Era o amigo que sempre sonhou. Já o admirava desde a infância; na adolescência se aproximaram e juntos cresceram. Estava sempre presente em todos os momentos de sua vida. Para ele contava seus segredos mais íntimos. Partilhava dores e alegrias. Inseparáveis. Saíam, jogavam, faziam novas amizades, curtiam, também estudavam… Sentir sua ausência era quase inimaginável, seria como perder o ar! Só em pensar o enchia de beijos e dizia: ele é meu melhor amigo.
A luz e a presença do amigo era constante, com ele não sentia o vazio, principalmente nas noites mais escuras e solitárias quando o coração parecia gritar de angústia. Pra animar, logo acontecia dele providenciar um encontro com a galera, contar uma fofoca, ouvir uma música nova ou jogar conversa fora. Como se sentir sozinho com um amigo assim, que entende e sabe de tudo? Que a cada ano que passa me conhece mais ainda? E sem reclamar atende todas as minhas necessidades e, além de tudo viaja comigo e me mostra caminhos que devo seguir em qualquer parte do mundo que eu vá? Ele é muito top!
Só que um dia ouviu-se gritos, eram de uma dor muito profunda. O amigo estava lá, mas não conseguia qualquer reação daquele que gemia fortemente por semanas. Chamava, chamava, não era atendido. Percebeu que a relação já não era mais a mesma, tinha esfriado. Perdera o domínio. Há muito não compartilhavam as mesmas coisas e nem mesmo curtiam como antes. Era um silêncio ensurdecedor. O amigo não conseguia processar o significado daquelas reações tão atípicas. Não conhecia…
Até que ambos descarregaram: um por solidão, o outro por indiferença. O melhor amigo desconectou-se. Foi um engano. Não fora capaz de captar o pedido de socorro e muito menos de decifrar as necessidades ecoadas daqueles gritos por alguém, depois de anos de “amizade”. O único amigo, o celular, agora era apenas um objeto! Descartável.
São milhares de gritos por alguém, que de mãos estendidas buscam uma palavra, um apoio, deixando claro a necessidade de ser preenchido por um gesto de carinho e amizade. Por um minuto de atenção real. Tais gritos são dos desconectados. Dos desconectados do próximo, do outro, de alguém. Já não conseguem conviver, conversar ou ir além de uma tela fixa ou do seu mundo próprio. Não se arriscam.
Nesta quinta-feira santa, é interessante perceber que Jesus, sabendo que seria traído, negado e abandonado, mesmo assim reúne os discípulos em uma última ceia. Lava os pés de seus amigos e junto com eles, arrisca-se e institui o mandamento do amor: “Amai-vos como eu vos tenho amado”.
Ele nos ensina o caminho da fraternidade, da amizade e do perdão. Chama seus discípulos de amigos, coloca em comum toda a sua pobreza e se faz um com eles, revelando tudo que ouviu do Pai. Faz deles seus confidentes. Jesus mostra em que consiste a essência dessa amizade. Era completamente conectado aos amigos.
Gritar por alguém é um sinal de alerta. É reconhecer que o celular não é o fim, mas o meio que me leva ao encontro de e para o outro. Coragem! Como diz o filósofo, “a amizade só é bem sucedida se estivermos dispostos a morrer sempre de novo. Precisamos desvincular do outro nossas pretensões, nossas reivindicações de posse, nossa expectativa. A amizade cresce quando se quebram as molduras que fizemos do outro. Às vezes a amizade passa pelas trevas. Tudo o que havíamos confiado se rompe. Nós nos metemos em campo estranho. E para ser um com o outro precisamos morrer, precisamos romper nosso ego, para que se abra ao outro. Por isso vejo na morte de Jesus uma imagem da amizade verdadeira. Só quem passa pela morte do próprio ego pode avaliar a profundeza de uma amizade”.
Bom, com celular ou sem celular, com certeza Alguém vai te escutar. Você não estará sozinho! Tornar-se amigo significa tornar-se humano.
