra que a história tomasse pé foi uma conversa que eu tive com a Josefa Alves (missionária da Comunidade de Vida Shalom e escritora). Em outubro de 2011, a Josefa foi a Salvador, eu estava lá. Em uma conversa sobre Literatura, ela me falou que estava escrevendo algo que fugia do padrão com que estávamos acostumados. Aí eu disse: eu também tô. E apresentei pra ela a história. Se a gente está aqui hoje é claro que foi com a bênção de Deus, com a fé das Edições Shalom e muito se deve a Josefa Alves, porque ela teve esse feeling que aí era uma oportunidade de evangelização.

– Por que “Tomas Rocha”?

Eu tenho dificuldade de escolher nomes. Você sabe até criar histórias, mas não escolher os nomes das pessoas. E quando eu comecei a pensar na história, o Tomas não tinha esse nome, era outro. Eu pensei: não está se enquadrando. Quando comecei a perceber o que aquele personagem iria viver, eu senti: vai ser Tomas Rocha. Esse nome faz referência a dois grandes apóstolos: Tomé, por isso Tomas, aquele que duvidou;  Rocha, ou seja, Pedro, aquele que acreditou. “É isso!”, conclui. Porque Tomas Rocha é um personagem que não sabe muito se Deus existe, tem lá suas dúvidas, mas, no decorrer da história, por causa do testemunho de seus amigos, tem uma experiência com Deus. E aí, de “Tomé” ele vira “Rocha”. No livro, há um padre, que se chama padre Amadeu, que é uma figura, que dá a Tomas o seu significado.

– Recentemente eu estava lendo a biografia de C.S. Lewis e lá ele menciona os Filhos de Odin. Você teve influência de Lewis na escolha do nome do livro?

Não, eu não li essa colocação de C.S. Lewis. Mas como foi que surgiu: quem trabalhou na diagramação do livro sabe que não tinha esse nome, era algo mais cacofônico: Tomas Rocha e os filhos de Ketbrun, um nome assim, que eu inventei. Aí, eu pensei: não vai dar certo, eu vou olhar o que os filmes de 2013 vão nos apresentar. E comecei a perceber que as mitologias nórdica e grega estavam em alta: Fúria de Titãs, Thor. Odin é pai de Thor. Thor é orgulhoso e Odin envia seu filho pra aprender a ser humilde. Então, eu pensei que seria também uma oportunidade de explorar a mitologia nórdica. E fiz isso no livro.

– Por que uma trilogia?

Eu não pensei em escrever uma trilogia. Matrix, por exemplo, eu adorei o Matrix 1, quando assisti o segundo eu odiei, e o terceiro eu nem assisti ainda. E pensei, se acontecer isso na trilogia eu não vou querer. Mas como a ideia do livro é ser participativo, ou seja, a pessoa vai ler Tomas Rocha, vai mandar uma mensagem no Facebook dizendo o que achou do livro, o que chamou mais a atenção, quis construir uma história junto com o leitor. Por isso, optei pela trilogia, eu não ficaria na obrigação de exaurir tudo o que queria falar em um livro só. Isso é um recurso pra quebrar um pouco a história e fazer com que ela acontecesse. Claro que em cada livro a história tem um final. No final de Tomas Rocha, a história se conclui, mas eu já coloco o primeiro capítulo do segundo livro, que é “Tomas Rocha e a ordem dos Iscariotes”.

– Você citou alguns autores. Quais foram suas influências, quem você costuma ler?

Três autores estrangeiros, embora eu goste de José de Alencar, cearense de Messejana, que é um dos maiores romancistas brasileiros, tutor de Machado de Assis. Mas, foram três estrangeiros: primeiro, Chesterton, com “A Inocência do Padre Brown”. Eu conheci esse livro no finalzinho de Tomas Rocha, mas já tinha tido contato com as ideias de Chesterton e sabia que ele tinha influenciado Tolkien, que escreveu “O Senhor dos Anéis”, e C.S. Lewis, que escreveu “As Crônicas de Nárnia”. O outro autor foi Julio Verne, que escreveu “15 Semanas em um Balão”, “20 Mil Léguas Submarinas”. Eu tive oportunidade de ler esses livros. Li, em especial, “A Volta ao Mundo em 80 Dias”. O terceiro é o autor de Sherlock Holmes, que fala de uma realidade mais palpável.

