Formação

O dia sem ocaso

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Na tarde dessemesmo dia [domingo], que era o primeiro da semana, estando as portas da casa em que seachavam os discípulos trancadas por medo dos judeus, Jesus veio, pôs-se no meiodeles e lhes disse: ‘Paz a vós’(…). Tendo assim falado, soprou sobre eles elhes disse: ‘Recebei o Espírito Santo‘[1].

Navisão de João, a aparição de Jesus ressuscitado aos apóstolos no cenáculo é anova criação do homem: Em Gn 2,7 Deus plasma o homem do barro da terra e insuflanas suas narinas o hálito de vida; aqui o Ressuscitado sopra sobre os apóstolose comunica-lhes o Espírito Santo, dando-lhes a nova vida. Na primeira criação ohomem foi o último ser criado, aqui ele é o primeiro, porque a nova criação étambém a redenção do homem e, através dele, de toda a criação.

Jesusressuscitado aparece aos discípulos no primeiro dia após o sábado, ou seja, nodia que está acima da ordem dos dias da semana. É o oitavo dia. Sobre istoescreve S. Agostinho: “Por isso, o Senhor também imprimiu o seu selo no seudia, que é o terceiro após a paixão. Porém, no ciclo semanal, aquele é o oitavodepois do sétimo, isto é, depois do sábado, e o primeiro da semana”[2]. Ooitavo dia é o dia sem ocaso, o dia sem fim, que nos introduz, portanto, na eternidade.

NaCarta Apostólica Dies Domini, João Paulo II comenta:

“O fato de o sábado ser o sétimodia da semana fez considerar o dia do Senhor à luz de um simbolismocomplementar, muito apreciado pelos Padres: o domingo, além de ser o primeirodia, é também ‘o oitavo dia’, ou seja, situado relativamente à sucessão septenáriados dias, numa posição única e transcendentes evocadora, não só do início dotempo, mas também do seu fim no ‘século futuro’. S. Basílio explica que odomingo significa o dia realmente único que virá após o tempo atual, o dia semfim, que não conhecerá tarde nem manhã, o século imorredouro que não poderáenvelhecer; o domingo é o prenuncio incessante da vida sem fim, que reanima aesperança dos cristãos e os estimula no seu caminho”[3].

  Asaparições de Cristo Ressuscitado aos seus discípulos aconteceram no domingo,por isso este dia passou a ser, a Páscoa semanal dos cristãos: é memorial damorte e gloriosa ressurreição do Senhor.

“Nós celebramos o domingo, devido à venerável ressurreiçãode nosso Senhor Jesus Cristo, não só na Páscoa, mas inclusive em cada ciclosemanal”: assim escrevia o Papa Inocêncio I, nos começos do século V,testemunhando um costume já consolidado, que se tinha vindo a desenvolver logodesde os primeiros anos após a ressurreição do Senhor. S. Basílio fala do‘santo domingo, honrado pela ressurreição do Senhor, primícia de todos osoutros dias’. S. Agostinho chama o domingo “sacramento da Páscoa”[4].

No ano 304, o imperadorDiocleciano proibiu aos cristãos, sob pena de morte, de possuir as Escrituras,de se reunirem aos domingos para celebrar a Eucaristia e de construir lugarespara as suas assembléias; neste período, alguns cristãos de Abitinas (atualTunísia), foram surpreendidos na celebração eucarística dominical, que estavaproibida, e foram conduzidos perante o juiz, que lhes perguntou por que, nodomingo, haviam celebrado a função religiosa cristã, sabendo que isso implicavacastigo de morte, ao que responderam: ‘Sinedominico non possumus’, ou seja, “sem o domingo não podemos viver"[5].

“Pôs-seno meio deles…”

Odia da ressurreição é o inicio absoluto que nos transfere no mundo de Deus. Ouseja, a aparição de Jesus não dá apenas a certeza da sua ressurreição, mastambém da sua presença em meio aos seus. A comunicação da paz e a sua presençadissipam o medo e lhes enche de alegria: “Vendo o Senhor, os discípulos ficaramtomados de intensa alegria”.

Éimportante notarmos que narrando este grande acontecimento o Evangelista Joãonão diz que Jesus ‘apareceu’, mas que ‘veio e pôs-se’ no meio deles. Ele queprometeu permanecer conosco até o fim dos tempos, veio glorioso, vencedor damorte e Senhor da vida e ‘pôs-se no meio deles’, comunicando-lhes a sua paz.“Ele está no meio de nós”, respondemos na santa Missa, mas esta resposta não éapenas parte de um rito, trata-se de uma verdade que está no fundamento da nossafé. Sim, Ele está no meio de nós! Permanece conosco! E com Ele tudo se faznovo, a morte e a dor já não são as últimas palavras. Cristo ressuscitou, sim,é a vitória do Amor! Aleluia!


[1] Jo 20,19.22.

[2] Sermo 8 in octava Paschalis, 1,4.

[3] Dies Domini, 26.

[4] DD 19.

[5] Cfr. DD 46.


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