Existe uma oficina silenciosa no peito humano onde, por natureza, somos todos artesãos da nossa própria história. O problema, contudo, não é a nossa capacidade de criar, mas o alvo do nosso engenho. O salmista, com a melancolia de quem observa uma obra-prima ser desfigurada, já alertava: trocamos a Glória Incriada, o Artista de todas as coisas, pela imagem de um boi que come feno. Há uma amargura profunda nessa permuta. O homem, talhado para as alturas do sublime, contenta-se em esculpir o efêmero, perdendo-se na palha seca das agitações mundanas.
Esta é a tragédia da alma que sucumbe à azáfama e à preguiça espiritual, personificada na figura bíblica de Jeroboão. Ele não surge como um vilão movido pelo ódio, mas como um arquiteto da conveniência. “Não subais mais a Jerusalém!”, proclamou ele ao povo. “É longe demais, é exaustivo demais”. Sob o pretexto de poupar o povo da fadiga, Jeroboão ergueu bezerros em Betel e em Dã. Ele não queria que o povo deixasse de adorar; ele apenas queria que o povo não tivesse o trabalho de caminhar. Ofereceu o ouro que não exige conversão para ocultar o Templo que exige a entrega do eu. Quantas vezes agimos como Jeroboão em nossa vida moderna? Por medo da disciplina que a virtude demanda, fabricamos “deuses” que cabem na nossa agenda e no nosso conforto. Batizamos o nosso barulho diário de “dever”, mas, frequentemente, ele é apenas o ruído que usamos para abafar o cinzel de Deus, esculpindo o nosso orgulho.
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Diz a Escritura que o rei apóstata “refletiu bem”, mas sua reflexão foi um cálculo de terra, não de céu. Ele instituiu o que era fácil e santificou o que era comum. É a arte do menor esforço, onde o homem consagra a si mesmo em altares de vaidade. Contrastai, porém, essa facilidade mortífera com a multidão que seguiu o Cristo. Ali não havia o ouro estático de Betel, nem a política da pressa. Aquela multidão é o verdadeiro modelo de uma alma disposta: permaneceram três dias no ermo, suportando o sol e a carência. Elas não buscaram o atalho, pois sabiam que a beleza reside na fidelidade da presença. Jesus, movido por misericórdia, não lhes dá o “feno” das ilusões, mas o Pão da Perseverança. Ao perguntar “Quantos pães tendes?”, Ele revela que não pede sinfonias prontas; pede a nossa pequena matéria-prima, o pouco que guardamos por falsa prudência.
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Se os discípulos tivessem cedido à pressa de despedir o povo, o milagre teria morrido na intenção. Onde a agitação do mundo grita “não há tempo”, a alma que espera responde entregando os seus “sete pães”. Não sejamos como a casa de Jeroboão, que buscou o brilho fácil da conveniência e colheu o extermínio. Que a nossa alma não se contente com glórias passageiras e desculpas que escondem a negligência. Se o caminho até o Templo é longo e a subida é íngreme, que a nossa alegria seja, precisamente, a de caminhar. No fim das contas, tudo que não foi amado se perderá com o vento, mas tudo que foi entregue com amor, permanecerá na eternidade.
Que não troquemos a majestade de Jerusalém pelo repouso enganoso dos bezerros que nós mesmos forjamos ou por uma chuva passageira de verão.
Adney Pinheiro
