Na semana de comemoração dos 40 anos da vocação Shalom, apresentamos uma abordagem antropológica a partir do estudo dos Escritos e Estatuto da Comunidade Católica Shalom, identificando as características presentes nesse Carisma que elevam o homem, antes desfigurado pelo pecado, a uma nova possibilidade de santidade e de paz.
1- A consciência de existir em um mundo
Desde os tempos mais antigos, o homem deseja compreender-se, entender quem é, perceber de onde veio e para onde vai, descobrir se sua vida tem um sentido que ultrapasse a simples sucessão de dias e de trabalhos com o objetivo de autossubsistência. O anseio por compreender-se já é esforço de transcendência, torna-se afirmação de que é consciente do mundo que o rodeia e de que é chamado a tomar parte ativa no desenvolvimento desse universo. Olhar para fora de si é ato profundamente humano, pois não é a autoafirmação que o determina, mas o tender para o outro.
Exatamente nessa tensão de sair do seu ego para conhecer o que lhe está em torno, o homem começa a peregrinação rumo à descoberta de quem é: descobre-se ao não permanecer isolado. Já dizia Buber que « a vida do ser humano não se restringe apenas ao âmbito dos verbos transitivos. Ela não se limita somente às atividades que têm algo por objeto. (…) Não há EU em si, mas apenas o EU da palavra-princípio EU-TU e o EU da palavra-princípio EU-ISSO.»[1] O Eu humano precisa do outro para desabrochar suas potencialidades e para perceber-se, dessa forma, revela-se que a relação, (o viver com, o interagir, etc.) é essencial para que a natureza humana[2] se perceba como tal. Émile Durkheim afirma que é justamente o fato de não pensar apenas por preceitos individuais, ou seja, o fato de ser um ser social, que distingue o homem dos demais animais.[3]
O debate sobre a definição do homem é tão antigo quanto a existência deste no mundo. Os antigos partiam de um duplo princípio negativo, antes de chegar a alguma afirmação: o homem se distingue do simples animal irracional, e o homem não é Deus. O sábio percebia-se diferente do que estava em sua volta, tanto no que dizia respeito à esfera material e visível – o mundo animal- como no que se reportava à realidade cultual.
Havia certa participação na animalidade mas percebia-se infinitamente superior à esta, capaz de adentrar em um mundo de realidades composto por entidades não materiais. Assim, a famosa afirmação do homem como sendo um animal racional ultrapassa o sentido que o vulgar lhe dá. A racionalidade (não confundir com o racionalismo) é afirmação da natureza espiritual do homem.
O homem pode conceber, julgar e raciocinar, colocar em relação as formas que lhe vêm à mente e produzir algo que lhe é próprio a partir delas. Assim a própria maneira de tomar consciência da realidade ultrapassa o material, por uma intuição que abstrai para a sua mente e em sua mente a essência daquilo com o qual está em contato. O homem produz linguagem em vistas de comunicar-se, de relacionar-se. Nesse processo de interiorização das realidades se forma uma escala de valores, descobre-se aquilo que deve ser nobre e importante, que lhe faz bem pessoalmente e socialmente, daquilo que é nocivo e deve ser evitado para si e para o outro.
