Formação

O Espírito, primícia e prenda

comshalom

Passando de Lucas a Paulo, entra-se em uma perspectiva nova,teologicamente muito mais profunda. Ele enumera diferentes objetos dapromessa: a justificação, a filiação divina, a herança; mas o queresume tudo, o objeto por excelência da promessa, é precisamente oEspírito Santo, a quem chama de «promessa do Espírito» (Gál 3, 14) e«Espírito da promessa» (Ef 1, 13)

Duas são as idéias novas que o Apóstolo introduz no conceito depromessa. A primícia é que a promessa de Deus não depende daobservância da lei, mas da fé e portanto da graça. Deus não promete oEspírito a quem observa a lei, mas a quem crê em Cristo: «Recebestes oEspírito pelas obras da lei ou pela fé na pregação?», «Se a herançadependesse da lei, já não procederia da promessa» (Gál 3, 2.18)

Através do conceito de promessa, a teologia do Espírito Santo se liga,em Paulo, com o resto de seu pensamento e se converte em suademonstração concreta. Os cristãos sabem bem que é depois da pregaçãodo Evangelho que tiveram a experiência nova do Espírito, não por terobservado a lei com maior fidelidade que de costume. O Apóstolo poderemeter-se a um dado da realidade.

A segunda novidade é em certo sentido desconcertante. É como se Pauloquisesse cortar pela raiz toda tentação «entusiasta», dizendo que apromessa não se cumpriu ainda… ao menos por completo! A respeitodisso, são reveladores dois conceitos aplicáveis ao Espírito Santo:primícia (aparche) e prenda (arrabôn). O primeiro presente em nossotexto de Romanos 8; o outro se lê na Sagrada Carta aos Coríntios: «Nãosó ela, mas também nós, que temos as primícias do Espírito, gememos emnós mesmos, aguardando a adoção, a redenção do nosso corpo» (Rm 8, 23).«Ora, quem nos confirma a nós e a vós em Cristo, e nos consagrou, éDeus. Ele nos marcou com o seu selo e deu aos nossos corações o penhordo Espírito.» (2 Co 1, 21-22). «Aquele que nos formou para este destinoé Deus mesmo, que nos deu por penhor o seu Espírito (2 Cor 5,5).»

O que o Apóstolo quer dizer desta forma? Que o cumprimento operado emCristo não esgotou a promessa. Nós – diz com singular contraste –«possuímos… esperando», possuímos e esperamos. Precisamente porque oque possuímos não é ainda a plenitude, mas só uma primícia, umaantecipação, nasce em nós a esperança. É mais, o desejo, a espera, oanseio se tornam mais intensos ainda que antes, porque agora se sabe oque é o Espírito. Na chama do desejo humano, a vinda do Espírito emPentecostes colocou combustível, por dizê-lo de alguma.

Acontece exatamente como em Cristo. Sua vinda cumpriu todas aspromessas, mas não pôs fim à espera. A espera se relança sob a forma deespera de seu retorno na glória. O título «promessa do Pai» situa oEspírito Santo no próprio coração da escatologia cristã. Portanto, nãose pode aceitar sem reservas a afirmação de certos estudiosos para quem«na concepção dos judeus cristãos, o Espírito era primariamente a forçado mundo futuro; na dos cristãos helenos é a força do mundo superior».Paulo demonstra que as duas concepções não se opõem necessariamenteentre si, mas que podem coexistir: o Espírito é, ao mesmo tempo,realidade do mundo superior, divino e força do mundo futuro.

No passar das primícias à plenitude, as primeiras não se desfarão paradar lugar à segunda, mas elas mesmas se transformarão mais emplenitude. Conservaremos o que já possuímos e adquiriremos o que aindanão temos. Será o próprio Espírito que se expandirá em plenitude.

O princípio teológico «a graça é o início da glória», aplicado aoEspírito Santo, significa que as primícias são início do cumprimento, oinício da glória, parte dela. Neste caso, não é preciso traduzirarrabôn por «penhor» (pignus), mas só por prenda (arra). O penhor não éo início do pagamento, mas algo que se dá em espera do pagamento. Umavez que este se efetua, o penhor é restituído. Não assim as prendas,que não se restituem no momento do pagamento, mas que se completam.Fazem parte dos pagamentos. «Se Deus nos deu como penhor o amor atravésde seu Espírito, quando nos der toda a realidade, é que nos tirará openhor? Certamente não, mas completará o que já deu».

O amor de Deus que pré-experimentamos aqui, graças às prendas doEspírito, é então da mesma qualidade do que experimentaremos na vidaeterna, mas não da mesma intensidade. O mesmo se deve dizer da posse doEspírito Santo.

Como se vê, houve uma profunda transformação no significado da festa dePentecostes. Em sua origem, Pentecostes era a celebração das primícias,ou seja, o dia em que se ofereciam a Deus as primícias dacolheita. Continua sendo a festa das primícias, mas das que Deusoferece à humanidade, em seu Espírito. Inverteram-se os papéis dodoador e do beneficiário, em perfeita sintonia com o que ocorre, emtodos os campos, na passagem da lei à graça, da salvação como obra dohomem à salvação como dom gratuito de Deus.

Isso explica por que a interpretação de Pentecostes, como festa dasprimícias, não teve, estranhamente, quase nenhuma correspondência noâmbito cristão. Santo Irineu fez um intento em tal sentido, dizendo queno dia de Pentecostes «o Espírito oferecia ao Pai as primícias de todosos povos», mas praticamente não teve eco no pensamento cristão.


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