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O discípulo amado e eu

Eu achava que depois dessa experiência nada me provocaria tanta emoção.

comshalom

O ícone do Discípulo Amado é uma representação de Jesus Cristo e o apóstolo João, aquele a “quem Jesus muito amava”. João foi o único apóstolo que acompanhou a crucificação, momento em que “ao ver Sua Mãe e junto dela o discípulo que Ele amava, Jesus disse à Sua mãe: Mulher, eis aí o teu filho. Depois disse ao discípulo: Eis aí a tua Mãe” (Jo.19, 26-27).

Quando vi esse ícone pela primeira vez, no retiro de mudança para a fase Filotéia (amizade com Deus) de um grupo de oração da comunidade Shalom, imediatamente me veio um grande desejo de ser essa pessoa de sorte que descansa no colo do Senhor. Mas não foi um descansar no sentido figurado: eu verdadeiramente quis tocar em Jesus, reclinar em Seu peito, receber dEle um abraço, senti-lO não só no coração, mas Sua presença literalmente. E imediatamente pensei: “que doideira, tenho a eucaristia e sei que posso ter nossos corações unidos espiritualmente e isso basta”. E ficava nessa dualidade de ter esse desejo e achar surreal.

Algum tempo depois, ao participar de uma encenação da Paixão de Cristo, a cada ensaio, no momento da Santa Ceia, quando João reclinava em Seu peito, meu desejo de viver aquilo verdadeiramente só crescia. E durante a encenação, na sexta-feira da Paixão de 2017, no papel de Madalena, eu tive a maior experiência cristã da minha vida. Meu coração se uniu ao de Jesus em Sua Paixão, e eu sofri. Finalmente senti o que é Jesus ter vindo para nos salvar, e não foi um simples entender, foi sentir mesmo, foi viver junto, foi viver a Paixão de Cristo, foi chegar bem perto de Deus, muito perto. Já em casa, no começo da tarde, com uma chuva leve e céu nublado, em um incomum silêncio na vizinhança, eu chorava abraçada à minha Bíblia: o melhor jeito que encontrei para permanecer unida a Deus naquele momento de dor e gratidão.

Eu achava que depois dessa experiência nada me provocaria tanta emoção.

Eis que quase um ano depois, em uma simples e despretensiosa oração pessoal, Deus quis, por pura misericórdia, me inundar com seu Amor. Antes mesmo de começar o estudo Bíblico, em um momento de louvor com uma música que não saíra da cabeça a tarde inteira – uma das formas que Deus tem pra dizer “reze com ela” – eu quis de novo abraçar minha Bíblia. Me agarrei ela (parecia tão convidativa!) e senti o Seu amor, senti Seu colo, senti Seu consolo, senti Sua piedade. Senti. Fisicamente. Chorei, chorei, meio sem entender, “O que é tudo isso, Deus??“, e me rendi, continuei ali, naquele abraço tão real, vivendo aquela tão desejada experiência, inigualável experiência de amor, Verdadeiro Amor. Logo eu, tão relapsa com minha oração diária, tão necessitada de Reconciliação, tão despretensiosa naquele dia, e foi ali que Deus se fez o mais claro possível para que eu entendesse que fui eleita por Ele e para Ele. O estudo bíblico só veio confirmar tudo aquilo que senti ali, através do Salmo 23: “ […] Pelos caminhos retos ele me leva, por amor de seu nome. […] Preparais para mim a mesa à vista de meus inimigos. Derramais o perfume sobre minha cabeça e transborda minha taça.” Lia, chorava, rezava, relia, chorava, louvava, chorava. Chorava dessa vez não de dor, mas de plenitude. Ao mesmo tempo pensava como não merecia, como sou ingrata, e foi na minha maior miséria que Deus mais quis me amar…

Muito maluco sentir de verdade tantas lições que aprendi em leituras e formações que entravam na cabeça mas que, por mais que eu tentasse, não chegavam muito fundo no meu coração. Muito maluco sentir que a Palavra é Deus, que a Bíblia é Deus, e não um simples, livro, ela é sagrada. Muito maluco ouvir essas lindas e tão poéticas musicas consagradas a Deus e rezar junto com elas com todo o meu coração, vivendo aquilo verdadeiramente. “Mas o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, pois para ele são loucuras. Nem as pode compreender, porque é pelo Espírito que se devem ponderar” (I Coríntios 2, 14). “A linguagem da cruz é loucura para os que se perdem, mas, para os que foram salvos, para nós, é uma força divina” (I Coríntios 1, 18).

Não existe fórmula, não existe ciência. Deus é de verdade, e senti-lO é em parte uma questão de fé mas principalmente um ato de amor e misericórdia dEle mesmo. Ninguém explica Deus.

Patricia Fontinele


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