Anualmente, celebramos o Dia Mundial da Paz, ocasião em que o Romano Pontífice dirige ao mundo uma mensagem que, mais do que uma reflexa o pontual, se torna também um convite à conversão do coração e do olhar.
Em 2002, após os tràgicos acontecimentos de 11 de setembro, São João Paulo II escreveu uma mensagem corajosa, quase desconcertante para aquele tempo, sob o título: “Não há paz sem justiça, não há justiça sem perdão.”
Parecia improvável falar de paz em um mundo ferido por imagens tão violentas; mais ainda: parecia um ultraje falar de perdão em meio a tanta dor, revolta e desejo de vingança. Quando o homem sofre, quase sempre lhe parece mais natural revidar do que reconciliar, punir do que restaurar, responder ao mal com outro mal, ainda que sob aspecto de justiça.
Mas a Igreja, como mãe e mestra, não nos deixa permanecer na superfície das coisas, ela nos convida a ir mais fundo. E e justamente aí, no centro dessa provocação, que nos propõe essa virada de chave: “não há paz sem justiça”, pois o mundo, aquela época como hoje, colocava sua esperança de paz nas estratégias militares.
Não se trata, evidentemente, de uma paz superficial, entendida como mera ausência de conflito, silêncio momentâneo das armas ou estabilidade aparente; a paz de que a Igreja fala é muito mais exigente. Como recorda a Gaudium et Spes, ela é “fruto da ordem que o Divino Criador estabeleceu para a sociedade humana e que deve ser realizada pelos homens, sempre anelantes por uma mais perfeita justiça” (n. 78).
A paz, portanto, começa onde o homem volta a se reconciliar com a ordem querida por Deus. E essa ordem não é frieza, rigidez ou mera disciplina exterior; é harmonia, reconciliação. É cada coisa recolocada em seu lugar, é o homem reconciliado com Deus, consigo mesmo, com o outro e com a criação. Para o povo hebreu, reconciliar significava precisamente isso: restaurar a harmonia, o retornar o relacionamento com Deus, reparação do mundo.
Talvez por isso a paz seja, ao mesmo tempo, tão desejada e tão difícil de ser vivida, porque ela exige justiça. E justiça, em termos cristãos, nunca pode ser compreendida apenas como punição, compensação ou equilíbrio formal. A justiça é, sim, uma virtude moral e uma exigência social, mas ela só encontra seu sentido pleno quando iluminada pelo amor.
A Igreja o afirma com profundidade ao dizer: “a justiça funda-se no amor, dele promana e para ele tende” (Dives in misericordia, n. 7). Essa compreensão é uma reviravolta e um ponto de inflexão em relação a lógica do mundo, porque nos impede de reduzir a justiça a um mecanismo e nos recorda que sua fonte mais alta não está na força, nem no ressentimento, nem na vingança legitimada, mas no amor que restaura.
Assim, compreendemos que não construiremos a paz apenas com grandes discursos, estratégias geopolíticas ou projetos grandiosos de transformação social, embora tudo isso tenha sua relevância. A paz começa também nas pequenas atitudes, no nosso mundo doméstico, no escondimento, no modo como tratamos o outro, no modo como trabalhamos, como servimos, como respondemos às ofensas. No modo como escolhemos não romper a comunhão.
A Civilização do Amor, proposta por São Paulo VI, não nasce pronta nem desce acabada sobre o mundo, ela começa a ser tecida nas relações mais simples, mais cotidianas, mais ordinárias; começa quando a caridade toca a vida concreta, quando a verdade encontra a mansidão, quando a justiça deixa de ser instrumento de imposição e se torna caminho de restauração.
Por isso, o cristão não é chamado apenas a defender ideias corretas sobre paz e justiça, mas a encarná-las no tecido real das relações sociais. O Compêndio da Doutrina Social da Igreja recorda que cabe aos cristãos “anunciar e atualizar o Evangelho na complexa rede das relações sociais” (n. 62), o que nos convida a um agir concreto. A rede das relações sociais é onde a nossa vida realmente acontece: em casa, no trabalho, na comunidade, nas amizades, na cidade, nas responsabilidades que nos cercam.
É nesse ponto que a intuiçaão de Orígenes se torna especialmente luminosa: o cristão, à semelhança de Maria, torna-se portador de Cristo, deixando que Ele seja gerado no interior da própria vida e venha ao mundo por meio de gestos concretos de caridade, perdão, mansidão e serviço.
Maria é, nesse sentido, a imagem perfeita de uma justiça fecundada pela paz de Deus: após a anunciação, ela não saiu com um projeto humano de reorganização política, não partiu com um discurso, não foi aos grandes centros de poder. Não se dirigiu às montanhas da Judeia com a pretensão de resolver os conflitos da história, mas para servir. Ela apenas disse sim, acolheu o Verbo e colocou-se a caminho para servir.
E talvez aí esteja uma das respostas mais profundas para o nosso tempo: as grandes obras de Deus quase sempre começam pequenas, começam escondidas. começam sem alarde. Começam em uma casa, em uma visita, em uma disponibilidade interior, em um coração obediente.
Deus inscreveu essa lógica também na criação: os rios caudalosos que levam vida a grandes extensões de terra, muitas vezes, nascem de pequenas fontes, quase imperceptíveis, para nos ensinar que mesmo não tendo um grande projeto para mudar o mundo, podemos mudar o pequeno mundo ao nosso redor, podemos mudar a nós mesmos e isso já é muito; é assim que podemos promover a paz.
Somos convidados, então, a agir. Não a agir movidos pela ansiedade de mudar o mundo inteiro de uma vez, mas pela fidelidade de deixar o Evangelho transformar, primeiro, o espaço que nos foi confiado. Como ensina ainda o Compêndio, “Tal agir, quando respeitoso da ordem objetiva da realidade temporal e iluminado pela verdade e pela caridade, torna-se instrumento para uma atuação sempre mais plena e integral da justiça e da paz e antecipa no presente o Reino prometido” (n. 58).
“Não há paz sem justiça”, mas também não há justiça verdadeira sem caridade, sem reconciliação, sem conversão do coração; a paz que o mundo tanto procura não nascerá apenas da contenção do mal, mas do reaprendizado do bem. “Cristo, ao revelar o amor, misericórdia de Deus, exigia ao mesmo tempo dos homens que se deixassem guiar na própria vida pelo amor e pela misericórdia. Esta exigência faz parte da própria essência da mensagem messiânica e constitui a medula do ethos evangélico” (Dives in Misericordia, n. 3).
E talvez tudo comece assim: quando deixamos Cristo nascer novamente em nós e, por meio de nós, nas pequenas e grandes relações da vida, Ele volta a visitar o mundo e transformá-lo por dentro, no seu mais profundo núcleo: o coração do homem.
