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No Congresso de Jovens Shalom, Deus me chamou ao sacerdócio

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deived“A palavra é dom de Deus. Teremos de dar contas dela. É pela palavra que nos comunicamos de alma para alma, é por ela que nos ‘revelamos’. Não temos o direito de calar-nos.”

Foi por meio desta palavra que, ao caminhar em numa busca de felicidade, encontrei a vontade de Deus em minha vida. Canal? A Comunidade Shalom! Discernimento? Congresso de Jovens Shalom (CJS) de 2007, Fortaleza. Meio? A Palavra… palavras ditas por homens, palavras inspiradas por Deus, palavras dirigidas a jovens.

Comecei a andar na Igreja por volta dos oito anos de idade. O grupo de coroinhas me atraía, e por incrível que pareça, eu era a única pessoa de minha casa que ia à Igreja. Sempre achei a figura do sacerdote fascinante. Ficava imaginando o quão poderoso era aquele homem; ele tomava o pão e dizia isto é o meu corpo e já não era mais pão e, sim, Corpo de Cristo; isto é o meu Sangue e já não mais era vinho e, sim, o sangue de Cristo. Ele só podia ser um super-homem. Aquilo para mim era sublime demais. O sacerdote era quase um ser intocável e extremamente poderoso.

Cresci e entendi melhor o mistério do sacerdócio. Tirei da cabeça a ficção mas não o Mistério. Achava fantástico “o homem do altar”, mas aquilo era para todo mundo, menos para mim! O que eu queria era apenas ser feliz, ter um bom emprego, ter um futuro promissor. Ser padre? Deus me livre.

A Comunidade Shalom sempre se fez presente em minha vida desde que eu entrei no grupo de coroinhas, sendo que, íamos lá apenas quando tinha alguma festinha, dizíamos: êba, hoje tem comida no Shalom. Até que completei quinze anos e participei do Seminário de Vida no Espírito Santo na Comunidade. A partir de então, passei a me engajar. Comecei a participar da Obra, do grupo de oração; tinha um ministério…

Inicialmente meu ministério era lanchonete. No entanto, eu sentia que o Senhor me pedia algo mais. Mas o que poderia ser? Ora, eu tinha tudo o que um jovem poderia querer: estudava em uma boa escola, tinha uma namorada e com 16 anos já trabalhava de carteira assinada.

Foi então que um dia fui chamado na Comunidade e me pediram para mudar de ministério. Disseram que agora eles precisavam de mim era no Economato. Inicialmente recusei, disse que não tinha muito tempo porque trabalhava e estudava, mas depois lembrei-me de que Deus me pedia algo mais. Pensei: é isso o que Deus me pede, que eu auxilie a Comunidade no Economato.

Logo a saciedade passou, Deus queria mais ainda de mim. Mas o que era esse mais? Eu O questionava e dizia: puxa, Deus, não já tá bom? Já sou Obra, ajudo no Economato, e o Senhor ainda quer mais?

As missas para mim eram momentos sempre sublimes. No fundo do meu coração, aquele momento era muito atraente e repleto de significados que iam além de minha pobre inteligência. A figura do sacerdote me era tão atraente e ao mesmo tempo repulsiva. Não! Ser padre, não! Eu quero ser feliz de outro modo.

Até que em 2007, quando eu ainda morava em Propriá (SE), veio até mim uma missionária da Comunidade chamada Ediane, que atualmente mora em Portugal. Sabe uma daquelas criaturas loucas? Mas louca mesmo! Uma mulher de grande fé, daquelas que todo mundo olha pra situação e diz não vai dar certo e ela diz: ah, gente, vai dar certo sim, vamos rezar que a gente consegue!

Ela estava à frente do Projeto Juventude para Jesus e sugeriu que trabalhássemos para levar um ônibus de jovens para o Congresso de Jovens que haveria em Fortaleza. Eu disse que os ajudaria, no entanto não iria, pois tinha certeza de que não seria liberado de meu trabalho. Ora, meu patrão para liberar um funcionário para ir ao médico xingava até a quinta geração, quanto mais para me liberar praticamente três dias para ir a um congresso.

Começamos a trabalhar, mas o dinheiro não rendia. Então, desistimos de levar um ônibus e reduzimos para uma “topic”, mas mesmo assim o dinheiro não rendia. No mesmo final de semana em que aconteceria o Congresso, seria também o Enem e eu estava inscrito. Daí, comentei na escola com uma professora minha que se eu conseguisse a liberação de meu patrão não iria fazer o Enem, iria para um encontro de jovens em Fortaleza. Minha professora, assim que terminou a aula, foi até a orientação pedagógica e falou à orientadora que, de imediato, mandou me chamar:

– Deivide, fiquei sabendo que você não irá fazer o Enem. Por quê?

