Formação

O milagre da fé

comshalom

Padre Inácio José do Vale, OSBM
Professor de História da Igreja
Faculdade de Teologia de Volta Redonda

Santo Agostinho de Hipona
Bispo e Doutor da Igreja


     A fé é um fundamento. É uma posse antecipada daquilo que esperamos,mas, que não podemos ver (Hb 11,1). Nós fomos, gratuitamente, salvosmediante a fé em Jesus (Ef 2,8), e, “é pela fé que alguém se tornaherdeiro” (Rm 4,16). “Sem fé é impossível agradar a Deus” (Hb 11,6), e,os vencedores do mundo serão aqueles que crêem que Jesus é o Filho deDeus (1 Jo 5,5). Portanto, definitivamente, nós precisamos de fé. É pormeio da santíssima fé que damos testemunho da nossa vida cristã ecompreendemos a criação do nosso bom e poderoso Criador Senhor Deus (Hb11,2.3).
A fé é um dom de Deus e Ele no-la dá dando-se a Si mesmo a nós. E nósdemonstramos nossa aceitação desse Dom de Deus, dando vidas para Jesus.Assim, participando desse relacionamento pessoal com o Pai, com o Filhoe com o Espírito Santo, é que realmente nos aprofundamos na fé.
     Se nós resistimos á tentação de termos o total controle das nossasvidas e não tentamos conseguir tudo por nós mesmos, nos aprofundaremosna fé em Deus, através de Sua própria orientação. Se assumirmos,efetivamente, nossa cruz diária nos aprofundaremos na fé em Jesuscrucificado e caminharemos com menos temor. Se deixarmos nos conduzirpela Palavra de Deus (Lc 1,38), nos aprofundaremos na fé no EspíritoSanto, que nos ensina (Jo 14,26) a ouvi-Lo através da palavra (Rm10,17).
O propósito da vida é ter fé, crescer na fé e caminhar pela fé em Deus(2 Cor 5,7). Nada mais. Será que quando voltar pela segunda e últimavez, Ele “acaso achará fé sobre a terra?” (Lc 18,8).
“A fé provém da pregação e a pregação se exerce em razão da palavra deCristo” (Rm 10,17). É pela fé que realizamos sacrifícios e serviços emprol do Reino de Deus (Fl 2,17). Tudo fazemos apoiados na fé, todavia,arraigados e edificados na Pessoa de Nosso Senhor e Salvador JesusCristo (Cl 2, 6.7). Tudo que fazemos tem Cristo como centro. Para ele étoda glória, honra, louvor e adoração para sempre. “Porque tudo é dele,por ele e para ele” (Rm 11,36).
     Como São Jerônimo dizia: “Ignorar as Escrituras é ignorar Cristo”,assim, se não conhecemos a Bíblia ou não buscamos conhece-la, torna-seincorreto dizermos que mantemos um relacionamento pessoal profundo comJesus. Além do mais, esta falta de aprofundamento, também demonstra queainda não temos a devida fé e que ainda não anunciamos a palavra Delecomo deveríamos.
     Ter fé, portanto, é ter um relacionamento pessoal tão estreito comJesus, que a Sua palavra é a única palavra que nos interessa ouvir aseguir. A leitura constante da Bíblia nos direciona para isto e é onosso primeiro passo no estreitamento definitivo, é anunciar a Suapalavra, para que outros venham a conhecê-Lo e possam segui-Lo.
Disse Jesus: “Vem e segue-me” (Mt 19,21). Seguir Jesus Cristo é ter féem Sua Pessoa: “Sem mim, nada podeis fazer” (Jo 15,5), é acreditar nosseus ensinos: “Ide, portanto, e fazei que todas as nações se tornemdiscípulos, batizando-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo eensinando-as a observar tudo, quando vos ordenei” (Mt 28,18-20).
     Quem segue Jesus Cristo, segue por amor e tem Ele como Mestre, Senhor eSalvador. Os discípulos do Divino Mestre têm a salutar doutrinação derepudiar qualquer outro mestre e outros ensinos de líderes sectários esuas crendices. Fora de Cristo a fé é morta e a crendice é ‘esperta’para enganar terrivelmente.
“Todavia é necessário distinguir entre fé e crendice. Esta é umsentimento irracional, que deteriora o conceito de fé, seja citada asuperstição do número 13. A fé, ao contrário, é um ato da inteligênciahumana que se aplica ao Ser mais nobre ou Supremo: Deus. A crendiceengana e frustra, ao passo que a fé nobilita e tende a levar o homem àperfeição que lhe é possível ou á santidade”, afirma o renomado teólogobeneditino Dom Estêvão Bettencourt (PR, Nº 542, p. 366).

