Formação

O Batismo do Espírito No Novo Testamento

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“No Antigo testamento, fala-se do Espírito Santo como sendo o sopro de Deus que cria e dá vida, que pousa sobre certas pessoas, investindo-as da Sua força e dotando-as de poderes extraordinários para combater, governar ou profetizar. mas é tão somente com os Profetas, notadamente Jeremias e Ezequiel, que se passa desta perspectiva exterior e pública da ação do Espírito para uma perspectiva interior e pessoal, na qual o Espírito Santo é visto a agir no coração de cada um, como princípio de renovação interior que o tornará capaz de observar fielmente a Lei de Deus, tornando-se princípio de uma Nova Aliança e de uma vida nova. O texto mais claro desta nova orientação é precisamente o de Ezequiel 37,1-14″(Raniero Cantalamessa – A vida sob o senhorio de Cristo, p.138).

Vejamos então alguns pontos do Novo Testamento onde reside a grande novidade do Espírito, trazida por Cristo e pelo evento da Nova Aliança. O ponto de entrada no Novo testamento é o próprio termo “Batismo no Espírito Santo”. Ele aparece oito vezes no Novo Testamento. Destes, quatro são a promessa de João Batista, de que Aquele que virá após ele batizará no Espírito Santo (Mc 1,8; Mt 3,11; Lc 3,16 e Jo 1,33).

1. Evangelho de Marcos

1.1 Unção com Poder
Segundo Marcos, o Espírito Santo não é simplesmente algo que Jesus recebe, mas algo pelo qual age sobre os outros ou comunica-lhes. Assim, devemos olhar para além do batismo, na direção do ministério público de Jesus. Esse parece ser o modo como o evangelista compreende Jesus como batizador no Espírito Santo: um ministério carismático de cura e libertação, seja das manifestações satânicas dos espíritos malignos, seja da resistência dos inimigos, ou até dos Apóstolos. E em seguida devemos observar a atitude de Jesus ao nomear seus discípulos para pregar e libertar. Assim, todo o ministério do Espírito após Jesus deve ser cumprido apenas em seu nome. Desse modo, Marcos vê o batismo do próprio Jesus no Espírito Santo não apenas como proclamação da filiação divina, mas também como uma unção com o divino poder, que Jesus exercita por meio de curas e libertações, feitos por Ele mesmo, ou por seus discípulos.

1.2 Batismo da Paixão
No entanto, existe uma sutil mudança na compreensão do evangelista referente ao sentido do batismo de Jesus, e isso acontece na parte subsequente do Evangelho que trata do escândalo da Cruz. Ao pedido de Tiago e João de poderem sentar-se à Sua direita e à Sua esquerda no reino, Jesus responde: “Não sabeis o que estais pedindo. Podeis beber o cálice que eu vou beber e ser batizados com o batismo com que serei batizado?…Do cálice que eu beber, vós bebereis, e com o batismo com que eu for batizado, sereis batizados”(Mc 10,38-39). O cálice é uma clara referência à paixão, que Jesus na agonia chama de cálice (Mc 14,36). E outra coisa podemos observar: Jesus chama Sua paixão de “batismo”. O batismo no Espírito de Jesus não é simplesmente receber poderes para curar e exorcisar os maus espíritos; é também uma unção que o torna o Servo, que dá sua vida para a Salvação de muitos. Marcos deseja que sua comunidade, ameaçada com a possibilidade do martírio, conheça ambas as dimensões da vida levada pelo Espírito: o ministério de poder, mas também o ministério de fidelidade até a morte. Naturalmente, não é necessário admitir que o versículo 39 refira-se ao martírio real de Tiago e João, pois o sofrimento apostólico por si só seria suficiente para partilhar do cálice e do batismo de Jesus. João, ao contrário de Tiago (Atos 12,2) não sofreu o martírio, mas aqui se confirma a direção estabelecida através de Marcos em relação ao batismo de Jesus no Espírito: é uma unção para o martírio. Aceitar o batismo é dar o passo que pode levar ao martírio.

2. Evangelho de Mateus

2.1 Doação para um Ministério
Em Mt 11,2-6 quando João envia seus discípulos para perguntarem a Jesus se Ele era “aquele que estava para vir ou devemos esperar outro?” Jesus responde apontando para o seu ministério. Este acontecimento mostra em que sentido Jesus batiza com o Espírito Santo. O Espírito Santo sobre Jesus significa um ministério carismático e humanamente orientado. Mateus 12,15-21 conta que Jesus havia curado todos os que o seguiam, ordenando-lhes que não o tornassem conhecido, mas apresenta Jesus como aquele a quem se refere a profecia de Isaías 42,1-2: “…pus sobre ele o meu Espírito…”. Marcos ressalta a atividade carismática de Jesus como prova de que ele está dotado do Espírito de Deus.

