Quem anda no deserto conhece as ausências, o silêncio, a dor, sente vento frio e a força do calor escaldante. Quem anda no deserto sente-se caminhante na vida, que nem sempre trará alguém do lado. Sabe que terá caminhos só seus, decisões que não cabem a outro coração que não o seu.
Quem anda no deserto farta-se de si mesmo. Das suas misérias, belezas, aprende rir com as descobertas de si mesmo. Vai aprendendo aos poucos que embora se veja só, há para além da montanha outros peregrinos no deserto. Vivendo também o choro da travessia.
Andar no deserto requer deixar excessos, unificar o ser, olhar pra frente, desejar os oásis. A travessia do deserto faz-nos ansiar pela água que umedece a terra ressequida, assumir as miragens, tomar posse da verdade.
A beleza do deserto se dá nesse mistério de reconhecer que os cansaços da caminhada nos fazem assumir quão necessitados somos de água – e aqui cabem todos os nomes que umedecem nossa terra, nosso ser. O deserto nos apresenta, recria uma versão melhor de nós mesmos.
Deserto é assim, manifestação da travessia, vivida aqui e agora.
Elisangela Assis
