Formação

O monge, o menino e o Ano Novo

comshalom

Certa vez, um garoto foi apanhado pelo abade, roubando frutas no pomar do mosteiro. O velho monge irritadíssimo, debaixo da árvore, observava o menino. Ao se perceber olhado, o jovem apavorou-se e teve medo. O abade, porém, investigando os tesouros de sua vasta sabedoria, resolveu mudar de reação, julgando que houvesse um motivo providencial para que ele, e nenhum outro monge, surpreendesse o jovem. Sorriu e gritou: “Colha algumas para mim! Sou muito idoso e não posso fazê-lo”. O jovem suspirou aliviado. Depois de colher o bastante, sentou-se debaixo da árvore com o venerável monge e conversaram sobre muitas coisas.

O adolescente, encantado com a vida do velho monge, perguntou com os olhos cheios de vida e ávidos de desafio, como é próprio dos jovens: “Que tentações um monge como o senhor ainda pode sofrer, visto que é tão experiente e já venceu tantas batalhas?” O abade, com o rosto sulcado pela idade, sorriu largamente, amando aquele garoto, como Jesus amou o jovem do Evangelho ( Mc 10,21) e disse: “Nunca estaremos livres das tentações”. “Mas penso”, continuou o monge agora com rosto grave e olhar fitado no horizonte, “que a maior tentação que corremos o risco de cair em suas tramas, mesmo depois de anos de amizade e intimidade com Deus, é uma só. Todas as outras tentações provem desta”. O garoto arregalou os olhos, e mais ainda os ouvidos, como querendo não perder nada e registrar no íntimo da memória as sábias palavras do velho religioso. Disse então o monge: “É achar que Deus não é mais novidade. É pensar que tudo que era pra eu ter visto, ouvido e experimentado da parte de Deus, já vi, já ouvi, já experimentei. Como se Deus fosse um ser decodificado para mim”.

O jovem, interessado mas ainda confuso, interpelou o velho: “E isso é muito ruim, não é?” “Sim”, continuou o monge, “traz inúmeras consequências. Se Deus não for uma eterna novidade para mim, Jesus se transforma em um personagem histórico simplesmente, como Galileu, Tiradentes e outros, que fizeram e disseram grandes coisas, mas ficaram sepultados no passado.  Se Deus não for novidade para mim, a Bíblia vira um livro de história, de romance, de poesia e nada mais que isso. A Missa vira uma peça de teatro ou um filme que eu já vi mil vezes. O terço vira uma série de repetições vazias, nosso trabalho na vinha do Senhor vira um funcionalismo mecânico, sem amor. Nossa evangelização fica sem ardor, e nossa vida de oração torna-se fria e sem unção, porque estaríamos nos relacionando com um ser desgastado, sem vida”.

“Ao contrário, meu caro jovem”, continuou o monge, “se Deus for uma eterna novidade, tudo ganha cor e vida. Jesus se apresenta para mim como O Vivente, Aquele que não só curou, mas continua curando, salvando, amando”. O velho monge fez uma pausa e pareceu embargar a voz. Com os olhos umedecidos, continuou: “A bíblia se torna para nós, verdadeiramente, a palavra de Deus,‘Luz para nossos passos, lâmpadas para nossos pés’ (Sl 118,105), torna-se direção, rocha onde jovens como você podem construir o futuro,(Sl 118,8) e anciãos como eu podem encontrar consolo e repouso na velhice”.

“Ah! A santa missa”, disse o monge com a face radiante: “ela se torna, para mim, a atualização da paixão, morte e ressurreição de Jesus. Somos transportados pelo Espírito até o calvário. O terço vira uma arma de combate e um escudo contra o mau. Por fim, meu filho, a evangelização…” Interrompeu o garoto: “Já sei! Já sei! A evangelização ganha ardor, vida e leva muitas pessoas à experiência com o amor de Deus”. Sorriu o monge, e disse: “Isso mesmo, como você percebeu isso?” “É o que está acontecendo comigo agora”, disse emocionado o garoto. O abade o abraçou e o levou para casa.

Esta história tem muito a nos ensinar. Acabou-se um ano, estamos iniciando outro. Quantos propósitos, planos, promessas as pessoas envolvidas pela emoção das festas de final de ano acabam fazendo… Emagrecer, passar no vestibular, fazer aquele curso, casar-se… Pode ser que tais propósitos sejam muito lícitos, ou até mesmo santos. Mas se Deus não for a eterna novidade, podemos correr o risco de não encontrar sabor em nada.

Para alguns, o ano se inicia com uma lista imensa de rotinas a ser cumpridas. Isso cansa só de pensar. Se, porém, Deus for novidade, não haverá monotonia nem rotina. Onde está Deus, não há rotina.  Deus é amor, e o amor faz com originalidade as coisas mais repetitivas e ordinárias. Precisamos, antes de tudo, iniciar esse ano com o seguinte entendimento: “Eu não conheço quase nada de Deus. Tudo que experimentei até hoje, em seminários, retiro, aprofundamentos, ao longo de minha vida de fé, não é ainda um grão de areia perto de tudo aquilo que Deus é e pode dar-me de experiência com Ele e com seu amor”.

O pior ainda pode acontecer se Deus não for esse “novo eterno” a irradiar luz na nossa vida. Correríamos um sério perigo de ir buscar novidade em outros lugares, longe de Deus e do seu amor e, fechados em nós mesmos, morrermos no velho: velhos hábitos, comportamentos, mentalidades. Peçamos a Deus, que faz novas todas as coisas, que este ano seja realmente novo. Não porque conquistarei tudo que quero, mas porque sou uma nova criatura.

Sem dúvida alguma terei um ano feliz, mesmo sem dinheiro no bolso, ou, se assim Deus permitir, sem saúde para “dar e vender”, como diz a tradicional canção. Mas terei aquela feliz sensação de que vivi o que Deus queria que eu vivesse, mesmo que, humanamente falando, eu não tenha conquistado tudo que planejei.

Feliz Ano Novo!

Rodrigo Santos

seminarista* da Comunidade Católica Shalom

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