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O Dia da Criança

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Feliz coincidência: comemora-se no dia 12 de outubro a festa da Mãe Aparecida, juntamente com o Dia da Criança. Mais do que coincidência, trata-se de descendência, do fruto da mesma árvore: não se pode falar da criança e esquecer os pais. Lembro-me de uma entrevista pela TV com uma respeitável autoridade neste assunto, que foi interrogada: “Como vão as crianças brasileiras?” A resposta veio prontamente: “As crianças brasileiras vão muito mal, obrigado”. Em seguida, começou a justificar sua visão realista. Coincidência, também, mas não feliz, minha visão com a dessa respeitável autoridade.

As estatísticas não expressam sentimentos, mas falam com objetividade. Tomei conhecimento que são 20 milhões de pequenos seres humanos em estado de carência absoluta, desamparados por suas famílias, estas igualmente desamparadas. A mortalidade infantil, de 0 a 6 anos, representa 55% da mortalidade geral. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estabelece a seguinte taxa média: acima de 50 mortes por mil crianças nascidas, consideram-se taxas altas, e abaixo de 20 mortes, taxas baixas. Em 2006, a taxa do Brasil foi de 28 mortes por mil. A previsão para 2007 é de 24 por mil. De acordo com o documento da ONU, “um mundo para crianças” deve descer para 16 mortes por mil.

Na maioria dos países da América do Sul, as taxas de mortalidade infantil não são piores do que as nossas. A queda dessas taxas está associada a uma série de melhorias nas condições de vida e na atenção à saúde da criança. As mortes não acontecem por vontade de Deus, mas porque a injustiça se chama má distribuição de renda. Ponto fundamental da questão: há que se levar em conta o dado importante de que o desenvolvimento na primeira infância e toda sua estrutura emocional se consolidam até os três anos de vida. Nesse período, o relacionamento da criança com a mãe é absolutamente necessário por exigência de um atendimento totalmente individual.

Nas creches, onde as crianças convivem no coletivismo, sem receber uma atenção personalizada, dizem os entendidos, o Q.I. delas sofre conseqüências. Não se pode negar que a creche é uma necessidade e um direito diante das condições de vida das crianças brasileiras. Observou-me um pediatra: a mãe, terminada a licença maternidade e de volta ao trabalho, passa a amamentar o bebê somente duas vezes ao dia, pela manhã e à noite, o que afeta o lado emocional da criança. O que a mãe pode dar à criança ninguém pode dar como a própria mãe: amor, qualidade exclusiva do aleitamento materno.

A experiência comprova que, além da importância do vínculo emocional, o leite materno contém substâncias que conferem imunidade ao organismo do bebê. O que a mãe carente não pode dar ao filho é o que não tem nem para si: alimento, saúde, moradia modesta, mas digna… O que se faz pela criança necessitada não se pode deixar de fazer pelos pais, ajudando-os a ter condições de fazer o que é de sua inalienável missão.

O crescimento econômico, que fortalece a concentração dos bens em mãos de poucos, só agrava a desigualdade social. Não se pode pensar na redução da mortalidade infantil sem forte empenho pela erradicação da pobreza absoluta. Há os convencidos de que o meio seguro de acabar com a pobreza é o controle da natalidade. Uma coisa é a paternidade responsável, ter filhos de acordo com a possibilidade de educá-los sem desrespeitar a dignidade do matrimônio. Outra coisa é a visão materialista em querer diminuir o número de bocas famintas, mortalidade infantil, menores abandonados, favelados, tão somente querendo diminuir a explosão demográfica e fazer crescer a explosão do egoísmo.

Uma análise feita pelo IBGE mostra que, no ano passado, os 10% mais pobres detinham apenas 1% do total da renda. Já os 10% mais ricos concentravam 44,4% da renda. O esforço de arrancar o povo do subdesenvolvimento passa necessariamente pela qualidade de vida das crianças. Como reza a nossa Constituição no Art. 227: a criança deve ser a prioridade absoluta da sociedade brasileira. O respeito à vida expressa-se no amor à criança. Atrás de cada criança está o amor que a tornou possível e a sustenta na vida.

Foi desse amor que se originou a Pastoral da Criança no Brasil, em 1984, presente em 4.063 municípios, cobrindo quase a totalidade de municípios no Brasil, que é de 5.564. São 146.753 líderes comunitárias auxiliadas por 266.954 voluntárias que acompanham 1.901.433 crianças de 0 a 6 anos cadastradas nos respectivos bairros em que residem. Recebem mensalmente atendimento individual, com ações básicas de saúde, nutrição, educação e medicina preventiva.

Trazidas por suas mães que se reúnem para uma celebração da vida, são lhes dadas ainda orientações necessárias de cuidados maternais. Em todo país, vem merecendo dedicado acompanhamento, 96.896 gestantes, mediante encontros mensais. O testemunho da Pastoral da Criança é mostrar que o amor às crianças nunca pode ser abstrato e apenas sentimental. É obrigatoriamente concreto, comprometido e prático. Não se ama a criança só com palavras e cantigas de ninar, mas respondendo integralmente às suas necessidades.

A criança é a esperança do futuro. A vida dos pais prolonga-se na dos filhos, dando-lhes as condições necessárias para que o amanhã seja melhor que o presente. Servir à criança é enfrentar a realidade para superá-la com as regras do amor. Desse amor que obriga a olhar para o futuro e não deixar derrotar-se pelo presente. Servir à criança é levar cada um desses frutos do amor à plenitude de sua potencialidade. Imitemos o gesto de Jesus Cristo: “Deixem vir a mim as crianças” (Mc.10,4).

*Dom Eduardo Koaik é bispo emérito de Piracicaba

Fonte: CNBB


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