Ao redor do Mar da Galiléia (ou Lago Tiberíades) estavam cinco mil homens, fora as mulheres e crianças. Jesus pergunta a Filipe onde comprariam pão para alimentar tanta gente. Ele o faz só para prová-lo, pois sabia o que iria fazer. André vem com um menino que tem cinco pães de cevada ( um pão de gente pobre) e dois peixes, e pergunta ao Mestre meio sem graça: “o que é isso para tanta gente?”. Mas “isso” era tudo o que Jesus queria, uma fé simples e “pequena” como o menino, e aquele gesto de partilha.
Fico pensando: se fosse um adulto, ele teria coragem de se aproximar e oferecer aquela porção tão pequena, para ajudar alimentar tanta gente? O menino estava todo naqueles pães e peixinhos e de alguma forma ele cria que Jesus podia fazer qualquer coisa com eles, ou se não pudesse fazer ainda tal reflexão, pelo menos ele sabia que estaria agradando aquele Homem que fazia e falava coisas tão bonitas, que enchiam de alegria e paz o seu coração, mesmo sem entender muito bem. Jesus o atraia, o menino não entendia, mas confiava, e se dava todo naquele pouco, quase nada, como aquela gota de água que o sacerdote coloca no cálice com vinho, na celebração eucarística.
O que veio depois nós conhecemos bem, afinal, esse milagre é contado seis vezes nos evangelhos, pois marcou profundamente a comunidade cristã primitiva.
Depois de orientar os discípulos a fazerem todos sentarem, Jesus deus graças pelos alimentos que o Pai providenciou e os mandou distribuir. Todos ficaram saciados, daí Ele disse as palavras que hoje são o centro da nossa reflexão: “- Recolhei as sobras para que nada se perca”. E encheram doze cestos.
Jesus está inteiro no todo e no fragmento. Por isso nada pode se perder. No pão eucarístico, um pequeno fragmento contém Deus! Por isso eu saio da fila da comunhão e examino com cuidado minhas mãos e dedos, porque Ele está todo no Fragmento.
Jesus é capaz de saciar não só o ventre mas toda a minha alma, toda a minha vida com um Fragmento Seu, preciso apenas de uma fé simples, porém expectante, como costuma dizer nosso fundador Moysés Azevedo. Ele todo em mim, aparentemente numa minúscula partícula, é capaz de unificar-me, encher-me de paz e alegria, consolar e curar tudo em mim.
Fiquei me perguntando se estou inteira em cada pequeno gesto, se todo o amor que experimentei e trago está em tudo o que faço, se estou desperdiçando o Amor que me é dado para distribuir com largueza. O desejo de Deus é que nada da sua graça se perca. Nem ninguém se perca. Seu desejo é salvar todos os homens. E fiquei também pensando em cada momento que escolhi me fechar, não me expor, não partilhar, pensei nos momentos em que escolhi a mim mesma…
Então divido esses questionamentos com você: Estamos atentos a este desejo de Deus de salvar todos os homens? Conseguimos saciar de amor alguém com um sorriso, um bom dia? Talvez uma mão no ombro e a pergunta: “está tudo bem com você?”, sejam o suficiente para aliviar um irmão que precisa desaguar suas dores no odre do seu coração atento. Se eu estiver todo naquele momento para o outro, Jesus também estará todo em mim para ele, porque o Senhor não precisa de muito para saciar os que Ele ama, apenas dos nossos cinco pães e dois peixinhos.
Às vezes subestimamos o alcance da graça e do amor de Deus nas atitudes escondidas que vivemos, ou esperamos um momento heroico para manifestar nosso amor a Deus e ao próximo. Quem nunca?… Mas é sendo saciados por Jesus na oração, na eucaristia, na presença frágil dos irmãos, nas dores e alegrias de cada momento tão ordinário, que Deus vai unificando e gerando inteireza interior, nos fazendo ser uma única pessoa, independente da ocasião e do lugar onde nos encontramos, então saberemos amar como Ele em cada pequena coisa: num afastar para que o outro passe apressado sem julgá-lo, num ceder a última vaga daquele voo para um desconhecido. Nessas e em inúmeros outros “fragmentos” da nossa vida que passarão despercebidos, estaremos dando Jesus todo para quem precisa, sendo coerentes com o que experimentamos, com o que cremos, e com a meta que escolhemos para a nossa vida, que é a santidade.
Mas você pode pensar: “-Peraí, essa história da última vaga, não é pequena coisa não, viu?”
Bem, para quem tem como referência um Amor que se humilhou e se esvaziou, que deu tudo de Si a nós, e que nos uniu a Ele para sempre, não é uma coisa tão grande assim…
Que o Senhor ressuscitado nos faça pequenos, porém cheios de fé, e que nos nutrindo Dele no ordinário da vida possamos estar inteiros em cada palavra e cada gesto, e saciar com Sua presença os que têm fome e sede de amor, paz e alegria.
Recebe, Senhor, tudo o que tenho, e tudo o que sou…
Cristo ressuscitou, Aleluia!