– Que paralelo poderia ser feito entre a sua obra e os livros de Dan Brown, especialmente “O Código Da Vinci” e “Anjos e Demônios”, que também abordam sociedades secretas?

Eu não li toda a obra de Dan Brown, mas já li a crítica da maioria dos livros dele. Ele é um gênio, porque consegue apelar para o que há no coração do homem. É o que eu gosto de dizer, falando sobre evangelização:

precisamos saber que o homem de hoje faz uma pergunta. Se não escutarmos a pergunta dele, corremos o risco de ser uma voz no deserto, de ficar falando, mas o homem tá procurando escutar outra coisa.

Brown, não só ele, mas Stephenie Meyer, autora de “Crepúsculo” e do restante da saga, conseguiram ouvir o que o homem estava falando, e começaram a conversar com esse homem. Dan Brown, que não é historiador, cria uma “pseudo narrativa histórica”, por isso fez sucesso. Porque o homem, acostumado a assistir programas policiais e, por causa do cinema americano, acostumado a procurar conspiração em tudo, ficou com os ouvidos ávidos por aquilo que Brown queria falar. Essa ideia de Maria Madalena se casar com Jesus é uma ficção, chega a ser uma afronta à própria história. Mas o autor fez isto: soube transformar um fato que não é histórico em história. É interessante que ganhou tanta credibilidade que muitas pessoas quiseram tornar real o fictício. E aí, a minha ideia é pegar o fictício e trazer para o real, eu escolhi fazer o caminho contrário ao de Dan Brown. Quando eu comecei o Tomas Rocha, estava em alta O Código Da Vinci, e foi o estopim pra que eu falasse: eu preciso realmente escrever, a Comunidade precisa, a Igreja Católica precisa, porque os nossos grandes autores estão lá: C.S. Lewis, Tolkien. E graças a Deus tivemos essa oportunidade.

– Você citou parte de seu sonho, mas eu queria ampliá-lo, se você me permite. Uma vez que o seu livro é adquirido e lido pelo público ao qual você se propõe dirigir, que são os jovens, o que você sonha que o livro gere em quem o lê?

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“Tomas Rocha e os filhos de Odin” foi lançado na Livraria Cultura, em Fortaleza

O primeiro objetivo do livro é que a pessoa comece a ter alguns pensamentos semelhantes ao que ele apresenta. Primeiro, a ideia que você pode ser perdoado. O livro traz um personagem que surge de forma misteriosa, que é o Alfredo. Você começa a olhar a história do Alfredo e se pergunta o que vai acontecer com ele: ele é do bem? Ele é do mal? Ele vai trair? Ele vai ser digno da minha confiança? O que eu espero é que o leitor, primeiro, se apaixone pela obra, obviamente, que ele repita frases que o livro traz, porque eu gosto muito de citar frases de pessoas famosas, algumas do C. S. Lewis. E eu pensei que o livro poderia trazer também jargões, a pessoa falar e você: ah, você leu esse livro? Eu também li! Por isso, no trailer, a gente vê algumas frases que o livro traz. E eu tenho ficado muito feliz por estar tendo um feedback. Tenho recebido muitas mensagens no Facebook, às vezes em alguma pregação ou no programa na Rádio. Eu fiquei muito feliz porque veio conversar comigo uma mulher que tem um filho que não participa de nada religioso, mas que leu o livro em uma noite, um livro de 223 páginas. Eu imagino que se esse jovem começar a ler livros que trazem valores cristãos, ele vai começar a pensar, e pensando ele vai abrir o coração a uma experiência com Deus. Espero que quem leia não só se apaixone por esse livro, mas pela Literatura, porque uma mente que se abre à Literatura, nunca volta ao tamanho inicial, sempre fica maior.

*Entrevista realizada em 25 de novembro de 2013, no lançamento de “Tomas Rocha e os filhos de Odin” na livraria Cultura, em Fortaleza. Perguntas feitas pelo público e pelo apresentador, João Carlos do Nascimento. Mantido o tom coloquial. Transcrição e edição: Emanuele Sales.


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