2.2 Um Ministério Arraigado Em Jesus
Na introdução ao seu discurso missionário de Jesus, o qual Mateus indica como um programa para a Igreja de sua época, Jesus ordena aos seus discípulos: “curai os doentes…expulsai os demônios”(Mt 10,1-8). Sua preocupação não é a de reprimir a atividade carismática, mas de arraigá-la em Jesus e de regulá-la de acordo com os ensinamentos de Jesus.

3. Evangelho de Lucas
Nenhum outro autor do Novo Testamento dá tanta atenção ao Espírito Santo. Enquanto o termo “Espírito Santo” ocorre apenas quatro ou cinco vezes em Marcos e Mateus, ele aparece treze vezes no Evangelho segundo Lucas e quarenta vezes em Atos. E é Atos que devemos a promessa específica: “sereis batizados com o Espírito Santo”(1,5).

– Com Fogo –
LUCAS 3,16; Lucas 12,49-50: Como Mateus, transcreve a promessa do Batista de que o que viria após si batizaria com o Espírito Santo e com fogo. Mas é sobretudo em Lucas que a imagem do fogo está ligada à paixão batismal: “Eu vim trazer fogo à terra, e como desejaria que já estivesse aceso! Devo receber um batismo, e como me angustia até que esteja consumado”. O fogo do Espírito Santo que Jesus derramará sobre a terra é possível porque, primeiro ele toma sobre si o fogo do julgamento que pesava sobre a humanidade.
– Em Oração
LUCAS 3,21. Existe uma característica única no relato de Lucas sobre o batismo de Jesus por João: O Espírito vem sobre Jesus não quando ele sai da água, mas expressamente no momento em que Jesus se achava em oração. Esta pode ser a primeira das conexões que Lucas faz entre o Espírito Santo e a oração de Jesus.
– Unção para Evangelizar, para Proclamar cura Libertação
LUCAS 4,18-19: Jesus recebera, em seu batismo, uma nova manifestação do Espírito Santo sobre ele desde sua concepção, que o capacita para seu ministério com carismas proféticos e de cura.
– Sujeição ao Espírito e Capacidade Vinda do Espírito
LUCAS 4,1-2; Lc 4,14; Lc 10 21: o Espírito conduz Jesus ao deserto para o confronto com Satã, o traz à Galiléia para o começo do seu ministério, e inspira a prece de Jesus: “Naquele momento, ele exultou de alegria sob a ação do Espírito Santo e disse…”
– Uma Graça que se repete
LUCAS 11,13: Mesmo para a comunidade primitiva, o fato de o Espírito tê-los preenchido uma vez não impede outras “plenificações”. E, para tais experiências, basta repetir a oração.

3.2 Atos dos Apóstolos

Atos 1,4-5: lembrar a promessa de Lc 3,16: Lucas se destaca ao colocar a promessa do Batismo no Espírito Santo nos lábios do próprio Jesus. Lembrar também a promessa de Lucas 24,49.
Atos 2,1-6: Ao relatar as línguas de fogo em Pentecostes, percebemos como Lucas vê o acontecimento de Pentecostes como o cumprimento pleno da profecia de João Batista. O “fogo” de Lc 3,16 torna-se o fogo de At 2,3.
Atos 2,37-39: Pedro está a responder as questões, mostrando às pessoas como podem experimentar o que os apóstolos receberam.
Atos 2,42: Na descrição de Lucas, da primeira comunidade plenificada com o Espírito Santo, a fidelidade ao ensino dos apóstolos aparece em primeiro lugar.
Atos 4,23-31: Relata a vinda do Espírito Santo como resposta à oração. Já no seu Evangelho, Lucas narra que Jesus promete que o Espírito Santo será concedido aos que pedem por seu dom. Aqui, de modo significativo, a comunidade ora por dons de cura, sinais e maravilhas a serem operados em nome de Jesus. O estremecimento da casa parece ser usado como eco do primeiro Pentecostes, como se vê na expressão “E todos ficaram repletos do Espírito Santo”(At 2,4).

4. São Paulo e a Carta aos Hebreus

4.1 Um Corpo, um Espírito
I Cor 12,13. O Espírito Santo aqui é obviamente carismático, pois mostra a fonte única dos Carismas. E o tema da unidade é reforçado pela expressão: “Batizados para ser um só corpo”. O corpo, no qual o cristão é Batizado, é o corpo do Senhor. Este corpo é fonte do Espírito, cujos dons são distribuídos para a construção do corpo de Cristo, a comunidade cristã. O batismo, unindo o homem ao Senhor, o coloca em contato com o Espírito Santo, que é fonte comum dos diversos carismas.

4.2 A Experiência do Espírito
Gál 3,1-5. Este texto mostra a dimensão tanto carismática como experiencial do Espírito Santo. A presença e a atividade carismática do Espírito Santo era tão garantida para Paulo como o direito de primogenitura dos cristãos que ele usa na experiência dos Gálatas, como argumento para a superioridade da fé cristã sobre a Lei.

