Era um sábado, intervalo do almoço. O sol da capital cearense estava de rachar. Com a cabeça quente, além de decidir onde e o que comer, outra tarefa para aperrear o juízo: observar tudo ao redor, a fim de encontrar um tema digno de ser transformado em uma crônica para a aula da tarde.
Ao dobrar a esquina, uma colega e eu, chegamos à movimentada avenida Dom Luís, com suas quatro faixas de mão única tomadas por carros e motoristas que aceleravam o quanto podiam, para aproveitar o semáforo verde. Não havia se passado um minuto desde que tínhamos saído da faculdade, entretanto, a cabeça, cansada de uma semana de tentativas frustradas de terminar um projeto, já tinha esquecido de observar.
A conversa boa e o sol tinindo ajudaram no ataque repentino de perda de memória. Foi exatamente aí que o tema veio correndo em nossa direção. E como vinha livre! Era um menino moreno, de seus doze anos, vestido apenas com um short estampado, descalço sobre o asfalto em brasa, correndo pela ciclovia no sentido contrário ao trânsito. Parecia pobre, mas, sobretudo, livre.
Imediatamente lembrei da conversa sobre São Francisco, no intervalo da manhã. Como era livre o pobrezinho de Assis, com pés descalços e coração fixado no Céu.
O porquê daquele menino estar correndo descalço ao pino do sol do meio dia, eu não sei. Só sei que nossos olhos se encontraram e, para a minha surpresa, ele sorriu pra mim. Era um sorriso franco, meio sem jeito, de quem já conhece os sofrimentos da vida, mas que nem por isso deixa de ser feliz.
Na minha cabeça, que continuava cansada e ainda mais quente, veio a certeza de que havia encontrado o tema da crônica, ou, de fato, que este havia corrido pra mim. Dessa vez, a cena daquele menino pobre não iria gerar um texto de cunho social ou de revolta com as desigualdades do mundo. Isso não se trata de simplesmente ignorar a fome, a dor, o frio, o abandono e a nudez. Não!
Só que era um garoto livre e feliz demais para ter a sua corrida eternizada assim, de forma triste. Nasceria, em seu lugar, uma crônica que remetesse à beleza da liberdade e da felicidade que só a pobreza é capaz de gerar. É bom que se diga que este é um tipo de beleza que, quem é rico de tudo, inclusive de si, dificilmente pode apreciar ou entender.
No meu coração missionário, brotou a prece para que Deus também me fizesse pobre, livre e feliz, como aquele menino que correu, sorriu e, ao chegar no fim da avenida, sumiu da minha vista, provavelmente para sempre, ou, esperançosamente, até o doce e desejado encontro na eternidade: o menino, Francisco e, quem sabe, eu.
Felizes os pobres, pois deles é o Reino dos Céus.
Confira também