E aí eu disse:

– Bem, se meu patrão me liberar eu irei para um congresso em Fortaleza.

– Meu filho, congresso tem todos os anos, e essa é uma oportunidade ímpar em sua vida. Você é um rapaz inteligente, pode ganhar uma bolsa integral, não se esqueça de que você é de família pobre. Vai querer pagar faculdade todo mês?

Em um súbito ímpeto de vivo impulso, veio-me mais que automaticamente:

– Buscai primeiro o Reino de Deus, e tudo mais vos será acrescentado.

E eu pensei: eu disse isso?

Ela não falou mais nada. No dia seguinte, quando terminou meu horário de trabalho, chamei meu patrão e disse:

– Olhe, vai ter um congresso em Fortaleza, para jovens, eu teria que faltar na sexta, no sábado e na segunda por conta da viagem. O senhor me liberaria para que eu fosse?

E ele respondeu:

– É coisa da Igreja, é?

– Sim.

–  Tá certo!

Ora, eu não acreditei. Alguém pedia pra ir ao médico e ele chamava de sacripanta, fariseu e muito mais, e a mim, que era pra ir a um congresso, ele liberou?

Mas ainda tinha o maior problema: cadê o dinheiro para pagar a topic?

Chegou a semana de viajarmos e nada do dinheiro. Deveríamos sair na quinta-feira porque o Congresso começaria na sexta à noite. E nada do dinheiro. Daí, na quinta à noite, Ediane falou:

– Deivide, você vai trabalhar e eu vou à procura do prefeito. Se ele liberar o dinheiro, eu te ligo.

O prefeito morava em Aracaju e só vinha à cidade na sexta-feira fazer um programa na rádio. Ediane o esperou na porta da rádio e, quando ele saiu do programa, ela o “atocaiou”. E ele deu um cheque.

Mas o valor era muito baixo, não dava pra alugar uma topic. Detalhe: isso já era sexta pela manhã, e o congresso iniciava à noite.

Ediane me liga e diz que o dinheiro não dava para uma topic, que iríamos em um carro pequeno. Iríamos ela, eu e mais duas jovens da Obra.

Acertamos o carro e, às 15h, quando o carro chegou na porta da casa comunitária, o carro quebrou. Só conseguimos sair de Propriá quando já estava escurecendo. Sendo que nessa hora, o congresso já deveria estar começando em Fortaleza. Restavam-nos apenas mais ou menos 1.100 km para percorrer até chegar lá.

Viajamos a noite inteira. E eu não conseguia dormir. Quando as meninas dormiram, e o silêncio pairou no carro, vinha em minha cabeça muito forte as palavras da orientadora da escola: “congresso tem todos os anos, e essa é uma oportunidade ímpar em sua vida. Você é um rapaz inteligente, pode ganhar uma bolsa integral, não esqueça que você é de família pobre. Vai querer pagar faculdade todo mês?” E eu dizia: meu Deus, o que é que eu estou indo fazer nesse lugar?

Chegamos a Fortaleza no sábado pela manhã. Ediane, que era a única que conhecia Fortaleza, estava mais perdida do que cego em tiroteio. Quando conseguimos chegar ao Shalom da Paz, que foi onde ficamos hospedados, já era quase 11h. Fomos procurar um lugar onde comer. Daí, no congresso mesmo, só chegamos por volta de 16h, e mais uma vez eu me perguntava: o quê que eu vim fazer aqui? Poderia ter ficado e fazer o Enem.

A pregação daquele momento tinha como tema “Ousar o amor”. Ouvindo aquela pregação, eu pensava: meu Deus, o quanto ousamos para chegar até aqui. Mas estávamos tão cansados da viagem que nem conseguia raciocinar muito bem.

Sempre ouvia falar muito do Moysés. Tudo na Comunidade era ‘”ah, porque o Moysés isso, ah, o Moysés aquilo”. E eu pensava: aff, que povo mais besta. Tudo é Moysés, Moysés, que besteira.

No domingo pela manhã, seria a pregação do Moysés. Pois bem. No domingo, chegamos lá no ginásio que, se não me falha a memória, se cahamava Aécio Borba. E o tema da pregação do Moysés era “O que fazer para ser feliz”.

Puxa vida, eu, um jovem de dezesseis anos, que sempre quis a receita da felicidade, estava agora diante do dia em que poderia encontrar caminhos, indícios que me conduzissem a essa felicidade.

