No Domingo, dia 30 de novembro, a Igreja iniciará um Novo Ano Litúrgico, o Ano A. O calendário da Igreja se difere do calendário civil, mas está inserido nele como um sinal da santificação e da manifestação da presença de Jesus Cristo no tempo e na história. Cristo está sempre presente na sua Igreja, especialmente nos atos litúrgicos, para realizar a grande obra da salvação, e por meio dela se dá glória a Deus e os homens são santificados. Cristo associa a si a Igreja, sua esposa, nesta obra, ela no tempo e na história invoca e anuncia o seu Senhor e por meio dele rende culto ao Pai (cf. Constituição Conciliar Sacrosanctum Concilium – SC, 7). “A Igreja nunca deixou de se reunir em assembleia para celebrar o mistério pascal: lendo «o que se referia a Ele em todas as Escrituras» (Lc 24,27), celebrando a Eucaristia, na qual «se torna presente o triunfo e a vitória da sua morte» , e dando graças «a Deus pelo Seu dom inefável (2Cor 9,15) em Cristo Jesus, «para louvor da sua glória» (Ef 1,12), pela virtude do Espírito Santo.” (cf. SC, 6).
Na liturgia, meio principal da presença do Senhor na sua Igreja (cf. SC, 7), Cristo não se faz presente somente através da celebração da Palavra e nos Sacramentos, mas nos mistérios de sua vida celebrados ao longo do ano litúrgico. É através desta celebração que a Igreja abre aos fiéis os tesouros da graça, fazendo com que em todo o tempo os fiéis possam ter contato com os méritos do Senhor e encham-se da Graça Divina. (cf. SC, 102).

Os Tempos litúrgicos e as Festas não são “aniversários” dos feitos de Jesus na sua vida terrena, antes eles são o que podemos chamar de “presença in mysterio”, ou seja, Ele está presente em toda ação ritual e em cada sinal litúrgico. Os feitos, os sinais e as palavras de Jesus, aquilo que Ele fez em sua vida terrena, já não voltam a acontecer, mas, porque são ações do Verbo Encarnado, são acontecimentos salvíficos, atuais e eficazes para aqueles que os celebram.
O Ano Litúrgico não é uma mera e inerte representação de fatos do passado, é Jesus que vive na sua Igreja e que prossegue o caminho aberto por Ele mesmo na sua Encarnação, quando passava pelas ruas e estradas fazendo o bem, e, aquelas almas por Ele encontradas tinham contato com os seus mistérios e por eles podiam viver. “O Ano Litúrgico não pode ser confundido também como um programa mais ou menos “pedagógico”” O ciclo anual não significa que retornamos sempre ao início ou que começamos novamente do zero em cada Advento, quando se inicia um novo Ano Litúrgico. Se procuramos uma imagem que possa definir o Ano Litúrgico, não podemos pensá-lo como um círculo que nos leva de volta ao mesmo ponto, mas como uma espiral que nos conduz para o alto, cada vez mais profundamente ao encontro do Esposo (cf. Mt 25,6), tornando nossa vida um sacrifício vivo, santo e agradável a Deus (cf. Rm 12,1), unindo-nos ao Senhor.

“O centro de todo o Ano Litúrgico, é o Tríduo do Senhor crucificado, sepultado e ressuscitado, que culminará no Domingo da Páscoa,” É a partir do mistério celebrado nas solenidades pascais que todo o Ano se desenvolve e é cumulado de sentido. Pois, “em cada Domingo, Páscoa semanal, a Santa Igreja torna presente este grande acontecimento, no qual Jesus Cristo venceu o pecado e a morte. Da Páscoa do Senhor, procedem todas as celebrações do Ano Litúrgico.” Em cada Festa da Mãe de Deus, dos Apóstolos, dos Santos, ou quando a Igreja comemora os fiéis defuntos a Igreja proclama a Páscoa do Senhor e espera ansiosa a sua volta no fim dos tempos. Cada novo Ano inicia-se com a celebração do I Domingo do Advento e encerra-se com a Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo.
A estrutura do Ano Litúrgico
Se o ano terrestre se divide em quatro estações e a partir delas a vida humana é organizada, o Ano Litúrgico está dividido em dois grandes ciclos: o Ciclo da Páscoa e o Ciclo do Natal, tendo um outro ciclo que podemos chamar de Ciclo Comum inserido entre os dois maiores. Cada um deles tem as suas Festas e celebrações próprias.
