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O diabo não é um deus do mal, é uma criatura limitada

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Pe. Pedro Barrajon explica os objetivos do curso “Exorcismo e oração da libertação”, que examina a presença do maligno na humanidade e as formas de expulsá-lo

RV5261_LancioGrandeA presença do maligno na alma humana e na humanidade tem muitos aspectos misteriosos ou obscuros. No entanto, é uma presença que pode ser detectada e derrotada. ZENIT falou com o padre Pedro Barrajon, diretor do Instituto Sacerdos, promotor do curso Exorcismo e oração de Libertação, que será realizado no Ateneu Regina Apostolorum do 13 ao 18 de abril.

ZENIT: Como surgiu a ideia de um curso sobre exorcismo?

Pe. Pedro Barrajón: Este ano será a décima edição do curso Exorcismo e oração de libertação, nascido a partir da solicitação de alguns sacerdotes que na sua pastoral tinham casos concretos de pessoas com influências maléficas: não sabiam lidar com tudo isso, então decidimos dar-lhes um instrumento para avaliar estes casos.

ZENIT: Como são organizadas as “aulas”?

Pe. Pedro Barrajón: Quesemos dar uma estrutura sólida ao curso, porque, sobre esta temática, pode-se cair facilmente no sensacionalismo e em formas que não estão apoiadas por uma sadia teologia. Portanto, a semana é organizada dessa forma: começa-se com uma sólida base teológica, partindo da teologia bíblica sobre anjos e demônios e sobre como situar a ação destes seres que estão presentes na realidade invisível. Além desta parte existe também a teologia do exorcismo, na qual se fala como a Igreja concebe o exorcismo, que é um sacramental com um rito específico, que obedece a normas litúrgicas.

ZENIT: Além desta parte espiritual, teológica bíblica, quais ciências entram em diálogo com tudo isso?

Pe. Pedro Barrajón: Uma delas é a psicologia, porque é necessário discernir entre os casos de possessão e as doenças psicológicas: a psicologia nos apresenta quais são as enfermidades ou as anomalias psicológicas que podem se confundir com os casos de possessão, de tal forma que se se trata de uma doença psicológica, deve-se agir dando ajuda a nível psiquiátrico e psicológico.

ZENIT: Em casos de possessão, deve haver um apoio psicológico?

Pe. Pedro Barrajón: Sim, em muitos casos, é necessário atuar nessas duas frentes: no plano espiritual e psicológico. Portanto, recomenda-se a colaboração de padres, psicólogos e psiquiatras, para não se trabalhar de forma isolada.

ZENIT: As possessões demoníacas são comuns?

Pe. Pedro Barrajón: A ação comum é a tentação, a possessão não é comum. A tentação nos induz ao mal, todos as sofremos e, no Pai Nosso, dizemos todos os dias “livrai-nos do Mal”, ou seja, do Maligno. A ação normal do demônio é a tentação. Uma ação extraordinária, mas possível, é a possessão.

ZENIT: Esses fenômenos têm aumentado nos últimos anos?

Pe. Pedro Barrajón: É difícil dizer se os casos têm aumentado nos últimos anos, infelizmente, Destes problemas não se fala muito. Poderíamos dizer que o fenômeno é mais reconhecido, enquanto que houve um tempo em que tudo se explicava com causas psicológicas. É necessário distinguir. É verdade que nós vivemos em uma sociedade muito secularizada, na qual, mais do que antes, se abre a porta ao ocultismo, ao esoterismo, às práticas mágicas: isso pode ter uma influência real com posteriores casos de possessão. Os casos de possessão não aumentaram de modo exagerado, mas, certamente, há uma tendência a se aumentar, por causa da distância de Deus e, especialmente, por causa de práticas mágicas e de superstições neopagãs, que são uma porta para a ação diabólica.

ZENIT: Quais podem ser as causas de possessão demoníaca?

Pe. Pedro Barrajón: Às vezes, as causas não são compreensíveis. O diabo também agiu sobre grandes santos, como no caso do Pe. Pio ou do Cura d’Ars, que tiveram fortes lutas físicas com o diabo, mas a causa mais comum é culturar quem não é Deus: os ídolos, os poderes mágicos, Satanás nas seitas satânicas… Ocultismo e magia são as primeiras causas.