Essa escala de valores se confronta com a escala de valores de seus semelhantes, e vai-se percebendo um certo denominador comum. A moralidade assim tornou-se um princípio de humanidade desde os tempos mais antigos, como vemos dizer Aristóteles: « Só uma coisa é próprio aos homens com relação aos animais: o fato de que apenas os homens possuem a percepção do bem, do mal, do justo, do injusto e de outras noções desse gênero. »[4] A própria Igreja afirmará a capacidade do homem de discernir o bem e o mal, através da consciência que possui: “No fundo da própria consciência, o homem descobre uma lei que não se impôs a si mesmo, mas à qual deve obedecer; essa voz, que sempre o está a chamar ao amor do bem e fuga do mal, soa no momento oportuno, na intimidade do seu coração: faze isto e evita aquilo”.[5]
2- O homem e Deus
Uma das preocupações do ser humano ao perceber-se foi de determinar o que lhe é próprio, o que lhe diferencia do animal irracional e “dos deuses”. Assim pode-se notar que uma das características comum a todos os povos sempre foi a religiosidade. A primeira seção do Catecismo da Igreja Católica inicia-se com esta afirmação sobre o homem: “O desejo de Deus é um sentimento inscrito no coração do homem, porque o homem foi criado por Deus e para Deus. Deus não cessa de atrair o homem para Si e só em Deus é que o homem encontra a verdade e a felicidade que procura sem descanso”.[6]
O documento do Concílio Vaticano II Gaudium et Spes afirma com eloquência: “A razão mais sublime da dignidade humana consiste na sua vocação à comunhão com Deus. Desde o começo da sua existência, o homem é convidado a dialogar com Deus: pois se existe, é só porque, criado por Deus por amor, é por Ele, e por amor, constantemente conservado: nem pode viver plenamente segundo a verdade, se não reconhecer livremente esse amor e não se entregar ao seu Criador”[7]
Os antigos já percebiam que o homem só poderia se conhecer profundamente diante do olhar de Deus: « Sem dúvida, quanto mais os espelhos são claros, mais pura e luminosa a luz; assim, sendo Deus o ser mais puro e mais luminoso que existe, vemos no espelho de seu olho o que há de melhor em nossa alma.[8]
O Catecismo afirma que o homem é um ser religioso[9], tendo sempre, desde que tem a consciência de si mesmo, procurado saciar a sede de Deus que descobre em si. O coração do homem, seu ser mais profundo busca a Deus mesmo que ainda não o conheça, mas percebe em si uma sede de infinito, de amor e de beleza. Seu coração só encontra repouso, paz, quando em Deus repousar[10]. Sim, “Deus será em tudo o repouso e a paz”[11]. Ē diante de Deus que o homem conhece sua origem e sua finalidade, mas também se conhece, pois foi criado por Deus, e criado à imagem e semelhança de Deus[12].
A visão bíblica do homem já revela que este não é independente de Seu Criador, mas que toda a sua dignidade consiste em viver relativo a Deus na obediência à Sua Vontade.
Impossível pois de conceber o ser humano sem a referência a Deus. A própria noção de independência de Deus é uma ilusão, pois Deus não cessa de lhe conferir a existência. O Cardeal Murphy O’Connor escreve:
O homem não é nada mais do que um dos termos de uma relação à dois, sendo o outro Deus, Seu Criador. A multiplicidade dos termos que encontramos nas epístolas paulinas para designá-lo (corpo, carne, espírito, alma, coração, inteligência…) reflete de maneira atenuada a linguagem extremamente rica e diversa do Antigo Testamento. Para os hebreus, como para Paulo, esses termos possuem uma conotação totalmente diferente de um sistema médico coerente, perfeitamente expressa por J.A.T. Robinson: ‘todo o pensamento hebraico se movimentava, de fato, nessa dimensão vertical da relação do homem com Deus…como consequência, todas as palavras que concernem a vida e a estrutura do homem são a considerar como designando ou qualificando essa relação fundamental do homem com Deus. As partes do corpo são pensadas, não em primeiro lugar do ponto de vista de suas diferenças e de sua inter-relação com as outras partes, mas como significando ou sublinhando diferentes aspectos do homem total na sua relação com Deus. (…) Toda a riqueza da terminologia semítica quanto ao corpo e às suas funções convergem para um ponto: o sentido profundo da natureza do homem tomada sob o ângulo teológico.[13]
Sendo o homem criado por Deus à Sua imagem e semelhança, permanece para si mesmo um enigma longe de Seu Criador. Tendo sido ferido pelo pecado, não pode por si mesmo voltar à intimidade original que possuía com Deus, e precisa acolher em sua vida o ato salvífico de Deus que é posto ao enviar Seu Filho Cristo Jesus, autor de nossa salvação e que nos permite voltar à comunhão perdida com Deus. Nesse processo de salvação, o homem descobre que não apenas estava perdido de Deus- e que o havia perdido- mas que tinha se tornado um mistério para si mesmo. O homem não mais se conhecia. Diz-nos o Cardeal Ladaria: “Cristo, ao revelar o mistério do Pai e de seu amor, desvela também plenamente o homem ao homem e lhe faz conhecer sua altíssima vocação (GS 22). Enquanto destinatário da revelação, o homem é objeto dessa revelação. Enquanto destinatário do amor do Pai, chega a conhecer até as últimas consequências quem é ele mesmo. A verdade revelada é verdade de salvação. É justamente essa verdade que nos diz quem é o homem, fazendo-nos conhecer ao que ele é chamado; precisamos pressupor uma coerência fundamental entre nosso ser e nosso destino se não queremos que este último apareça como algo meramente exterior a nós mesmos, que não nos realiza interiormente”.[14]
Podemos assim concluir que o homem é plenamente homem quando vive em comunhão com Deus.