O primeiro é o Ciclo do Natal, iniciado pelas quatro semanas do Tempo do Advento, que, como o próprio nome indica, é o Tempo de preparação espiritual para a vinda do Senhor, na celebração de sua Natividade e, ao mesmo tempo, a espera da segunda vinda gloriosa do Senhor. Esse Tempo, termina na tarde do dia 24 de dezembro, quando iniciamos o Tempo do Natal que é concluído na Festa do Batismo do Senhor. Dentro deste Ciclo, também são celebradas as Festas dos Santos Inocentes, de Santo Estêvão, de São João Evangelista e da Sagrada Família, e ainda as Solenidades de Santa Maria Mãe de Deus e da Epifania do Senhor.
O Ciclo da Páscoa é o mais importante de todo o Ano Litúrgico. A Quarta-feira de Cinzas, início da Quaresma, marca a abertura deste Tempo forte de 40 dias para recordar os 40 dias que Jesus passou no deserto e os 40 anos em que o povo de Israel peregrinou no deserto rumo à terra prometida. Nesse período, a Igreja convida os fiéis à conversão através das práticas da oração, do jejum e da esmola. O Tempo da Quaresma vai até a Missa na Ceia do Senhor, exclusive, assim, ele se encerra na Quinta-feira Santa, antes da Missa vespertina de lava-pés e da instituição da Eucaristia, que marca o início do Tríduo Pascal. Na última semana da Quaresma temos a Semana Santa que começa com o Domingo de Ramos e tem seu cume no Tríduo Pascal, seguido do Domingo da Páscoa da Ressurreição do Senhor, e então dá-se início ao período solene de 50 dias, passando pela Ascensão do Senhor e tendo o seu encerramento na Solenidade de Pentecostes.
O Tempo Comum é constituído por um ciclo de 33 ou 34 semanas, dividido em duas partes, a primeira inicia-se após o Tempo do Natal e se estende até a véspera da Quarta-feira de Cinzas, e a segunda parte inicia-se após a Solenidade de Pentecostes estendendo-se até a conclusão do Ano Litúrgico. Nesse período, a Igreja convida os fiéis a mergulharem no mistério de Cristo em sua totalidade, sua vida pública, desde o chamado dos primeiros discípulos, os milagres, as curas, as pregações e os ensinamentos até aqueles que narram o fim dos tempos. Durante esse ciclo, celebramos outras Solenidades que chamamos de “cristológicas”, como a da Santíssima Trindade, de Corpus Christi e a do Sagrado Coração de Jesus. Ao longo de todo o Ano Litúrgico, a Igreja também celebra as Memórias e Festas relacionadas à Virgem Maria e aos Santos, mas sempre tendo como referência o mistério pascal.
Cada Ano Litúrgico é dedicado a um dos três evangelistas sinóticos, e desta forma aos Domingos lemos o Evangelho de São Mateus no ano A, o de São Marcos no ano B e o de São Lucas no ano C. O Evangelho de João é lido nos dias de Festas e Solenidades, em alguns Domingos da Quaresma e principalmente no Tempo Pascal.
Nessa espiral em que, como peregrinos, vamos subindo, como numa grande procissão ao encontro do Esposo, somos associados a Ele e vivemos neste mundo um ritmo que nos anuncia a eternidade sempre presente no meio de nós. A cada Ano mais próximos daquele dia sem ocaso em que veremos face a face Aquele que velado pelo véu dos mistérios celebrados, adoramos aqui nesta terra.
“Sim, é tão sublime o mistério da bondade divina:
ele se manifestou na carne,
foi justificado no Espírito,
apareceu aos anjos,
foi anunciado aos povos,
foi acreditado no mundo,
e exaltado na glória!”
(1Tm 3,16)
Um Feliz e Santo Ano Novo Litúrgico!
Shalom
1 Conc. Trento, Sess. XIII, 11 Out. 1551, Decr. De ss. Eucharist., ci 5: Concilium Tridentinum, Diariorum, Actorum, Epistolarum, Tractatuum nova collectio, ed. Soc. Goerresiana, t. VII. Actas: Parte IV, Friburgo da Brisgóvia, 1961, p. 202
2 JULIÁN LÓPEZ MARTIN, A Liturgia da Igreja, Ed Vozes, Petrópolis- RJ, 2022.
3 CNBB, Diretório da Liturgia da Igreja do Brasil, Anúncio da Páscoa e das Festas Móveis.
4 Idem, 2.
5 Cf. Paschalis Sollemnitatis: A Preparação e Celebração das Festas Pascais. Disponível em: https://presbiteros.org.br/paschalis-sollemnitatis-a-preparacao-e-celebracao-das-festas-pascais/ Acesso em 22 out.2025.