A palavra-chave, no entanto, é sempre ‘discernimento’, saber discernir, como diz o Papa, tentando falar com a pessoa, tentando avaliar a sua história, as possíveis causas de tipo psiquiátrico e psicológico: se estas forem excluídas e a pessoa se sente assediada pelo demônio, então, é bom que faça uma oração de libertação (que não é um exorcismo), ou um exorcismo mesmo, se se vê uma certa violência no ataque maléfico.

ZENIT: Antes de entrar em contato com os médicos ou os sacerdotes, como é que uma pessoa nota uma influência maligna? Quais são as manifestações e sintomas?

Pe. Pedro Barrajón: A pessoa às vezes não percebe de imediato a causa porque experimenta um desconforto forte, adverte que está sendo habitada por uma pessoa que não é ela mesma. No começo não é fácil dar-se conta, nem sequer para aqueles que a rodeiam: comportamentos que não são normais, nem sempre se reduzem à ação maléfica, mas, vendo que o problema persiste e não encontra uma solução nos meios normais a disposição, às vezes se dirige a um sacerdote. O sacerdote, muitas vezes, não sabe o que fazer, mas um sacerdote com uma certa formação neste campo pode intuir que possa se tratar de uma influência maléfica e, neste caso, aconselhar um exorcista. Pela prática de exorcismo, o exorcista percebe rápido se esta pessoa está à mercê do poder do diabo, por exemplo, se na frente dos sinais sagrados existem reações violentas, compulsivas, não normais: a angústia diante do sagrado não é normal. A Igreja acrescenta depois outros sinais: a pessoa pode falar línguas que não conhece, ou até sentir-se habitada por uma outra realidade pessoal, apesar de não ter problemas de personalidade múltipla.

ZENIT: Qual é a diferença entre o exorcismo e oração de libertação?

Pe. Pedro Barrajón: Às vezes, é bom que, antes do exorcismo, se façam orações de libertação: são orações não exorcísticas na qual se reza para que a pessoa seja liberta do mal e da possível influência do mal. Se isso funciona, o exorcismo é muito mais forte, porque no sacramental se pede pelo poder de Cristo e no nome de Cristo, enviado pelo Pai para derrotar o Maligno, para que a pessoa seja liberta. Alguns exorcistas aplicam diretamente o exorcismo, outros preferem fazer antes as orações de libertação. A Igreja pede cautela ao exorcista. Há sempre uma espécie de “intuito espiritual”, a graça de estado que o exorcista tem para perceber se a pessoa tem ou não necessidade de um exorcismo.

ZENIT: Porque, por muitos anos, até mesmo dentro da própria Igreja, o diabo foi quase esquecido?

Pe. Pedro Barrajón: Criou-se, talvez, uma espécie de racionalização da teologia: o que não se entendia e o que parecia que não fosse científico, foi deixado de fora: os casos em que se falava no Evangelho de exorcismos de Jesus foram transformados em doenças psicológicas. Tentou-se reduzir os mesmos milagres a causas científicas, a tal ponto que, quando Paulo VI, em um famoso discurso em 1972, disse: “Parece que por alguma rachadura o demônio entrou no templo de Deus”, foi uma notícia que girou o mundo, porque falava do diabo. Hoje o Papa Francisco fala muitas vezes e ninguém se assusta, mas em 1972 era diferente, porque tinha se criado uma espécie de “falta de fé” nesse aspecto, o que correspondeu a uma pastoral que não nomeou exorcistas. Os casos de possessão, no entanto, continuavam e as pessoas não sabiam a quem dirigir-se. Agora voltou-se a fazer exorcismos de uma forma mais natural, a Igreja sempre os fez.

ZENIT: Como é necessário apresentar a ação do demônio para um crente?

Pe. Pedro Barrajón: Do ponto de vista de um crente, não precisa ter medo do demônio, porque Deus é mais forte. Deus permite que o demônio possa agir também de forma extraordinária, tanto é que todos os dias no Pai Nosso rezamos “livrai-nos do Mal”, ou seja, do Maligno. A Igreja sempre acreditou na ação do demônio, que, porém, sempre foi limitada pela ação de Deus: o demônio não é um Deus do mal, é uma criatura limitada: tem um certo poder, mas não tem significado com relação a Deus.

 

Fonte: Zenit


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