Papa Bento XVI
Como comunicar a beleza do Matrimônio aos homens e as mulheres do nosso tempo? O que a graça sacramental dos esposos pode oferecer à nossa vida de sacerdotes?
Duas grandes perguntas! A primeira é: como comunicar aos homens de hoje a beleza do matrimônio? Vemos como muitos jovens casam tarde na igreja, porque têm receio do que é definitivo: aliás, adiam até o casamento civil. Hoje, o que é definitivo para muitos jovens, e também aos menos jovens, parece um vínculo contra a liberdade. E o seu primeiro desejo é a liberdade. Têm medo que no final não dê certo. Vêem muitos matrimônios fracassados e têm receio que esta forma jurídica, como eles a sentem, seja um peso exterior que extingue o amor.
É preciso fazer compreender que não se trata de um vínculo jurídico, de um peso que se realiza com o matrimônio. Ao contrário, a profundidade e a beleza estão precisamente naquilo que é definitivo. Só assim ele pode fazer maturar o amor em toda a sua beleza. Mas, como comunicar isto? Parece-me um problema comum a todos nós.
Para mim, Valência (Encontro Mundial das Famílias) foi um momento importante não só quando falei sobre isso, mas quando se apresentaram diante de mim várias famílias com mais ou menos crianças; algumas famílias eram quase uma “paróquia”, com tantos filhos! A presença, o testemunho destas famílias foi verdadeiramente mais forte do que todas as palavras. Elas apresentaram antes de tudo a riqueza da sua experiência familiar: como uma família tão grande se torna realmente uma riqueza cultural, oportunidade de educação de uns e outros, possibilidade de fazer conviver juntas as diversas expressões da cultura de hoje, o doar-se, o ajudar-se também no sofrimento, etc. Mas foi importante também o testemunho das crises que sofreram. Um destes casais tinha quase chegado ao divórcio. Explicaram como conseguiram aprender a viver esta crise, este sofrimento da alteridade do outro, e aceitar-se de novo. Precisamente na superação do momento da crise, da vontade de se separar, cresceu uma nova dimensão do amor e abriu-se uma porta para uma nova dimensão da vida, que só vencendo o sofrimento da crise se podia reabrir.
Isto parece-me muito importante. Hoje chega-se à crise no momento em que se vê a diversidade dos temperamentos, a dificuldade de se suportar todos os dias, durante toda a vida. No fim, decide-se: separemo-nos. Compreendemos precisamente destes testemunhos que na crise, no superar o momento em que parece que não se suporta mais, na realidade abrem-se novas portas e uma nova beleza do amor. Uma beleza feita só de harmonia não é uma verdadeira beleza. Falta algo, torna-se deficitária. A verdadeira beleza precisa também do contraste. O obscuro e o luminoso completam-se. Até as uvas, para amadurecer precisam não só do sol, mas também da chuva, não só do dia mas também da noite.
Nós mesmos, sacerdotes, quer jovens quer adultos, devemos aprender a necessidade do sofrimento, da crise. Devemos suportar, transcender este sofrimento. Só assim, a vida torna-se rica. Para mim tem um valor simbólico o fato de que o Senhor tenha eternamente os estigmas. Expressão da atrocidade do sofrimento e da morte, agora elas são selos da vitória de Cristo, de toda a beleza da sua vitória e do seu amor por nós. Devemos aceitar, quer como sacerdotes quer como esposos, a necessidade de suportar a crise da alteridade, do outro, a crise na qual parece que não se possa continuar a estar juntos. Os esposos devem aprender a caminhar juntos, a amar-se de novo, num amor muito mais profundo, muito mais verdadeiro. Assim, num caminho longo, com os seus sofrimentos, o amor amadurece realmente.
Parece-me que nós, sacerdotes, podemos também aprender dos esposos, precisamente dos seus sofrimentos e dos seus sacrifícios. Muitas vezes pensamos que só o celibato já é um sacrifício. Mas, conhecendo os sacrifícios das pessoas casadas pensamos nos seus filhos, nos problemas que surgem, nos receios, nos sofrimentos, nas doenças, nas rebeldias, e também nos problemas dos primeiros anos, quando as noites transcorrem quase sempre sem dormir por causa do choro dos filhos pequeninos, devemos aprender deles, dos seus sacrifícios, o nosso sacrifício. E ao mesmo tempo aprender que é belo maturar nos sacrifícios e, desta forma, trabalhar pela salvação dos outros. O Senhor, justamente, citou o Concílio, que afirma que o matrimônio é um Sacramento para a salvação dos outros: antes de tudo, para a salvação do outro, do esposo, da esposa, mas também das crianças, dos filhos, e por fim de toda a comunidade. Assim, também o sacerdote matura ao encontrar-se.
Então penso que devemos envolver as famílias. As festas da família parecem-me muito importantes. Por ocasião das festas seria bom que sobressaísse a família, a beleza das famílias. Também os testemunhos mesmo que pareçam talvez demasiado em voga em certas ocasiões podem realmente ser um anúncio, uma ajuda para todos nós.
Para concluir, é para mim muito importante que na Carta de São Paulo aos Efésios, as núpcias de Deus com a humanidade através da encarnação do Senhor, se realizem na Cruz, na qual nasce uma nova humanidade, a Igreja. O matrimônio cristão nasce precisamente nestas núpcias divinas. É, como diz São Paulo, a concretização sacramental do que acontece neste grande Mistério. Assim, devemos aprender sempre de novo este vínculo entre Cruz e Ressurreição, entre Cruz e beleza da Redenção, e inserir-nos neste sacramento.
Peçamos ao Senhor para que nos ajude a anunciar bem este Mistério, e viver este Mistério, a aprender dos esposos como eles o vivem, a ajudar-nos a viver a Cruz, a fim de chegar também aos momentos da alegria e da Ressurreição.
Revista Shalom Maná – Ed. Shalom