3- O homem desfigurado
Orígenes, falando sobre o tema do homem enquanto imagem de Deus, a partir do episódio da conhecida resposta de Jesus sobre o dever de pagar impostos, em Mt 22,21, explica o drama que vive a humanidade após o pecado: “Existem duas imagens no homem: uma que recebeu de Deus na criação, como diz o Gêneses: ‘à imagem de Deus e à sua semelhança o criou’ (Gn1,27). A outra, a imagem do homem ‘terrestre’ (I Co15,49), que recebeu por causa de sua desobediência e de seu pecado, quando foi expulso do paraíso, seduzido e atraído pelo ‘príncipe deste mundo’ (Jo 12,31). Jesus ordena assim de dar essa imagem que não nos pertence, arrancá-la de nosso rosto para acolher aquela segundo a qual, no início, fomos criados à semelhança de Deus. Assim damos a César o que é de César e a Deus o que é de Deus. Também Paulo dirá que ‘assim como portamos a imagem do terreno, portemos também a imagem do celeste’ (I Co 15,49). As palavras: dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus significam: rejeitai a figura do homem terrestre para assumir a imagem do homem celeste e assim dar a Deus o que é de Deus”.[15]
O pecado desfigurou o homem, e viver no pecado significa destruir a si mesmo. O pecado desumaniza o homem, ele torna-se cada vez menos homem ao se entregar à uma vida de distanciamento de Seu Criador. Essa vida é fechada em si mesma, determinada por suas feridas e a absolutiza as próprias experiências elevando-as ao rangue de realidade per si. Mesmo o especialista que não acredite em pecado, por não viver na esfera religiosa, é capaz de reconhecer as desordens causadas pelo pecado e pode identificar realidades que são nocivas à pessoa humana como à toda sociedade. A própria psicologia, em algumas de suas escolas, reconhece que o homem não pode ser determinado pelo princípio mais instintivo de sua natureza. A título de exemplo cito Viktor Frankl: “A existência humana não é autêntica se não for vivida em termos de autotranscedência”[16]; diz o mesmo autor: “O Ego nunca pode ser derivado da impulsividade”[17].
A Igreja, perita em humanidade[18], nos diz em Gaudium et Spes: O que a Revelação divina nos dá a conhecer, concorda com os dados da experiência. Quando o homem olha para dentro do seu próprio coração, descobre-se inclinado também para o mal, e imerso em muitos males, que não podem provir do seu Criador, que é bom. Muitas vezes, recusando reconhecer Deus como seu princípio, o homem perturbou, por isso mesmo, a sua ordenação para o fim último e, ao mesmo tempo, toda a harmonia consigo próprio, com os outros homens e com toda a criação[19]
O mundo marcado pelo distanciamento de Deus acaba sofrendo as consequências desta opção dramática. Assim escreve Moysés Azevedo, fundador da Comunidade Católica Shalom: “Ē aí que se manifesta o desígnio de Deus para a nossa vocação. Em um mundo marcado pelo pecado, que errou bastante acerca do conhecimento de Deus, onde reinam tantos males, o ocultismo, a não conservação da pureza nem na vida, nem no matrimônio, a impureza, o adultério, sangue, perseguição dos bons, esquecimento da gratidão, impureza das almas, inversão sexual, desordens no casamento, despudor e etc, e ainda se diz ‘em paz’(Sb14,22-26) ; o Senhor nos chama a ser anunciadores da Sua Paz (Is 52), a viver e proclamar a Sua Paz“.[20]
Nesta citação vemos uma relação direta entre pecado e ausência de paz. A paz significa “a felicidade perfeita, a salvação que o Messias viria dar, a plenitude da PAZ. A verdadeira paz (…) não vem dos homens, mas de Deus”[21]. O pecado gera desordem, desarmonia e um estilo de vida caótico pois o homem passa a ser governado pelo que foi ferido em sua natureza. A cura da natureza humana que começa pela experiência com o Ressuscitado que passou pela Cruz, Cristo, e que continua por toda uma vida vivida na Graça de Deus, em união com Cristo, é o caminho para a harmonia no homem, que gera a verdadeira paz. O homem recriado em Cristo, novo Adão[22] (isto é, novo homem !) é o homem salvo, reconciliado com Deus e com todo o cosmos, pacificado. A Paz é uma expressão da natureza humana que foi resgatada de suas feridas e desordens.
