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No Natal entre o velho e o Novo

No Natal entre o velho e o Novo

Estamosàs vésperas de mais um Natal, festa que foi transformada pouco a poucoem mero período para esquentar vendas no comércio e oportunidade parase fazer atos de solidariedade, que não poucas vezes, funcionam comodesencargo de consciência frente aos inúmeros omitidos nos últimos onzemeses.


Poreste período a cor da vez é o vermelho e um personagem surge de todosos lugares, espelha nas vitrines, é dependurado como enfeite, éatrelado às guirlandas nas portas e mesmo sob um sol inclemente, como odo Nordeste, desafia-o com suas roupas polares contra o frio e chegainclusive a receber as chaves de cidades. Trata-se do bom velhinho debarbas brancas e longa que se tornou o símbolo oficial da grande festado dia 25.


Ocândido velhinho recebera suas vestes vermelhas e brancas adicionado deum gorro no final do século XIX, graças a uma peça publicitária demarca de refrigerante mundial e de lá para cá só conseguiu angariarsimpatia. Aos poucos escanteou o verdadeiro sentido de uma festa tãobela e de significado profundo. Noel tornou-se representante de umNatal deformado e anemizado.


Costuma-secolocar como substrato do personagem a figura de são Nicolau, bispo,que viveu no início do Cristianismo, mas de há muito tempodistanciou-se Papai-Noel de nosso santo.


Entanto,no Natal trava-se uma verdadeira batalha, não diferente daquela lutadescrita por São Paulo para designar a batalha entre o velho e o Novo.De um lado temos o velho, que se nos apresenta na figura singela dodoce Noel; do outro temos Jesus Menino, Homem-Deus, o Novo, a salvaçãopara o mundo. O primeiro nos rouba de contemplar o segundo, apontasomente para as coisas da terra, apregoeiro contumaz do materialismo.


Amentalidade desta época incute já nas mentes infantes que só merecepresente quem tiver sido bom menino ao longo do ano, mentalidadeimpiedosa interpretada pelos adultos e assumida como máxima em seusrelacionamentos que prodigaliza de bens exclusivamente os seus pares.Não há mais lugar para o perdão e para o acolhimento do fraco, paraquem pensa dentro dos rígidos parâmetros desta concepção.


Emcontrapartida ao velho, carinhosa e perigosamente chamado de velhinho,desponta o Novo, o Sol nascente ‘que há de iluminar os que jazem nastrevas’[1].Este aponta para o céu, pois dele veio, na verdade nele está o própriocéu. Por sua encarnação assumiu nossa humanidade em tudo, com exceçãodo pecado. Quer nos indicar o caminho da pequenez quando procuramos àaltivez; por sua total dependência à vontade do Pai nos ensina a felizdependência a que todos somos convidados a viver.


Enquantoo velho sugere simplesmente receber, como gesto de satisfação o Novonos abaliza a senda do doar-se, única capaz de nos levar à perfeitafelicidade, desejo de todo homem; O velho alça vôo em sua carruagemesplendente enquanto o Novo toca a terra com sua pobreza salvífica; Oancião epulão que remete a uma vida de mandriice incentiva a todos,através de sua milícia vista à exaustão nas lojas, esquinas ecomerciais de TV a enfiarem-se nas compras dos mais diversos produtos,afinal não precisa pagar agora, já o Menino Deus, abandonado nas mãosde José e Maria testemunha a providência divina que cuida daqueles quese fazem como criança e que esperam tudo d seu beneplácito.


Naescuridão da noite desce às escondidas pelos telhados e chaminés ovelho barbado, enquanto que o Novo pretende declinar-Se às profundezasdo coração do homem, endurecido pelo egoísmo, individualismo erelativismo. Um tanto de gente é tragada pelo pensamento artificiosoque reduz o Natal a uma mera festa pagã, cujo verdadeiro significado éestilhaçado anualmente.

Nestabatalha vence o homem orante, que através desta postura conseguediscernir o que é velho e o que é Novo dentro de si. Este homemcompreende a necessidade de contemplar a encarnação do Verbo paraentender a si próprio e compreender o imenso amor de um Deus que se fezhomem e se encarnou no seio de uma Virgem, Nossa Senhora.


Enquantoo velhinho embrenha-se numa terra gelada, subtraída de luz, o MeninoDeus resplandece glorioso dissipando e acalmando a mais violenta dasintempéries, transformando a pior condição de inverno que possaencontrar nossa alma em alvorecer de um novo dia assim como Ele mesmo ofoi para a humanidade que permanecia na morte.


Nahistória do Menino Jesus lemos que Herodes, cujo mausoléu foiencontrado neste ano, ao ter notícia de seu nascimento buscou matá-lo.O velho encheu-se de medo de um Menino e a única saída encontrada foi oextermínio deste, não poupando inclusive de dizimar milhares deinocentes para saciar seu desejo mórbido de apagar da história Aqueledo qual asseveravam os profetas era o Rei, o messias esperado.


Ovelho Noel parece persistir na mesma intenção do velho Herodes e aperseguição ao Menino, que é o Novo de Deus, a nossa própria salvaçãointensifica-se. Cabe aos cristãos resistir, primeiro pela oração, pelacontemplação do mistério da Encaranação que revela o imenso amor dedeus por cada um de nós.


Emsegundo lugar se nos é exigido uma consciência critica e cara acercadas realidades que nos cercam e não poucas vezes tentam nos roubar doessencial. Não deixemos que o velho neste Natal nos impeça de ver onovo; Não permitemos que o receber sobreponha-se ao doar-se e que oclima frio e artificial sufoque a Luz e a naturalidade própria do Nataldo Senhor, o Novo.

 

 

Vanderlúcio Souza


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