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O lugar interior

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O lugar interior é, lamentavelmente, referência na contra – mão do fluxo das referências que configuram o cenário de interesses da sociedade contemporânea. Basta folhear as páginas de um veículo de comunicação escrito. Desperta interesse e tem importância o que é mostrado em grandiosidade de cifras. As metas que mobilizam as pessoas são cifras. As cifras determinam o pulsar do coração, a grandeza das coisas. A fábrica tal, por exemplo, se fixa na meta de incluir a cifra de milhões a mais na sua capacidade de exportação. É impressionante e sedutor o aumento de um empreendimento em milhões, em pouco tempo. As pessoas são referências enquanto usuários e consumidores, fazendo pular de cifras pífias para números impressionantes. Parece mesmo folclore a notícia acerca de quem recebe um cheque de dois milhões e duzentos mil reais e justifica que sua destinação é a simples compra de uma bezerra. O valor de mercado de uma empresa, em poucos meses, para glória e deleite dos seus donos, pula de valores menores, como um bilhão, para valores astronômicos de três bilhões numa moeda forte.

Os homens mais ricos do mundo, pela conta do que conseguiram ajuntar, independentemente do modo, se tornam a referência de emulação para os demais mortais. Quando se fala de indenização chega-se facilmente a cifras como 10 bilhões de reais. Ainda que este seja um acusado de atos desonestos e espúrios contra o erário público e contra a ordem justa da sociedade. É notícia importante a compra de uma fazenda no interior, numa cidadezinha, pelo preço de três milhões de dólares. São também impressionantes as cifras do jogo sujo que mancha a honradez de representantes do povo, de autoridades e daqueles que têm poder decisório significativo no comando de instituições. A representação do interesse público e popular se vive na dinâmica de verdadeira farra. Laranjada é a dinâmica que define negócios espúrios pela preocupação desarvorada de possuir sempre mais. O absurdo dos homicídios advindos da prática horrenda do aborto tem como proposta de solução a sua legalização. Nutre-se a convicção de que a legalização do aborto será uma alavanca para a promoção da igualdade.

Estes dados todos podem ser, esparsamente, adquiridos num simples passeio até metade de uma revista de circulação nacional. Tem ainda a outra metade que continua a compor este complicado e sedutor discurso das cifras e números. Um verdadeiro emaranhado de ganâncias e pretensões. Um verdadeiro lamaçal no qual a subjetividade contemporânea vai nadando de braçada, sem rumo. O rumo perdido tem uma explicação. A explicação é que não conta nos interesses a importância imprescindível do lugar interior. É na interioridade que está a força maior. Vale lembrar aquele episódio, narrado pelo evangelista Lucas, 11, 37-41, contando que Jesus foi convidado para jantar na casa de um fariseu. Ele foi. No seu coração de mestre e de filho de Deus, o lugar interior tem consistência e força determinante de interpelação. Jesus entrou e pôs-se à mesa. O fariseu ficou admirado ao ver que Jesus não tinha lavado as mãos antes da refeição, observa o evangelista. Esta preocupação do fariseu não dizia respeito ao que tem a ver com a indispensável higiene. Na verdade, a preocupação era de caráter meramente ritual. Isto é, não fez aquilo que externamente configurava ou comprovava algo considerado como essencial.

Este fato enseja um ensinamento importante de Jesus. Jesus toca o núcleo central da questão existencial. O mestre diz ao fariseu: “Vós, fariseus, limpais o copo e o prato por fora, mas o vosso interior está cheio de roubos e maldades”. O lugar interior é, pois, a alavanca de toda conduta transparente e comprometida com o bem. A profecia de Isaías 58,8 refere-se a uma possibilidade que precisa tornar interesse de investimento e conquista do coração humano. Ele diz, “qual novo amanhecer vai brilhar a tua luz, e tuas feridas hão de sarar rapidamente”. Esta luz a que se refere à profecia não se confunde e é bem diferente da sedução das cifras e números que instalam a dinâmica de disputas e ganâncias que vão jogando a sociedade na vala da desumanidade, da exploração, da injustiça, da indiferença que incapacita para a partilha. O lugar interior das pessoas, o recôndito do coração, está assoreado. Vale o conselho do profeta: “Se tirares do teu meio toda espécie de opressão, o dedo que acusa e a conversa maligna, se entregares ao faminto o que mais gostarias de comer, matando a fome de um humilhado, então a tua luz brilhará nas trevas, o teu escuro será igual ao meio-dia”. Esta conquista só é possível quando o lugar interior é considerado o tesouro maior.

*Dom Walmor Oliveira de Azevedo, 53, arcebispo Metropolitano de Belo Horizonte (BH)

Fonte: CNBB


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