Daí, o Moysés começou a pregação com o Evangelho sobre o jovem rico (Mt 19,16-26).  E à medida que ele ia falando, meu coração se inquietava terrivelmente. Ali mesmo, eu começava um diálogo com Jesus. Eu dizia:

– Senhor, eu sou muito novo. Tenho apenas 16 anos. Toda uma vida pela frente. Sou muito, muito jovem mesmo. Se for de tua vontade que eu te siga de forma mais intensa, não precisa ser agora. Pode ser depois. Se for desejo Teu, Senhor, Tu podes esperar mais um pouco.

Mal eu tinha dito isto, o Moysés fala:

– Jovem, preste bem atenção no que eu vou te dizer: a única coisa, repito, a única coisa que tu tens para ofertar a Jesus, o bem mais precioso que tu tens para ofertar a Jesus, é a tua juventude!

Meu Deus! Como pode? Comigo não! Agora não! Aquelas palavras eram para mim, naquele momento, um tapa terrível com luva de pelica. À medida que Moysés ia falando, era como se a vontade de Deus fosse sendo revelada em minha vida de forma muito clara. Era como se aquelas palavras fossem para mim. Como se não tivesse mais ninguém naquele ginásio, naquela manhã. Era um diálogo entre mim e Deus.

E daí, era como se Deus dissesse: tá vendo, seu besta. Agora entendes o que você veio fazer aqui? Tive que te trazer de tão longe, para falar ao teu coração, coisas que já tinha te dito e não quisestes escutar.

E terminado o momento de pregação, Moysés pediu que os jovens que naquela manhã quisessem ofertar sua vida a Jesus fossem até lá na frente e ficassem de joelhos. Mesmo depois de ter ouvido tudo aquilo, era uma briga terrível de meu coração com a razão, porque o coração dizia: vá, entregue-se por inteiro ao Senhor. E a razão dizia: não vá, não vá, é um caminho sem volta. E todos os teus projetos, teus sonhos, teus ideais?

Mais uma vez, Ediane entra na história. Ela me sai de onde ela estava e vem até mim e diz:

– Deivide Marcklai, você não vai até lá?

Aff, que coisa… levantei e fui… e, naquele momento, eu me entregava a Deus. E dizia do fundo do meu coração: Senhor, que Seja feita a Tua vontade em minha vida!

Então, veio uma mulher, que nem faço ideia até hoje de quem seja, e começou a rezar por mim. Lá pelas tantas, essa mulher diz que eu não tivesse dúvidas de que o Senhor me chamava ao sacerdócio. Bastava que eu me entregasse por inteiro nas mãos Dele, que o resto ele faria.

Era um misto de agonia e êxtase em meu coração. Sim, porque era belo demais aquilo que me era dito, fazia sentido ao olhar mesmo que brevemente para minha história, mas ao mesmo tempo, era desafiador.

Terminando o congresso, retornei para casa e procurei o promotor vocacional de minha Diocese. Mas não pensei que Deus fosse ter tanta pressa em minha vida. Já era final de agosto ou setembro. Imaginem só que no dia 11 de fevereiro do ano seguinte (2008), no dia da Festa da Virgem de Lourdes eu ingressava no Seminário. Hoje estou no último período do Seminário, e conto com a oração de vocês para que eu possa ser um sacerdote santo!

Antigamente, quando falavam do Moysés eu dizia: Aff… Moysés. Hoje quando falam eu digo: Ah, sim, o Moysés!

Louvo e bendigo a Deus pelo “sim” deste homem que, quando jovem, ofertou seu bem mais precioso: sua juventude. Sacrificou-se por causa de um bem maior. Um sim fecundo que se espalhou pelo mundo com o nome de Comunidade Católica Shalom. Quantas vidas transformadas, quantas famílias edificadas. Quantos jovens felizes. Tudo por causa do “sim” de um jovem.

Agradeço sempre a Deus pelo dom que é a Comunidade Shalom. Pelo dom que é a oferta de vida de tantos jovens, agradeço a Deus de modo especial pela vida de duas missionárias da Comunidade que marcaram minha vocação: Ediane e Germana! Que o Senhor as abençoe sempre mais! Bendito seja Deus pelo dom da vocação Shalom! O Shalom faz parte da minha história!

E a você, jovem, que tem a oportunidade de participar do Congresso de Jovens Shalom, não deixe de ir. Não deixe que essa graça passe por ti sem que tu tenhas bebido dessa fonte que jorra Água Viva para tantos jovens. Lá, com certeza, você terá um encontro com a verdadeira Felicidade: Jesus Cristo!

 Deivide Marcklai, seminarista da Diocese de Propriá

.: Acesse as informações sobre o CJS 2015 aqui

 


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