Institucional

O espírito do Natal

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Naquela noite santa Deus acendeu uma luz que permanecerá acesa para sempre, a escuridão da noite do mundo foi rompida por esta luz radiosa que descendo dos céus encarnou-se pelo poder do Espírito Santo no seio da Virgem de Sião.

A cada ano a Igreja faz memória daquele dia belo em que os céus e a terra compartilharam seus dons: nós oferecemos ao Menino o seio virginal de Sua Mãe e uma gruta que poderá naquela noite conter o Inacessível que agora vemos tão perto; o Céu nos oferece o Deus feito homem, o Eterno que se encarna no tempo.

Toda a liturgia da Vigília do santo Natal gira em torno desta Luz que foi alcançando uma multidão de homens e mulheres até chegar a nós; esta palavra (luz) encontra-se presente em outra Vigília, da qual se diz: mãe de todas as outras. Nas duas vemos Cristo como Luz do mundo. Naquela o brilho de Cristo na região tenebrosa da morte e nesta o menino que traz sobre os ombros a marca da realeza: “Seu nome é príncipe da paz”.

O fato é que na Natividade contemplamos Deus envolto em faixas, pobre e reclinado num presépio. Vemos o Criador assumir a história da criatura (Hino do Akathistos), entrar na limitação do tempo para buscar as ovelhas perdidas da casa de Israel. Por isso nesta solenidade inicia-se a reconciliação do homem com seu Deus, pois este menino que vemos envolto em faixas é o mesmo que deixará os lençóis no chão em sua ressurreição triunfante da morte, tendo ainda nos ombros a marca de sua vitória, ou seja, o estandarte da Cruz.

Um teólogo medieval (Guilherme de S. Thierry) dizia que: Deus viu, a partir de Adão, que a sua grandeza suscitava no homem resistência; que o homem se sente limitado no ser ele próprio e ameaçado na sua liberdade. Portanto Deus escolheu um caminho novo. Tornou-Se um Menino. Tornou-Se dependente e frágil, necessitado do nosso amor. Agora – diz-nos aquele Deus que Se fez Menino – já não podeis ter medo de Mim, agora podeis apenas amar-Me.

Em nossos presépios vemos a imagem tão simples de uma criança com seus braços abertos. Ele parece gritar que deseja o nosso amor, se fez mendigo para que sem nenhuma resistência pudéssemos nos achegar a ele. Quem pode resistir à doçura de uma criança?

É um mistério grande que é celebrado na liturgia, mas também em nossas casas e comunidades, pois aquele recém-nascido agrega em torno de si as pessoas convidando-as a mudarem a direção de suas vidas e a encontrarem um sentido pleno para sua existência. Em um mundo marcado pelo egoísmo, pelo relativismo e pela indiferença, o exemplo do pobrezinho de Belém soa forte para animar a fé e a caridade dos homens de boa vontade.

Na terceira semana do Advento costumamos arrumar nossas casas, montar a árvore e o presépio, colocar os símbolos nas portas… Isso sempre chamou muito a minha atenção porque ainda quando criança tinha a sensação de que uma pessoa muito importante ia chegar, mas não era alguém que passava rapidamente descendo de algum lugar, era uma visita especial que vinha para ficar definitivamente, com o tempo fui percebendo que era necessário não apenas preparar o exterior – na verdade este é apenas conseqüência – era preciso olhar para dentro e preparar um outro presépio. Na verdade, por meio da fé, creio que aquela “Belém”, aquela “gruta”, tem um novo endereço agora: nosso coração! É realmente uma obra nova, que resplandece de dentro para fora. Deus em pessoa vem abrir no deserto um caminho novo.

É Natal, mas será que é mesmo? Nós preparamos a decoração de nossas casas, nos preocupamos em comprar os presentes, roupas, comidas… São tantas atividades que o chorar do Menino pode passar despercebido, ou ainda pior, pode não haver lugar. Maria e José procuraram abrigo em tantas casas e não encontraram, eles passam novamente a cada natal e pedem um lugar. O brilho e a riqueza das luzes de nossa casa, as alegrias da confraternização não podem roubar a verdadeira essência desta festa, pois o verdadeiro mistério do Natal é o esplendor interior que irradia deste Menino. O olhar de Maria, a fé de José, a alegria dos pastores, a exultação dos anjos… Quantos detalhes para se contemplar…

Naquela noite iniciou-se uma procissão sem fim de homens e mulheres apaixonados por um Pequeno-Grande, o Menino-Deus, que se fez pobre e humilde em sua humanidade, mas que permaneceu o Altíssimo e Grandioso Deus.

Os pastores disseram uns aos outros, “vamos já a Belém!” (Lc 2,15) e nós vamos à Belém, que é o nosso coração! Vamos preparar tudo! Se a manjedoura está cheia das palhas velhas de nossos vícios e pecados, então vamos colocar palhas novas através da reconciliação! Se o celeiro tem os objetos velhos aos quais o homem velho era apegado, então vamos nos despojarmo de tudo!

Nesta pequenina Belém, o Deus forte e poderoso poderá ser achado e adorado por todos. Se a nova morada de Deus sou eu, então poderei me aliar ao número incontável desse exército que marcha para cantar: “Um Menino nos nasceu! Um filho nos foi dado…” (Is 9,6)

Na noite do mundo, o Sol brilhou e em nós pode-se ouvir ressoar para acalentar o infante que trazemos em nós: dorme em paz ó Jesus, dorme em paz ó Jesus… jamais te retires daqui, somos tua casa, Pão da Vida; somos Tua Nazaré doce Menino; somos tua Jerusalém Menino-Deus, Ressuscitado que passou pela cruz!

Feliz Natal!

 

Vinicius Ribeiro

(Missionário da Comunidade Shalom – Fortaleza)

Assessoria Litúrgico-sacramental

 


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