Um dos temas mais desafiantes para a teologia é o problema do mal porque, de fato, diante do mal no mundo e de todas as formas de sofrimento que experimenta, não é ao mundo que o ser humano pergunta “por que?”, mesmo que o sofrimento lhe provenha do mundo, é a Deus que a pergunta é dirigida. São João Paulo II afirma que devemos dirigir essa pergunta a Deus, porque Ele mesmo espera por essa pergunta; o Seu amor, demonstrado na Cruz de Cristo, é a fonte mais plena para a resposta à pergunta acerca do sentido do sofrimento.
Encontrar no amor de Deus a resposta para o mistério do sofrimento não é justificar o mal com o amor, o que não seria verdadeiro amor. Se a oferta do Filho unigênito foi um ato de amor do Pai, para a salvação dos homens, a cruz de Cristo torna-se símbolo supremo desse amor. Amor que vence o ódio, o mal e a morte e, por isso, torna-se fonte de vida que dá sentido aos sofrimentos neste mundo.
Cada pessoa que, no seu sofrimento, volta-se para esse amor com o qual o Pai nos amou, saberá que não está sozinho na sua dor, porque por meio da oferta do Filho, Deus Pai revela-se próximo de todo sofrimento humano, pois Ele é o Bom Pastor.
O verdadeiro pastor é aquele que conhece também o caminho que passa pelo vale da morte*; aquele que, mesmo na estrada da derradeira solidão, onde ninguém me pode acompanhar, caminha comigo servindo-me de guia ao percorrê-la: Ele mesmo percorreu esta estrada, desceu ao reino da morte, venceu-a e voltou para nos acompanhar a nós agora e nos dar a certeza de que, juntamente com ele, encontra-se uma passagem. A certeza de que existe aquele que, mesmo na morte, me acompanha e com o seu “bastão e o seu cajado me conforta”, de modo que “não devo temer nenhum mal”.
Se nos interessa saber onde está Deus, diante do sofrimento dos seus filhos neste mundo, devemos olhar para as palavras e os gestos de Jesus, porque ele tornou-se incessantemente próximo do mundo do sofrimento humano. Veremos que Deus está com os que sofrem e que, especialmente a estes, revela a sua misericórdia. Devemos, sobretudo, voltar o nosso olhar para a Paixão de Jesus e perceber que também ali, Deus Pai ama o Filho de modo perdurável, eterno, e que:
“precisamente por motivo deste amor que supera tudo, Ele ‘dá’ este Filho, a fim de que atinja as próprias raízes do mal humano e assim se aproxime, de maneira salvífica, do inteiro mundo do sofrimento, no qual o homem é participante”. (Carta Apostólica Salvifici Doloris n. 14)
Afirmar que Deus espera essa pergunta é declarar que Ele não é alheio, não fica distante de quem sofre, nem abandona a obra das suas mãos. Por isso mesmo cada pessoa, no mistério insondável do seu sofrimento, é convidada a participar do sofrimento salvífico de Cristo e encontrar nele o sentido da própria vida. Sim, porque salvífico é o sofrimento de Cristo, “que assumiu sobre si os sofrimentos físicos e morais dos homens de todos os tempos, para que estes possam encontrar no amor o sentido salvífico dos seus próprios sofrimentos”. (Carta Apostólica Salvifici Doloris n. 31)
Josefa Alves
Instituto Parresia
*A metáfora do pastor que percorre o vale da morte e o “bastão e o cajado” advém da Carta Encíclica Spe Salvi (Sobre a Esperança Cristã), Papa Bento XVI, Número 6.
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