-Ressuscitou, de verdade!
-Sim, o Senhor ressuscitou! Aleluia!
Era assim que eles, os cristãos, gritavam uns aos outros pelos caminhos, se cumprimentavam nos povoados e lugarejos, onde quer que se encontrassem. Como conter aquela exclamação? A alegria e a parresia haviam dissolvido aquele nó na garganta de dor e de medo, porque o Senhor ressurgiu, voltou à vida, ressuscitou! De verdade!
Jesus sepultando a morte, “rompeu o inferno ressurgindo vencedor”¹, mas não o fez com estardalhaço, com barulho, ou efeitos especiais. Sim, Ele construiu de uma vez para sempre a ponte entre Deus e o homem, inquebrantável e eterna. Nos reconciliou com o Pai, conquistou para nós a vida sem fim, onde não haverá mais lágrimas. Realizou a Paz conosco, em nós e entre nós. Tudo isso sem alarde, tanto é, que a única testemunha do momento exato da ressurreição de Cristo foi aquela bendita e memorável noite.
Depois que ressuscitou, Jesus não se expressa mais nos evangelhos, em Atos ou em Paulo “exclamando”, que quer dizer falando alto, gritando. Vê-se o verbo “dizer” e não mais “exclamar” , como Ele fez várias vezes.
Sabe onde Ele grita? Na vida dos apóstolos, de Madalena, dos primeiros cristãos.
O grito daquela Paz inabalável feita entre Deus e os homens, ecoa, e ensurdece ou desimpede os ouvidos daqueles que o escutam.
A salvação consumada, ordenada, na vida daqueles homens e mulheres conhecidos nas suas vizinhanças deixam todos interrogados: prostitutas assumem uma vida modesta, pobres e desvalidos agora têm irmãos, casa, alimento e cantam felizes pelas ruas como nobres distribuindo seus tesouros, ladrões que outrora viviam de defraudar pessoas, agora oferecem préstimos ou procuram trabalho honesto, e mesmo quando são escorraçados perdoam aqueles que o fazem e os abençoam dentro de si, famílias agora vivem o respeito e a pureza conjugal, grande novidade para os costumes pagãos do império romano. Rebeldes e agitadores de massas compreendem que acima de um poder temporal há outro Senhor que tudo governa e submete, e agora seguem as leis de outro Reino, sem deixar de cumprir as de César. Quem os escutava, escutava “a voz Ressuscitado”.
A vida nova gritada na vida dos primeiros cristãos chegou a ser descrita num documento para autoridades romanas (Carta a Diogneto), tal era o impacto que ela estava causando naquela sociedade, pois eles viviam no mundo como se não fossem deste mundo. E eram minoria… no entanto, basta um pouco de fermento para levedar toda a massa. Que tipo de fermento eu sou?…
Os que tapavam os ouvidos seguiam suas vidas sem aquela alegria desconcertante, sem aquela esperança incompreensível, seguiam vivendo sem viver, como zumbis, sem dar espaço para que a ressurreição de Cristo os libertasse de velhas estruturas. Talvez o medo de se identificar com tantos pobres e feridos, o medo de tocar nas próprias lepras, de perder o que se considerasse grandes riquezas, ou o medo de ser ferido no próprio orgulho… nada, porém, justifica não deixar que o Amor se aproxime, o toque e o faça feliz. Desimpeçamos os nossos ouvidos para o Amor verdadeiro, para a alegria e liberdade que só o Ressuscitado pode nos dar, a fim de que nós e todo o mundo possamos exclamar: Cristo é a nossa Paz²!
Hoje eu quero gritar, cantar, adorar, chorar de alegria, porque Cristo abriu as portas do meu cárcere, me perdoou toda a minha culpa, me desposou para sempre numa aliança eterna e sussurra ao meu coração uma única, densa e amorosa palavra: Shalom!
Sim, Ressuscitou! Do abismo da morte Ele me salvou!
¹Trecho do Exultet
² Cf. Ef 2, 14
