O documento de Aparecida, fruto da V Conferência do Episcopado latino-americano e caribenho, marcará indubitavelmente a história da Igreja em nossos países. Sua proposta é uma retomada das exigências do evangelho na ótica do discipulado e da missão. Estes são dois aspectos inseparáveis da vocvação cristã. Perpassa todo o documento a temática existencial do encontro com Cristo, fazendo eco ao ensinamento do papa João Paulo II, que, desde a encíclica "Redemptor Hominis", programática de seu pontificado, até os últimos ensinamentos de seu magistério, colocou Jesus Cristo, revelação do mistério da Trindade e revelação do mistério do ser humano, no centro de sua pregação.
O discipulado é uma experiência nunca completada no tempo da história. É um caminho, uma caminhada nas pegadas do mestre. O Mestre é "o caminho, a verdade e a vida". O primeiro encontro é uma descoberta que muda os rumos da vida da pessoa e lhe dá um sentido novo(Jo 1,39). A existência passa a se caracterizar por um intenso desejo de conhecer o Senhor e de sempre mais se envolver com Ele, deixando-se tomar pelo dinamismo de sua mensagem pela poderosa atuação de seu Espírito. Inaugura-se uma amizade, preciosíssima pérola, de permanente troca, onde as riquezas inesgotáveis da interioridade do Senhor, como de uma fonte, se trasfundem para a interioridade e para a vida do discípulo( Jo 15,15). Mas não se é discípulo sozinho. Assim como o Senhor se revelou sedento de se comunicar e partilhar seu mistério, sua vida com o Pai no Espírito, o discípulo agraciado por tão imenso dom, descobre a alegria de repartir com outros a riqueza recebida(Jo 15,12). Quando nasce o discípulo, nasce já o missionário.
Quanto mais se intensifica a amizade com o Senhor mais profunda se torna a necessidade de revelar aos outros a razão de tanta alegriaJo 4,29). A felicidade dos discípulos só é plena na comunhão fraterna e no serviço humilde aos irmãos(Jo 13,12-17). Quando não se busca partilhar com outros o dom da amizade de Cristo, não se desfruta de sua alegria. O termômetro que mede o calor do encontro com Cristo é a comunhão fraterna(Jo 13,35). É claro que o discipulado é um processo jamais acabado no tempo da história. Por isso também a comunhão fraterna, na comunidade, é processo. Os conflitos, inevitáveis na presente condição, se tornam apelos a um crescimento maior. E, quando nossa humana fragilidade ferir o amor, resta o recurso à divina misericórdia e a decisão de pedir perdão a Deus, aos irmãos e irmãs, e também a generosidade de perdoar assim como Ele nos perdoa(Mt 18,21-35).
As comunidades cristãs, espalhadas por toda a parte no coração de nossas cidades, poderão ser o fermento de um mundo novo, feito de justiça, verdade e amor, um mundo em que a paz é constantemente construída. As paróquias se organizarão como redes de comunidades menores e de grupos e serão animadas pela espiritualidade de comunhão (Doc. Aparecida 170ss). Estas comunidades e esses grupos de discípulos serão animados por forte espírito missionário que fará com que seus membros se façam presentes a trodas as pessoas do entorno, uma presença de solidariedade que os fará próximos de todos, sobretudo dos mais necessitados do amor e da palvra de Deus.
A Igreja é chamada a uma profunda e permanente conversão: tornar-se uma Igreja discípula-missionária. Essa conversão é fruto da fé que acolhe a luz e o impulso do Espírito e transforma o coração, os pensamentos e as atitudes, das pessoas. È a força dessa conversão pessoal, alimentada pela Palavra de Deus e e sustentada pela Eucaristia, que levará necessariamente à "Conversão Pastoral", assim descrita pelo documento: "a conversão pessoal desperta a capacidade de submeter tudo ao serviço da instauração do reino da vida. Os bispos, presbíteros e diáconos permanentes, consagrados e consagradas, leigos e leigas, são chamados a assumir atitude de permanente conversão pastoral, que implica escutar com atenção e discernir ‘o que o Espírito está dizendo às Igrejas'(Ap 2,29) através dos sinais dos tempos em que Deus se manifesta"(N. 366). É Hora. Acorda, Igreja!
*Dom Eduardo Benes de Sales Rodrigues, 66, é Arcebispo de Sorocaba (SP)
Fonte: CNBB