Olhar para minha história é contemplar que Deus estava lá o tempo todo me chamando sem eu perceber para algo que eu nunca imaginaria ser. Desde a minha infância eu já nutria um desejo de servir e estar envolvida na vida paroquial. Eu amava passar meus finais de semana inteiros na Paróquia, servindo e me doando sem medidas ou reservas.
Experiência marcante com o Amor de Deus
Aos 17 anos tive minha primeira experiência com o amor de Deus através de uma amiga, que rezou por mim e clamou o Batismo no Espírito Santo. Pouco depois fui para o grupo de oração. Mesmo sendo tão nova, comecei a assumir algumas lideranças na Paróquia e me lancei na oferta da minha juventude. Eu me sentia plenamente feliz e realizada. Aquele era o meu mundo.
O despertar vocacional
Ainda sem entender muito bem sobre chamado ou vocação, me inquietava a vida das irmãs do convento ao lado da Paróquia. Comecei a procurar um lugar onde eu pudesse viver mais intensamente o Evangelho e eu sabia que não seria na vida religiosa. Foi então que busquei nas Comunidades e foi, em uma delas, que conheci uma senhora celibatária. Fiquei chocada e intrigada. Fiz muitas perguntas e meu interesse de reencontrá-la para saber mais só aumentava. Porém, precisei começar a estudar e trabalhar e não tive mais tempo para me dedicar a Igreja. Foi uma dor insuportável.
Tempo de deserto
Passei longos anos indo somente as Missas dominicais. Conheci o mundo, namorei, viajei, me formei. Mas eu ainda sentia aquele vazio e aquele desejo de ter aquela vida da minha adolescência. Aos 25 anos estava em um relacionamento sério e o desejo de casar foi crescendo, pois via as minhas amigas casando e, afinal, eu já estava ficando velha (era o que pensava na época).
Eu desejava preencher aquele vazio em um relacionamento e acreditava que era o matrimônio que faltava na minha vida. Eu já havia tentando prosseguir com esse plano de casamento antes, mas não obtive sucesso. Meus relacionamentos simplesmente terminavam porque eu não me sentia preenchida por aquilo e depois não sentia mais nada.
Uma voz, quase que silenciosa, dentro de mim, sempre me disse que não era aquilo. Eu tinha a sensação de que Deus iria me impedir de casar com alguém sempre. Não entendia isso, mas foi algo que me acompanhou sempre.
Como estava muito afastada da Igreja, acabei decidindo prosseguir com meus planos sobre casamento, pois já estava em um relacionamento sério e começamos a organizar os preparativos: salão de festas, enxoval, buffet, fotografia, vestido…estava tudo definido. Só faltava marcar a Igreja (e claro, nunca aconteceu!).
Nesta época dos preparativos, o padre da Paróquia que eu fazia parte me convidou para ajudar na organização da JMJ no Rio e esse convite acendeu meu coração com uma chama tão forte, que parecia que explodiria. Sem pensar nem medir esforços, me lancei na organização, pois desejava novamente estar no serviço, em Deus e com os jovens. Eu não percebia que este tinha sido um atrativo de Deus para me fazer retornar e conquistar meu coração de uma vez por todas.
Desejo de ser inteira de Deus
A organização para o casamento não era mais a minha prioridade, mas eu sabia que poderia ser casada e continuar servindo a Deus na paróquia. Porém, dentro de mim não existia essa possibilidade, isso não era suficiente para mim. Eu precisava estar inteira. Ou tudo ou nada. Parecia uma loucura e eu estava inquieta e sem respostas.
Um dia, ao chegar na paróquia, tive uma experiência muito forte com o crucifixo no altar. Ali era somente Jesus e eu. E Ele me dizia, recordando a Palavra: “Ninguém pode servir a dois senhores; pois odiará a um e amará o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Vocês não podem servir a Deus e ao Dinheiro“. (Mt 6,24) E foi quando eu entendi tudo, ainda que genuinamente.
Saí da Igreja e fui para a casa do meu noivo (sim, já estávamos noivos nessa época!) e terminei tudo! Saí dali e fui para casa me sentindo leve e feliz, mesmo sem entender o que tinha acabado de acontecer. Cada um ficou com sua aliança, dividimos os presentes e resgatamos o dinheiro investido nas outras coisas.
Chamado a ser toda de Deus
Poucos meses depois, conheci a Comunidade Shalom, através do Halelluya, e fui fazer o curso Tecendo o Fio de Ouro. Além da minha identificação com o Carisma, compreendi que tudo o que eu tinha vivido e sentido, que a busca por preencher o coração, era na verdade o meu estado de vida, o chamado ao celibato. Eu precisava ser inteiramente Dele e queria Deus por inteiro.
Iniciei mina trajetória vocacional na certeza que Deus me escolhia para ser Esposa de Seu Filho Jesus. Isso me confundiu muitas vezes, pois nós Shalom somos todos chamados a ser almas esposas de Jesus. Mas isso não me bastava.
Muitos anos se passaram ainda, pois havia um longo caminho a ser percorrido, onde o amor de Deus foi crescendo, a decisão se fortalecendo e eu fui amadurecendo com tudo. Pouco a pouco fui correspondendo e compreendendo este chamado.
Tudo ofertar
Durante o vocacional, o Senhor me pedia que eu doasse minha aliança para contribuir com a compra do Centro de Evangelização do Catete, pois não era aquela aliança que Ele me queria dar. Deus foi me seduzindo, me atraindo ao Seu amor e, lentamente, fui tentando corresponder. O Senhor teve muita paciência em me esperar, pois haviam muitos medos que me impediam de me render e acabavam até por gerar resistências. Mas a semente já estava plantada e eu sabia que ela cresceria, conforme Deus me falava.
Chamado à maternidade espiritual
A vivencia da minha vida consagrada me fez perceber, por meio da maternidade espiritual, que esta era forma mais concreta que eu tinha de amar a Deus e como isso me completava e me fazia feliz. Era aquela experiência da juventude, onde tudo eu fazia pelos jovens. Descobri então, que meu coração precisava estar livre para amar a todos e aos muitos jovens eu Deus me confiava.
Comecei o caminho de discernimento para o celibato, após retornar de um período de missão, mais amadurecida. Entendi que a minha busca por outros amores tinha chegado ao fim e que só existia uma pessoa que poderia preencher o vazio e dar todo o sentido da minha vida e somente uma pessoa seria capaz de me amar profundamente e me fazer plenamente feliz.
Entendi por fim, a bela missão daquela senhora celibatária e de como nossas vidas tinha algo em comum… Jesus, o Esposo.
“Levanta-te, meu amor, formosa minha, e vem.
Porque eis que passou o inverno; a chuva cessou, e se foi;
Aparecem as flores na terra, o tempo de cantar chega…” (Cn 2,10-12)
Gisele Turano,
filha de Deus, Shalom,
Comunidade de Aliança, celibatária
Missão Rio de Janeiro

