“Só quem se arrisca merece viver o extraordinário.” Essa frase vem de uma música que se tornou viral nas redes sociais e, geralmente, é postada junto a vídeos de esportes radicais ou desafios da internet.
Hoje em dia, muita gente quer mostrar muito, ser grande, ganhar mais, ser notado. Esse desejo de ser extraordinário nos faz pensar: o que é, de fato, o extraordinário?
O olhar dos Santos sobre o extraordinário
Santa Teresinha chamou a atenção de Jesus justamente por mudar a perspectiva da compreensão da santidade. Ela entendeu que, diante da imensidão de Deus, fazer grandes coisas não era o que mais atraía o olhar do seu Amado. Então, foi esperta: usou a sabedoria como dom e escolheu viver o caminho da “pequena via”, fazendo o que chamo de “pequeníssimas grandiosidades”.
O extraordinário dela foi perceber que Jesus se alegra em mostrar o único caminho que leva a essa fornalha divina: a entrega da criancinha que adormece, sem medo, no colo do Pai. Afinal, “Qual pai, ao ver o filho por mais travesso que seja chegar todo sujo de lama, com os olhos marejados, pedindo um colo, não soltaria tudo o que está fazendo para levantá-lo do chão e apertá-lo contra o peito?” É isso. É esse amor que não mede, não espera, só acolhe.
Creio que, sob essa mesma ótica, podemos compreender a frase de São José Marello:
“Seja extraordinário nas coisas ordinárias.”
A vida desse bispo italiano e fundador dos Oblatos de São José foi marcada pela simplicidade, pelo silêncio e pela caridade divina. Ele compreendeu que São José, o maior santo entre os homens, viveu a simplicidade da sua missão (que não era moleza… ser pai de Deus!). E, com um silêncio profundo, viveu a fidelidade a Deus pelo exercício das virtudes.
Missão: o envio cotidiano
Nós já ouvimos muitas vezes que Santa Teresinha é padroeira das missões, mesmo sem nunca ter saído do Carmelo. Já parou para pensar por quê? Qual é a raiz dessa experiência missionária? A palavra “missão” vem do grego antigo apostolē (ἀποστολή), derivada do verbo apostellō (ἀποστέλλω), que significa “enviar”.
Ir em missão não é só fazer as malas e viajar, a não ser que seja vontade de Deus, isso só geraria frustração sobre frustração. Missão é muito mais que isso: é ação baseada em um testemunho, com o objetivo de evangelizar. Então, viver o Evangelho onde você está, no dia a dia, para que todos conheçam Cristo, é um movimento missionário por excelência.
O lugar de Teresinha era o Carmelo de Lisieux, mas ela quis colaborar com o anúncio de Jesus a todas as pessoas. Como? Pela oração fervorosa e insistente pelos missionários, em comunhão com a Igreja, Corpo Místico de Cristo.
A dimensão trinitária da missão
A missiologia, que é o estudo sistemático da atividade evangelizadora da Igreja e dos meios para realizá-la, revela que o carisma missionário só pode ser compreendido dentro de uma realidade teocêntrica (com Deus no centro) e trinitária, na qual somos chamados a ser povo de Deus, corpo de Cristo e templos do Espírito Santo. Como afirma o Decreto Ad Gentes, do Concílio Vaticano II:
“A Igreja peregrina é, por natureza, missionária, pois ela se origina da missão do Filho e da missão do Espírito Santo, segundo o desígnio de Deus Pai.”
No fim das contas, me parece que, para Deus, o extraordinário não está nas alturas que alcançamos, mas na profundidade com que vivemos o ordinário. No modo como vivemos o nosso chamado, que é extremamente pessoal, mesmo sendo semelhante, para cada sacerdote, celibatário ou casal, todos comungam de características práticas na vida, mas exercem sua individualidade para tornar o Corpo Místico de Cristo ainda mais belo e santo.
O extraordinário cotidiano
Anos atrás, li uma bela poesia que falava sobre a Comunidade de Aliança e narrava, tão simplesmente, o extraordinário cotidiano de um consagrado que acorda, beija o tau e parte em missão.
Talvez, durante toda a sua vida, você não pregue em um grande retiro, nem alguém saiba seu nome e sobrenome (no Shalom, a gente já sabe que é alguém conhecido quando usam essa formatação — kkk). Talvez você não tenha vocação para a vida consagrada na Comunidade. Talvez o seu extraordinário seja estar vendendo terços na livraria, lavando os banheiros de um acampamento (tenso), acompanhando alguém, pastoreando um grupo de oração ou fazendo a coleta na missa. Talvez o seu extraordinário seja enxugar as lágrimas de um colega de trabalho que passa por um tempo difícil em casa, ou animar aquela pessoa que vive de cara fechada na faculdade.
Viver tudo isso na sua plena essência, sem dúvida, é viver o extraordinário. É arriscar-se na radicalidade evangélica e na “violência de coração”, arriscar, muitas vezes, não ser compreendido pela própria família ou amigos, mas com o desejo de concluir a missão na plenitude da presença de Deus, que é o céu. É saber que, se eu fui enviado por Deus, certamente é para que eu volte para Ele ao final de tudo.
Certamente, o seu extraordinário será sempre exercer a sua missão no sacratíssimo tempo que se chama “hoje”, e cantar com Pe. Zezinho: “Quando Jesus passar, eu quero estar no meu lugar”, fazendo o que Ele me confiou com tanto amor. Hoje, Deus quer te enviar em missão para a sua casa, para o seu trabalho, para a sua faculdade, para o seu ministério.
O solo que você pisa é santo, e onde você está hoje é fruto da ação de Deus, que inspirou missionários a difundir o Evangelho. Sejamos como eles para as próximas gerações.
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