O mistério da salvação
A humanidade, originária de um único princípio (Atos 17, 26), chegará um dia a construir uma verdadeira unidade, em que cada pessoa acolherá o outro, sem escravizar nem colonizar ninguém?
O mistério da vontade de Deus é de reunir em Cristo todas as criaturas humanas. A segunda leitura deste domingo, Festa da Epifania, Efésios 3, 2-6, fala que, nessa vontade, está a de reunir em Cristo todo o universo, portanto também os pagãos. Essa, desconhecida às gerações precedentes, agora é revelada pelo Espírito aos “santos apóstolos”, entre os quais Paulo, e aos profetas. Mas Paulo se sente o apóstolo por excelência dos gentios, instrumento da graça para aqueles a quem comunica a vida “gerando-os em Cristo Jesus mediante o evangelho” (1Coríntios 4,15).
Mas o que define a salvação? A pessoa de Jesus Cristo. Ele é o evangelho do Pai, revelação do plano de Deus para os seres humanos. O Pai de tal modo amou o mundo que enviou o seu Filho para ser o Salvador. Todo aquele que aceita Jesus Cristo como salvador, aceita ser discípulo e seguidor d´Ele: faz-se filho de Deus.
Não há nenhuma exclusão para a admissão à salvação. “Os gentios são chamados a participar da mesma herança, a formar o mesmo corpo, e a ser participantes da promessa do evangelho”. Pagãos e judeus são, acima de toda distinção, membros do único corpo de Cristo, cordeiros porque filhos do único Pai e “coparticipantes da promessa em Cristo Jesus, unidos a ele, herdeiro único das promessas feitas a Abraão”.
A festa da Epifania é a consagração dessa Vontade de Deus: a primeira manifestação do Messias aos pagãos. O texto do evangelho de hoje é de Mateus 1,18-2,23, e reúne cinco episódios da infância do Messias. Os magos, ou sábios, de número impreciso, são doutos. Movidos pela aparição de uma estrela, vão à procura do rei dos judeus, como a Rainha de Sabá havia feito, atraída pela sabedoria de Salomão.
Narrando o episódio dos magos, Mateus comenta também o de Balaão. As analogias entre este e a narração do evangelista são evidentes; em ambos os casos trata-se de magos chamados por um rei estrangeiro (cf. Números 22,2ss) para amaldiçoar o povo; nesse caso, ao invés, para bendizer. Nos casos elencados há também uma estrela luminosa que indica o retorno sem dano às suas terras.
A intenção do evangelista Mateus é de fazer entrar os pagãos na vida de Jesus desde o princípio, e de suscitar a idéia do universalismo do reino.
Os magos, guiados pela estrela, chegam até Jesus, que encontram “com Maria sua mãe” e adoram-no. Enquanto Herodes judeu projeta a sua morte, os magos, os pagãos, prostram-se diante do Messias. A salvação chega para todo o mundo; mas os primeiros a recebê-la são os pagãos.
Nos dons trazidos pelos magos, a tradição patrística e medieval, verá símbolos da realeza de Cristo, o ouro; da sua divindade, o incenso; e da sua abençoada paixão, a mirra.
São Leão Magno escreve: “O mistério da festa de hoje deve permanecer em nós”. Devemos realizar em nós o Cristo da Epifania, o Cristo dado a todas as gentes. A graça da sua manifestação deve estar à disposição de todos.
A Epifania é o início da revelação deste mistério. Percebido pelos profetas, aparece agora pela primeira vez plenamente desvelado. A ressurreição de Cristo e a vinda do Espírito Santo em Pentecostes o darão em plenitude à Igreja, para que o ofereça a todos os povos: “e as gentes caminharão na sua luz”. A missão de mostrar Cristo às gentes é confiada à Igreja e, na Igreja, a cada um de nós.
O universalismo do evangelho muitas vezes encontra em nós limites pela tendência de erigir critérios de separação entre nós: a nossa família, comunidade, nação, raça a que pertencemos e outros mais; entre outros está também nosso credo social, político, religioso e outros grupos; e a pertença à Igreja estabelece limites em modo estreito e grotesco às medidas infinitas estabelecidas pelo amor de Cristo.
Diante de todas as discriminações que afligem a humanidade e a dividem em modos indecorosos e deprimentes, a unificação do mundo deve ser empenho de cada um, nos limites de sua disponibilidade por mínima que seja.
Só existe uma condição para ser discípulo de Jesus: que haja um mínimo de amor em nosso coração. Deus tem esperança ainda na sua criatura humana!
Cardeal Dom Gerado Majella Agnelo
Arccebispo de Salvador da Bahia
Fonte: CNBB