Se queremos compreender quem é o ser humano devemos, por força de coerência, partir da narrativa bíblica do livro do Gênesis. Esse texto, além do seu caráter teológico, também tornou-se uma referência e fonte de inspiração para muitos pensadores ao longo dos séculos.
No início do livro do Gênesis, encontramos duas narrativas da Criação, sendo a segunda narrativa (Gn 2,4b-25) mais antiga do que a primeira narrativa (Gn 1,1—2,4a), por isso a segunda narrativa é marcada por uma linguagem antropomórfica, na qual Deus é apresentado com características muito humanas. Esse tipo de linguagem, além de denotar antiguidade, trabalha muito com imagens e figuras de linguagem para melhor traduzir a mensagem pretendida. Mas se contemplamos os detalhes descritos em ambos os capítulos acerca da criação do homem e da mulher, encontraremos elementos essenciais que definem o ser humano e explicam o sentido da sua existência.
Deus contempla a sua obra
Em Gn 1, no final de cada dia, Deus contempla a sua obra e expressa que ela é boa. Esse adjetivo hebraico “tôv” significa “bom” e “belo”, e expressa três sentidos: um sentido moral, um sentido prático e um sentido estético. Ou seja: enquanto traduz um sentido moral, revela que cada obra criada por Deus é positiva, tudo o que Deus criou é bom, tem em sua essência a bondade, pois Deus não pode ser criador do mal; no seu sentido prático “tôv” expressa que cada coisa criada tem um objetivo e responde ao desígnio para o qual foi feito; quanto ao sentido estético, compreendemos que a criação é bela e, por isso, é uma forma privilegiada de conhecer o Criador.
No final de cada obra criada Deus viu que era bom, útil e belo. Contudo ao criar o ser humano Deus disse: “é muito bom!”. Entre a criação de cada ser e a criação do homem e da mulher, notamos uma mudança radical, como explica S. João Paulo II:
No ciclo dos sete dias da criação, manifesta-se evidentemente uma gradualidade nítida; o homem, pelo contrário, não é criado segundo uma sucessão natural, mas o Criador parece deter-se antes de o chamar à existência, como se tornasse a entrar em si mesmo, para tomar decisão: “Façamos o homem à Nossa imagem, à Nossa semelhança” (Gn. 1, 26).[1]
No seu corpo, portanto, o ser humano expressa a bondade e a beleza do seu criador, “glorificai, pois, a Deus no vosso corpo! ” (1Cor 6,20).
Amar com todas as potências do seu ser
Compreendemos, assim, que “o amor é a fundamental e originária vocação do ser humano”[2]. Mais ainda, a realização dessa vocação originária ao amor acontece plenamente quando a pessoa é capaz de amar com todas as potências do seu ser: sentidos, afetos, imaginação, memória, inteligência e vontade, ou seja, o seu ser inteiro, corpo-alma-espírito. Não somente o seu interior, mas também o seu corpo foi criado para expressar o amor do seu Criador. E como isso é possível?
É fundamental compreender que o homem é chamado a amar com a totalidade do seu ser masculino e a mulher, com a totalidade do seu ser feminino. Assim, “feminilidade e masculinidade são dons complementares, pelo que a sexualidade humana é parte integrante da capacidade concreta de amor que Deus inscreveu no homem e na mulher”[3]. Existe um significado esponsal inscrito no mais íntimo de cada pessoa, que se encarna no caráter esponsal do seu corpo. Para melhor entender, vejamos o que S. João Paulo II nos ensina a respeito:
O corpo humano, com o seu sexo, e a sua masculinidade e feminilidade, visto no próprio mistério da criação, não é somente fonte de fecundidade e de procriação, como em toda ordem animal, mas encerra desde “o princípio” o atributo “esponsal”, isto é, a capacidade de exprimir o amor precisamente pelo qual o homem-pessoa se torna dom e – mediante este dom – realizar o próprio sentido do seu ser e existir.[4]
Este é o primeiro passo para uma visão correta do sentido do corpo humano. Seguiremos nos próximos artigos desenvolvendo mais um passo para uma melhor compreensão do valor e do sentido da sexualidade humana.
Por Josefa Alves
Teóloga, Consagrada na Comunidade de Vida Shalom
Referências
[1] JOÃO PAULO II, Audiência Geral 12 de setembro de 1979. In: http://w2.vatican.va/content/john-paul-ii/pt/audiences/1979/documents/hf_jp-ii_aud_19790912.html.
[2] JOÃO PAULO II, Exortação Apostólica Familiaris Consortio, n.11.
[3] CONSELHO PONTIFÍCIO PARA A FAMÍLIA, Sexualidade Humana: Verdade e significado, n.10.
[4] JOÃO PAULO II, Audiência Geral, 16 de janeiro de 1980. In: http://w2.vatican.va/content/john-paul-ii/pt/audiences/1980/documents/hf_jp-ii_aud_19800116.html
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