O Natal é uma celebração universal e há neste tempo uma atmosfera única, pois até aqueles que dizem não acreditar, podem perceber que algo de extraordinário e transcendente acontece nesta celebração cristã. O Natal é a celebração da vida, é o início de tudo e ao mesmo tempo, é um maravilhoso anúncio pascal. Na Páscoa celebramos a vitória de Cristo sobre o pecado e a morte: é aquele momento final, em que a glória do Ressuscitado resplandece como a luz do dia; No Natal celebramos a entrada de Deus na história, fazendo-se homem para levar o homem a Deus: ele marca, por assim dizer, o início, quando se percebe o clarão da alvorada. Assim como a aurora precede e já faz sentir a luz do dia, assim o Natal já anuncia a glória da Cruz e da Ressurreição.
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Ó Noite Feliz, tu vistes a hora em que o teu silêncio foi rompido pelo choro do Menino de Belém. Deus desceu dos céus, se abaixou até o pó da terra, assim como também numa noite descerá à Mansão dos Mortos. Ó Noite Santa em que o Menino é envolto em faixas e colocado numa manjedoura, Ele mesmo sendo descido da cruz será envolto em lençóis e colocado num sepulcro. Ó noite de alegria verdadeira, pois os céus cantam a bondade e Glória de Deus. Nessa noite a treva humana é iluminada pela luz de Deus. “Os pastores correm apressados para ver o Pastor, o Cordeiro inocente”, assim como Pedro e João correrão naquele dia para ver o sepulcro vazio. Ó Noite em que os astros proclamam a renovação de toda a criação, o homem se enche de Esperança e os anjos espantados cantam Aleluia ao Filho em seu abaixamento.
O Natal é a festa do encontro
A liturgia torna presente e atualiza o mistério de Cristo pelo seu poder transformante. Por esta graça, ultrapassamos os limites do espaço e do tempo e encontramos Jesus, um bebê recém nascido, chorando numa gruta humilde e pobre. Isso se torna evidente ao repetirmos o refrão do Salmo da missa da Noite Santa do Natal, “Hoje nasceu para nós o Salvador, que é Cristo, o Senhor” (Lc 2,11). “Este advérbio de tempo, “hoje”, recorre várias vezes em todas as celebrações natalícias e refere-se ao acontecimento do Nascimento de Jesus e à salvação que a Encarnação do Filho de Deus vem trazer.” Mesmo com o passar dos anos a liturgia continua atualizando o mistério, tornando-o presente. Jesus nasce “hoje”, esse nascimento envolve a nossa história e é uma realidade também no “hoje” das nossas vidas, mas só chegaremos a esse “hoje”, através da Liturgia.
O Criador se torna homem, torna-se pequeno, frágil e dependente. É impactante pensar que livremente o Criador do mundo tenha descido aqui em baixo, para que todos nós pudéssemos ter acesso ao Pai e reconhecer o seu amor infinito. “Não mera mudança de lugar, mas um doce abaixar-se de Deus até o homem foi ter nascido da Virgem Mãe”.
O Natal é o abraço de Deus no homem. É o sorriso de Deus que revela a sua face no recém-nascido de Belém. Deus se inclina sobre os nossos limites, as nossas debilidades, os nossos pecados. Deus entra na história do homem, em suas alegrias e ansiedades, em tudo o que constitui sua natureza e sua vida. Nesta noite Santa o coração de Deus se inclina até o curral, pois Jesus Cristo, “embora fosse de condição divina… aniquilou-se a si mesmo, assumindo a condição de escravo e assemelhando-se aos homens” (Fl 2,6-7). Na gruta de Belém contemplamos o abaixamento de Deus que se abaixa a ponto de ser colocado numa manjedoura, um verdadeiro prelúdio da humilhação na sua Paixão. O ponto mais alto da história de amor entre Deus e o homem passa através da manjedoura de Belém e do sepulcro de Jerusalém.
A manjedoura e o Altar
Em Belém (Bethlehem), cuja etimologia significa “Casa do Pão”, nasce o verdadeiro Pão da Vida. Ele é envolto em faixas e reclinado numa manjedoura, assim como na Celebração Eucarística, o Corpo de Cristo é envolto em panos de linho. Na interpretação de Santo Agostinho, a “manjedoura é o lugar onde os animais encontram sua nutrição. Agora, no entanto, está na manjedoura Aquele que se indicou como o verdadeiro pão que desceu do céu, como o verdadeiro alimento que o homem precisa para seu ser uma pessoa humana. É o alimento que dá ao homem a vida real, a vida eterna.” A manjedoura dos animais é o símbolo do altar, sobre o qual está o Pão que é o mesmo Cristo: o verdadeiro alimento para os nossos corações. Aí podemos ver como Ele se fez pequeno: na aparência humilde daquela hóstia branca, de um pedacinho de pão, Ele se nos doa a si próprio. Relembramos o sinal dado aos pastores, mas que também é dirigido a todos nós: um menino nos foi dado (cf Is 9,5); o menino no qual Deus se fez pequeno por nós.
O Senhor sabe que precisamos nos alimentar todos os dias, ele se oferece em alimento todos os dias, desde a manjedoura de Belém até ao Cenáculo em Jerusalém. Ele não tira a vida, mas dá a vida, dá o alimento e diz: “Tomai e comei isto é o meu corpo.” (Mt 26,26). Na manjedoura e no Altar, Cristo bate à porta para entrar e ceiar conosco (cf. Ap 3,20), é o céu que toca a terra e nossa pobre terra é preenchida de eternidade.
A Festa da Luz
O verdadeiro mistério do Natal é a Luz esplendorosa que irradia desse Menino. As orações e textos das quatro missas do Natal tem muito a nos falar sobre isso. A oração Coleta da Missa da Noite diz que Deus fez “resplandecer esta noite santíssima com a claridade da verdadeira luz” e na Missa da Aurora a também a Oração Coleta pede que “ao sermos envolvidos pela nova luz do vosso Verbo encarnado, manifeste-se em nossas ações o que brilha pela fé em nossa mente.” O Evangelho da Missa do Dia fala de Jesus como a Luz que brilha nas trevas (cf. Jo 1,5). Nesse mistério da glória de Deus uma nova luz brilhou para nós e nele aprendemos a reconhecer a divindade que não vemos.
Neste tempo nossas casas, ruas e praças se enchem de luzes, uma maravilha para os olhos. Essas luzes nos atraem para outra Luz, invisível aos olhos, mas não ao coração. Quando contemplamos com os olhos da carne essas luzes, quando acendemos em nossas casas, quando acendemos as velas na Igreja estamos pedindo que o Senhor acenda em nossos corações a sua Luz verdadeira. O Emanuel é a verdadeira e brilhante Estrela das nossas vidas (cf. Ap 22,16).

Com o tema da luz, o Natal nos faz pensar nesta luz interior, na Luz divina, e por isso podemos voltar ao tema do anúncio da vitória definitiva do amor de Deus sobre o pecado e a morte. É preciso permitir que essa luz interior e cheia de esplendor se propague, antes porém, é necessário abrir o coração para recebê-la e deixar-se envolver por essa Luz. Que essa Luz acenda em nós a chama do amor e assim cada um de nós leve o amor de Deus ao mundo. Essa Luz se guarda e se partilha e quanto mais se partilha mais Luz se recebe e em mais Luz se envolve.
Feliz Natal!
Vinicius Cordeiro