A Paz revela a plenitude da natureza humana. O homem criado à imagem e semelhança de Deus, salvo em Cristo, feito filho no Filho e por isso sendo elevado à uma nova dignidade, chamado a viver a vida divina, segundo a dinâmica da Trindade, no Espírito Santo, é um homem novo, que não mais deve ser arrastado por paixões desordenadas. São Paulo explica essa nova realidade vivida pela humanidade em Cristo, na carta aos Romanos: “Ou ignorais que todos os que fomos batizados em Jesus Cristo, fomos batizados na sua morte? Fomos, pois, sepultados com ele na sua morte pelo batismo para que, como Cristo ressurgiu dos mortos pela glória do Pai, assim nós também vivamos uma vida nova. Se fomos feitos o mesmo ser com ele por uma morte semelhante à sua, sê-lo-emos igualmente por uma comum ressurreição. Sabemos que o nosso velho homem foi crucificado com ele, para que seja reduzido à impotência o corpo (outrora) subjugado ao pecado, e já não sejamos escravos do pecado. Pois quem morreu, libertado está do pecado. Ora, se morremos com Cristo, cremos que viveremos também com ele, pois sabemos que Cristo, tendo ressurgido dos mortos, já não morre, nem a morte terá mais domínio sobre ele. Morto, ele o foi uma vez por todas pelo pecado; porém, está vivo, continua vivo para Deus! Portanto, vós também considerai-vos mortos ao pecado, porém vivos para Deus, em Cristo Jesus. Não reine, pois, o pecado em vosso corpo mortal, de modo que obedeçais aos seus apetites. Nem ofereçais os vossos membros ao pecado, como instrumentos do mal. Oferecei-vos a Deus, como vivos, salvos da morte, para que os vossos membros sejam instrumentos do bem ao seu serviço. O pecado já não vos dominará, porque agora não estais mais sob a lei, e sim sob a graça”. [23]
A atmosfera na qual se desenvolve uma humanidade nova é a Graça. Podemos agora, tendo colocado algumas bases[24] filosóficas, sociológicas e teológicas, analisar com mais profundidade a visão do homem segundo o Carisma Shalom.
4- O ser humano à luz do Carisma Shalom: santidade como única forma de alcançar a plenitude do ser.
Os Estatutos da Comunidade Católica Shalom começam com o seguinte parágrafo, no seu preâmbulo: “Ao encontrar os discípulos no Cenáculo, Jesus Ressuscitado lhes disse: Paz a vós (Jo 20,19), ou seja, Shalom ! Em Jesus, esta saudação é uma real comunicação da Paz, isto é, de toda sorte de bênçãos espirituais e materiais, a felicidade perfeita que o Messias nos traz. Ē, enfim, o anúncio e a doação da salvação plena. (..) Por isso, o Apóstolo diz: Cristo é a nossa Paz“ (Ef 2,14).[25]
A chave de compreensão para o mistério da pessoa humana se encontra na pessoa de Cristo. Cristo é modelo do homem essencialmente na sua entrega ao Pai e à humanidade por amor, no Espírito, como resposta ao amor infinito do Pai para com Ele. Cristo assumiu toda a nossa humanidade, toda a nossa natureza, todo o nosso ser, e essa assunção tem o poder de criar uma humanidade nova, um homem novo, humanidade totalmente referente à Deus e que vive em estado oblativo. Assim, o Carisma Shalom enxerga o homem na perspectiva da nova criação operada em Cristo. O fruto dessa obra de Cristo se enxerga no parágrafo seguinte dos mesmos Estatutos: Inseridos no seio da Trindade por meio do Coração transpassado de Cristo, nela contemplamos o Amor do Pai, bebemos do poder e da santidade do Espírito e, enxertados em Cristo, somos enviados ao mundo para anunciar a Boa Nova da salvação.[26]
Neste artigo dos Estatutos a dimensão relacional do homem que o configura em uma forma de vida oblativa. Este homem vive constantemente « em estado de saída ». O homem segundo o Carisma Shalom faz em primeiro lugar e sempre a experiência de ser salvo por Cristo, salvo de maneira gratuita e amorosa. « O que não é assumido não é salvo, enquanto aquilo que é unido a Deus, isso se salva. Aquilo que transgrediu tinha necessidade de salvação (…) »[27] Unido a Deus, enxertado em Cristo, como os ramos na videira[28], se alimenta da seiva do Espírito e vive no seio da Trindade a vida de filho no Filho. Esse homem é assim enviado ao mundo para anunciar a Boa Nova de uma existência totalmente renovada pelo interior, Obra de Deus por Cristo e no Espírito no ser do homem que a deseja e a acolhe.
