Olhar da janela do meu quarto hoje foi um pouco diferente, percebi que o muro não me deixa ver bem o céu. A vista da minha janela ficou então dividida entre um alto muro cinza e o imenso céu azul. Isso me fez refletir sobre as diversas coisas que me afastam do céu: a ingratidão, a reclamação, o julgamento, o egoísmo, a indiferença, são tijolos que constroem um muro entre mim e o céu, me impedindo de vê-lo e, o pior, de vivê-lo e tocá-lo no dia-a-dia.
Quanto tempo nós perdemos enumerando o que não deu certo ou buscando justificativas para os nossos erros. Enquanto isso os dias passam, as circunstâncias nos arrastam e a vida se reduz a um acaso. Sim, porque é isso que acontece quando excluímos Deus das nossas vidas: ela se reduz a um acaso.
A parte boa é que dá pra recomeçar sempre. E, se eu quiser, esse muro não será capaz de me afastar do céu que eu posso viver aqui, hoje, agora: perdoando quem me ofendeu; dividindo meu biscoito com alguém; ouvindo outra vez a história que meu amigo já contou; agradecendo o que eu nunca agradeci; beijando os meus pais antes de dormir. O céu é grande, mas é feito de pequenas escolhas e na lógica dele. Extraordinário é ser simples, grande é ser pequeno, ser feliz é se anular.
Marcela Serrão