FÉ E TRADIÇÃO

“A fé equivale a um patrimônio eterno”.
Santo Ambrósio de Milão
Bispo e Doutor da Igreja

     A essência do ato de fé é a adesão da inteligência ás verdadesreveladas por Deus, em virtude da autoridade dAquele que as revela. Nãose crê porque o conteúdo da fé seja evidente, nem porque ele esteja deacordo com as aspirações e as exigências pessoais ou atuais. A razãoformal da fé é o fato de ser ela revelada por Deus, e o respeito denossa inteligência lhe é devido, porque Ele não pode nem Se enganar nemnos enganar.
     A Revelação divina nos é transmitida e claramente interpretada peloMagistério infalível da Igreja, ao qual devemos um assentimento humildee filial, seja quando se exprime em sua forma extraordinária, seja emsua forma ordinária. Não é possível que a igreja se tenha enganado,ensinado durante séculos uma verdade ou condenado durante séculos umerro. Devido a sua origem divina, a fé alcança uma certeza que oconhecimento humano mais evidente não pode atingir (uma certeza, nósrepetimos, devida Aquele que revela, e não à evidência intrínsecadaquilo que é revelado). Sempre por causa dessa origem divina, quemquer que negue um só artigo da fé corta a fé pela base, como explicaSanto Tomás com clareza: “aquele que não adere, como a uma regrainfalível e divina, ao ensinamento da Igreja, […] não tem o habitusda fé. Se ele admite verdades de fé, é por outra razão diferente daverdadeira fé. […] Fica claro também que quem adere ao ensinamento daigreja como a uma regra infalível, dá seu assentimento a tudo que aIgreja ensina. Caso contrário, se ele admite somente o que quer, e nãoadmite o que não quer, a partir desse momento ele não adere mais aoensinamento da Igreja como a uma regra infalível, mas adere à suavontade própria” (Summa Th., II-II, q. V. a.3).
     Ora, é claro que, por causa da natureza estável da verdade e dAqueleque revela, ninguém, nem no seio da igreja nem fora dela, jamais poderáse outorgar o poder de ensinar alguma coisa diferente ou aposta ao quea igreja recebeu de Nosso Senhor e transmitiu ao longo dos séculos.
São Vicente de Lérins respondia assim aos que temiam que isso impedisseo progresso na Igreja: “Não haverá jamais nenhum progresso na religiãoe, portanto na igreja do Cristo? Certamente, haverá um progresso, e atéum progresso considerável! […] Mas com a condição de que se trate deum verdadeiro progresso para a fé, e não de uma mudança: há progressoquando uma realidade cresce permanecendo idêntica a si mesma. Hámudança quando uma coisa se transforma em outra.” (Commonitorium,XXXIII, 1-2).
[…] A Igreja do Cristo, guardiã vigilante e prudente dos dogmas quelhe foram confiados, nunca modifica nada neles, não lhes acrescentanada, nada lhes retira: ela não rejeita o que é necessário, nemacrescenta o que é supérfluo: ela não deixa que lhe roubem o que só aela pertence, ela não se apropria do que pertence aos outros […] Eiso que a igreja sempre fez por meio dos decretos conciliares, sendomovida (a redigi-los) pelas inovações dos heréticos. Ela sempretransmitiu à posteridade em documentos escritos o que ela tinharecebido dos padres pela tradição, resumindo em fórmulas breves umagrande quantidade de noções e, mais frequentemente, especificando comtermos novos e apropriados uma doutrina antiga, para que ela fossecompreendida”. (Ibidem, XXXIII, 15-16,19).
A nossa santíssima fé está conectada na Sagrada Escritura, Sagrada Tradição e no Sagrado Magistério.
     Escreve São Paulo Apóstolo: “Portanto, irmãos, ficai firmes; guardai astradições que vos ensinamos oralmente ou por escrito” (2 Ts 2,15).

CONCLUSÃO

     A fé é um grande milagre do bom Deus. Por ela somos justificados etemos paz e felicidade com a Santíssima Trindade, conosco e com opróximo.
A fé é a base e a posse de todo o bem supremo.
Pela fé compreendemos o escopo do mundo imanente e transcendente.
O ser humano só pode ser realizado na espiritualidade da fé cristã.
È a santíssima fé o fundamento abissal e hipotalássico de toda espiritualidade.
Entender tudo isso, significa se aprofundar demasiadamente na dimensãoespiritual da fé. Aqui se encontra tudo que uma alma precisa para sersalva.
A fé é a opulência da alma e a maior engenharia da construção da inteligência humana.
Tudo em nós é iluminado pela fé, cuja fonte é a luz de Cristo.
Vivemos pelo milagre da fé na Santíssima Trindade.


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