O homem segundo o Carisma é sempre enviado, é sempre voltado para o outro (voltado para Deus e para os homens), em outras palavras, é essencialmente missionário, porque deseja dar de graça o que de graça recebeu. O homem segundo o Carisma é obra nova da Graça de Deus, e por isso vive da Graça.
A Obra de Cristo no ser do homem é mais uma manifestação do poder criador de Deus[29]. Ē marcado por uma fé e uma confiança absolutas, dons que o abrem a viver acolhendo a Graça de Deus que não cessa de se derramar.
Esse homem tem consciência de que tudo foi conquistado por Jesus, mas que é na sua vida que esse “novo de Deus”, que é a sua nova humanidade em Cristo, deve se desenvolver e desabrochar. O homem precisa assim ter consciência de que se trava na sua carne uma luta entre a existência de uma humanidade ferida pelo pecado e a nova humanidade que encontra sua Paz em Cristo. Assim, é um homem de luta, um guerreiro que deve matar o velho que há nele e deixar florescer o novo; deixar Jesus (na oração e através da vida, do contato com os irmãos, na formação) libertá-lo.[30]
A visão que o Carisma tem do homem é muito encarnada, porque Cristo, ao redor do qual gira o homem e do qual vive a nova humanidade, se encarnou e realizou toda a Sua Obra na carne humana. A carne do homem não é algo da qual este deve fugir ou sentir-se tentado a negar, porque ela foi o lugar no qual se operou a salvação do mundo.
A corrupção e a morte não têm mais poder sobre os homens, graças ao Verbo que habita neles com seu único Corpo. Quando um rei entra em uma cidade e passa a morar nela, toda esta cidade se torna objeto de grande honra e nenhum bandido ou inimigo ousa assaltá-la. O mesmo aconteceu com o Rei de todos. De fato, uma vez que chegou à nossa terra e passou a morar em um corpo como o nosso, cessou todo o poder dos inimigos contra os homens e desapareceu a corrupção da morte.[31]
A carne humana redimida e assumida por Cristo é livre. A verdadeira liberdade humana segundo o Carisma Shalom não é a faculdade de fazer o bem ou o mal, mas a faculdade de fazer o bem e de fazê-lo livremente. Para o Carisma, que é iluminado por toda a Tradição da Igreja, o homem é livre quando é fiel à Vontade de Deus, quando pauta seu agir à partir do parâmetro absoluto da Vontade de Deus.
O Carisma Shalom afirma que a “santidade é a única forma de ser plenamente homem. Santidade: deixar-se transfigurar em Cristo. Isso é tarefa da Graça! Mas cabe a nós aspirá-la em tudo e com ela cooperar”[32]. Portanto, a santidade cristã consiste na união com Cristo, Verbo encarnado e nosso Redentor, fonte de toda Graça e santificação.
O processo de recriação à imagem de Cristo se inicia com uma experiência pessoal com Cristo Ressuscitado que passou pela Cruz e que derrama abundantemente o Seu Espírito sobre a humanidade. A graça da efusão do Espírito Santo é uma experiência que pode ocorrer na vida do fiel inúmeras vezes, e renova inteiramente o seu ser. O Carisma crê que justamente porque nessa vida o homem permanece frágil, este é chamado a clamar ao Espírito para que inflame sua alma e o impulsione ao Amor infinito. E a este clamor, o Espírito virá e impulsionará sua alma, suas orações e seu coração. Um coração inflamado por este amor tudo realiza, a tudo se dispõe.[33] O homem pode assim se dispor a tudo e tudo realizar porque experimenta em sua própria carne que para Deus nada é impossível.