4.3 Ungido e Selados
II Cor 1,21-22. É esse ato passado de ungir, selar e colocar o “penhor do Espírito” que é a base da presente promessa que Deus dá a Salvação com e em Cristo.

4.4 Batizados na Morte de Cristo
Rom 6,1-5. Paulo enraíza sua exortação sobre o rompimento com o pecado, no sentido do batismo, que é participação na morte e Ressurreição de Cristo. E deixa claro que o corpo do Senhor Ressuscitado possui o Espírito em sua plenitude para ser dado à Igreja. Assim, o efeito do batismo no corpo Ressuscitado de Jesus é beber do Espírito que dele sai.

4.5 A Ação Renovadora do Espírito
Tt 3,4-7. ( Embora o autor de Tito possa não ter sido Paulo, ele certamente tenciona escrever em nome do Apóstolo, por isto a colocamos entre os escritos de Paulo). Como um artista restaura cuidadosamente uma obra de arte desbotada ou danificada, o Espírito Santo opera no cristão até que a divina imagem seja restaurada (Ver II Cor 3,18). A renovação pelo Espírito Santo “equivale à operação contínua do Espírito Santo subsequente à experiência inicial de conversão”(Ervin, Conversion-Initiation, 128).

4.6 O Dom e os Poderes
Hb 6,1-5 e Hb 2,4
Há pouca dúvida de que as palavras dons e poderes signifiquem aqui as obras maravilhosas que o Espírito concede que o cristão realize em nome de Jesus, como antecipações do reino futuro, como aconteceu no ministério de Jesus.

5. I PEDRO – Santidicação, Carismas e Serviço
Esta carta é destinada às províncias romanas que, naquele tempo, cobriam quase toda a Turquia moderna. É evidente que se pretendia que fosse uma carta circular para um público cristão o mais amplo possível. A partir deste documento da comunidade romana do último terço do século I, pode-se refletir sobre o papel santificador do Espírito Santo, e sobre o papel de cada cristão, que sob a ação do Espírito Santo, se torna dispenseiro das inúmeras graças de Deus. Os carismas recebidos envolvem os dons da palavra e os dons do serviço. Eles não são meros talentos, mas existem para serem exercitados sob o divino impulso, no amor e no serviço mútuo.

6. Evangelho de João

– Espírito Doador de Vida e Regenerador
O foco em João parece estar mais inteiramente sobre a morte e Ressurreição de Jesus como fonte do Espírito . Todos os sinais que Jesus opera apontam para aquele grande evento. Os sinais (milagres) são usados para revelar a pessoa de Jesus. Mas o que João nega aos sinais dá prodigamente no momento da glorificação de Jesus.

O Espírito Santo, doador de vida, prometido em Jo 4,10 e Jo 7,39 é simbólica e profeticamente aspirado quando Jesus morre na Cruz (Jo 19,30). E a água, saindo do lado de Jesus, é o cumprimento simbólico da promessa que dele sairiam “rios de água viva”, outro símbolo do Espírito Santo. Após a ressurreição, Jesus sopra sobre seus discípulos e diz, “Recebei o Espírito Santo” (Jo 20,22). É o que tem sido chamado de Pentecostes Joanino.

– O Espírito é Prometidos a Todos as Cristãos
O sopro de Jesus sobre os seus discípulos anuncia uma nova criação que diz respeito aos discípulos não apenas enquanto os doze, mas sim como símbolo de todos os discípulos. “A presente cena serve como batismo dos discípulos imediatos de Jesus e como penhor da divina paternidade a todos os crentes do futuro, representados pelos discípulos”(John Brown, The Gospel Acording to John, p.1037)

– Carismas em João
À primeira vista, pode parecer que a dimensão carismática da vida do Espírito esteja silenciada em João, mas isto não é verdade. Embora a maneira de descrever a vida impulsionada pelo Espírito possa ser diferente em João, a natureza carismática dela está claramente presente. Basta se ver Jo 4,19;4,44;6,14;7,40;14,12.

6.2 Epístolas:
As Epístolas joaninas afirmam que cada cristão foi ungido para julgar a verdade ou erro do ensino dos mestres exteriores à comunidade. Assim, o autor apela para a unção interior que capacita os autênticos discípulos a identificar a autenticidade dos ensinos. A unção interior é a que é dada pelo Espírito Santo.

6.3 Livro do Apocalipse:
Dá-se uma maior ênfase na dimensão profética da ação do Espírito no livro do Apocalipse. A obra é toda chamada de profecia 9 Ap 22,18-19); nela, o Espírito fala às Igrejas (2,7.11.17.29; 3,6.13.22). Embora seja discutível sua autoria, o Apocalipse tem muito da simbologia do Evangelho. A água viva simbolizada e já experimentada no batismo torna-se a recompensa eterna dos vencedores (Ap 21,6-7;22,17). É o rio da vida que sai do trono de deus e do Cordeiro para a cura das nações (Ap 22,1-2).


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