Daniel Ramos
Missionário da Comunidade de Vida Shalom na França
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[1] BUBER, Martin, Eu e Tu, Ed. Cortez e Moraes, 2a edição revista, São Paulo, 1979, p.4
[2] O termo de « natureza » para designar o que é essencialmente humano caiu em desuso nas ciências humanas, com a justificativa de que todos os genocídios feitos ao longo da história foram realizados devido às diversas concepções do que é a natureza humana. Assim a filosofia contemporânea, especialmente com Jean-Paul Sartre, passou a afirmar que a existência precede a essência, determinando que o homem pode decidir o que ele quer ser, sem preocupar-se com nenhuma ideia de natureza como pressuposto. Na minha opinião a Bíblia oferece a melhor síntese de compreensão do homem que permite que se respeite tanto a dimensão de natureza ( o homem não parte do nada, não é um ser caótico, ele é o que é a sua natureza) como o de liberdade : o homem é, mas é também chamado a ser plenamente, a desenvolver-se e realizar em si uma vocação que o transcende.
[3] DURKHEIM, Émile. As Formas Elementares da Vida Religiosa. Martins Fontes. São Paulo 2000. Apud.: GONÇALVES, Joyce Gesuilo. O homem é um ser social?, In: Shalom Maná, 275, junho 2016 p.12-14.
[4] ARISTOTELES. A Política, in : D. HUISMAN- A. VERGEZ- S.LE STRAT. 1000 citations philosophiques. Paris :Ed. Nathan 1998, p.207.
[5] Constituição pastoral do Concílio Vaticano II Gaudium et Spes, 16.
[6] Cf. CIC, 27.
[7] Gaudium et Spes, 19,1.
[8] PLATON, Alcibiade, dans Œuvres complètes, t.I, , traduction de Léon Robin, Bibliothèque de la Pléiade, 1950, pp.147
[9] CIC, 28.
[10] Cf. Sto. AGOSTINHO, Confissões, I,1
[11] Cf. Ibidem, XIII,38
[12] Cf Gn1,26
[13] MURPHY O’CONNOR J., L’existence chrétienne selon St Paul , LD 80, Paris 1974 p. 16-17.
[14] LADARIA, L. F., Introdução à Antropologia Teológica, Ed. Loyola, S. Paulo 1998 p. 12, apud. ALVES, Josefa. Como falar adequadamente do homem. In: Shalom Maná. Fortaleza: Edições Shalom, 270, janeiro 2016, p.19-20.
[15] ORIGENES, In Lucam homiliae, XXIX,5-6 (SC 87, pp.454-457 ; PG 13,col.1900 A-B
[16] FRANKL, V., Fondamenti e applicazioni della Logoterapia, p.41
[17] Idem, La presencia ignorada de Deus. Psicoterapia y religión, p.64.
[18] Cf. PAULO VI. Populorum Progressio, 13.
[19] Gaudium et Spes, 13,1.
[20] AZEVEDO FILHO, Moysés L. Escritos, Comunidade Católica Shalom, Ed. Shalom, Aquiraz, Brasil, 2012, 6a edição, p. 64-65.
[21] Ibidem, p. 63.
[22] Cf. Rm 5
[23] Rm 6,6-14.
[24] O tema é vastíssimo e cabe volumes inteiros para desenvolver cada um dos aspectos evocados.
[25] AZEVEDO FILHO. Estatutos da Comunidade Católica Shalom, preâmbulo, edições Shalom, Fortaleza, 2012, p.9
[26] Ibidem.
[27] S.GREGŌRIO DE NAZIANZENO, Epístola a Cledônio, 7, 11-12/PG 37,181
[28] Cf. Jo 15
[29] AZEVEDO FILHO, Escritos, Obra Nova, p.15.
[30] Ibidem, p.18
[31] S. ATANASIO, De incarnatione 9 : PG 25,112.
[32] [32] AZEVEDO FILHO. Escritos, Carta à Comunidade, p.100.
[33] Idem. Escritos, Amor Esponsal, p.25.
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